O melhor do futebol brasileiro, todos os dias
Beira do Campo
BEIRADO CAMPO
Opinião

54% dos brasileiros desistiram da Copa 2026 — e eu entendo

Datafolha revelou que mais da metade do Brasil não quer saber da Copa do Mundo. Neide Ferreira entende os desistentes, mas não deixa ninguém barato nessa coluna.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
5 min de leitura
54% dos brasileiros desistiram da Copa 2026 — e eu entendo
Copa do Mundo 2026 e o desinteresse histórico dos brasileiros — Foto: Reprodução / Promoview

Cinquenta e quatro por cento. Mais da metade do Brasil. Esse é o número de brasileiros que, segundo pesquisa Datafolha divulgada na semana passada, simplesmente não têm interesse em assistir à Copa do Mundo de 2026. Recorde histórico desde 1994, quando o instituto começou a medir o termômetro da torcida. O maior desinteresse da história. E sabe o que eu digo? Entendo.

Mas entender não é o mesmo que aceitar.

O 7x1 ainda dói, e a CBF nunca pagou essa conta

Deixa eu ser honesta com vocês, como sempre fui: a Seleção Brasileira perdeu o povo. Não foi de repente. Foi aos poucos, jogo a jogo, Copa a Copa, numa sequência de vergonhas que qualquer torcedor de futebol carrega na memória.

Começou com o 7 a 1 em casa, diante da Alemanha, em 2014. Uma cicatriz que não fecha. Depois veio a eliminação para a Bélgica em 2018, para a Croácia em 2022 — aquela de pênaltis que parou o coração de 200 milhões de pessoas. A Argentina ergueu a taça duas vezes enquanto a gente ficou olhando da janela. Vinte e quatro anos sem título. Uma geração inteira de brasileiros que nunca viu a Seleção campeã.

Para completar o quadro, nas Eliminatórias para esse Mundial o Brasil terminou em quinto lugar. Quinto. A pior colocação da história da Seleção numa campanha classificatória. Com Ancelotti, o mesmo técnico que ganhou tudo no futebol de clubes, não conseguimos passar pela Argentina e pelo Uruguai sem tropeçar. O que o Brasil ainda precisa corrigir para ser campeão é uma lista longa — e todo mundo sabe disso.

Então sim: os 54% têm lá suas razões.

A Copa que chega com a lista de baixas crescendo

A menos de dois meses do torneio, o Brasil já contabiliza um morto e dois na UTI na lista de convocáveis. Rodrygo, um dos maiores jogadores do Real Madrid, rompeu ligamento cruzado e menisco em março — está fora. Estêvão, a maior promessa jovem do país, tem lesão muscular de grau 4 na coxa e tenta um milagre para chegar. Éder Militão voltou de afastamento recente e ainda gera preocupação no departamento médico.

E o Neymar? Ah, o Neymar. O maior jogador da geração está há meses correndo atrás da própria sombra. Ancelotti não o chamou até aqui porque "não está a 100%". A convocação final sai em 18 de maio. São menos de quatro semanas para o craque do Santos convencer o italiano de que merece uma vaga. Um folhetim à parte, dentro de uma Copa que já começa cheia de interrogação.

O desinteresse é democrático: entre as mulheres, chega a 62%. Entre os homens, 46%. Os jovens de 16 a 24 anos ainda guardam algum entusiasmo — 24% dizem ter muito interesse. Os mais velhos, que viveram cada eliminação doendo mais que a anterior, se afastaram ainda mais.

Tudo isso faz sentido. A lógica é de quem apanhou muito.

Mas eu não vou desistir — e você também não deveria

Aqui eu paro e viro a mesa.

Entender a frustração não significa virar as costas para a Seleção. Isso é a saída fácil, a saída de quem diz que não torce para não sofrer. Brasileiro não foi feito pra isso.

A Copa começa em 11 de junho. Independente de Rodrygo ou Neymar, vai ter 26 jogadores do Brasil em campo. Vai ter Vinicius Jr. em plena potência. Vai ter Raphinha. Vai ter gente nova querendo mostrar serviço para o mundo inteiro. Vai ter jogo. Vai ter emoção.

Sim, a CBF fez muita besteira. Sim, as Eliminatórias foram vexatórias. Sim, a gestão do futebol brasileiro é um circo há décadas. Mas a Seleção não é a CBF. A Seleção é o país.

E eu, que já chorei o 7x1 como qualquer um de vocês, que critiquei Felipão, Dunga, Tite e todo treinador que passou por aqui, não vou deixar de vibrar quando o Brasil entrar em campo. Não pela CBF. Não pelos dirigentes. Pelos jogadores que se sacrificaram para chegar até ali.

A conclusão que ninguém quer ouvir

Cinquenta e quatro por cento do Brasil diz que não vai assistir. Aposto que na hora do jogo, boa parte desses 54% vai estar na frente da televisão. Porque somos assim. Xingamos, reclamamos, ameaçamos virar as costas — e quando a bola rola, a gente volta. É fraqueza? Talvez. Mas é uma fraqueza coletiva que nos une há um século.

O que não posso aceitar é normalizar a ideia de que o Brasil não merece mais nossa atenção. A Seleção precisa de cobrança, não de silêncio. Precisa de pressão, não de abandono. Quando 54% param de se importar, os dirigentes da CBF agradecem — porque quem não acompanha não cobra.

Torça, grite, critique, exija. Mas torça.

O hexa não vem de mãos dadas com o desinteresse.

Fonte: Datafolha, CNN Brasil, ESPN Brasil | Informações adicionais por Beira do Campo

#selecao-brasileira#copa-2026#opiniao#datafolha#ancelotti
Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.