Ancelotti e o tabu do técnico estrangeiro na Copa 2026
Toda véspera de Copa alguém desencava a estatística de que técnico estrangeiro nunca levantou a taça. É a desculpa pronta para botar a culpa no passaporte de Ancelotti antes mesmo da bola rolar — e eu não compro.


Pode anotar: nas próximas duas semanas, alguém de terno vai aparecer na sua TV repetindo, com cara de quem descobriu a pólvora, que nenhum técnico estrangeiro jamais ganhou uma Copa do Mundo. Vão dizer isso olhando para Ancelotti como se o italiano carregasse uma maldição na bagagem. Pois eu já aviso: essa conversa é a desculpa mais preguiçosa do futebol brasileiro, montada para ter um culpado pronto antes mesmo de a bola rolar nos Estados Unidos.
A estatística existe, é verdade. Em 22 edições disputadas entre 1930 e 2022, todas as seleções campeãs foram comandadas por um treinador da mesma nacionalidade. Vinte e duas a zero. Parece um veredito do destino. Só que estatística não é profecia — é retrato de uma época. E a época que produziu esse número simplesmente não existe mais.
O tabu é uma coincidência, não uma maldição
Por décadas, técnico não cruzava fronteira. O cara nascia, jogava, treinava e morria no mesmo país. Convocar um estrangeiro para comandar a seleção era exceção rara, quase escândalo diplomático. Então não é nenhum milagre que os campeões fossem todos da casa: praticamente só havia treinadores da casa disputando. O "tabu" mede menos a competência dos gringos e mais o tamanho do isolamento de outros tempos.
Agora olhe para a Copa de 2026. Mais da metade das 48 seleções classificadas chega ao Mundial com técnico de outra nacionalidade. Ou seja: a tal "regra sagrada" vai ser quebrada de um jeito ou de outro, porque a chance de o campeão ser dirigido por um estrangeiro nunca foi tão alta. Insistir no tabu hoje é como dizer que ninguém nunca tinha pisado na Lua — verdade até o dia em que deixou de ser. Quem se agarra a esse número está torcendo contra a aritmética.
A culpa não cabe no passaporte de Ancelotti
O que me irrita de verdade não é a estatística. É o uso que fazem dela. O discurso do "técnico estrangeiro nunca ganhou" não é análise, é seguro contra frustração. Se o Brasil cair, já está lá o bode expiatório embrulhado para presente: a culpa foi de ter contratado um italiano. Ninguém vai precisar olhar para a defesa, para o meio-campo sem dono ou para a dependência crônica do talento individual. Joga tudo no colo do passaporte e segue a vida.
Só que Ancelotti não vai ganhar nem perder essa Copa por ser de Reggiolo. Ele vai ser julgado pelo que cabe ao trabalho dele: dar identidade a um time que andava jogando no improviso, escolher entre a experiência de Casemiro e a fome da molecada, e decidir se monta a equipe em volta de Vini Jr ou ao lado dele. Foi exatamente o tipo de dúvida que ele expôs depois do 6 a 2 sobre o Panamá no Maracanã, quando os reservas entraram no segundo tempo e bagunçaram suas certezas. "Passa pela minha cabeça mudar a equipe", admitiu. Isso é problema de treinador, não de nacionalidade.
E, sejamos honestos: o currículo dele faz o tabu parecer ainda mais ridículo. Estamos falando do homem com mais Champions League do que muito país tem Copa na estante. Se experiência em decisão valesse passaporte, Ancelotti já seria brasileiro naturalizado faz tempo.
O contra-argumento que eu aceito
Vou ser justa, porque dá para discordar de mim com elegância. Copa não é clube. Ancelotti está acostumado a meses de trabalho diário, elenco montado sob medida e tempo para corrigir rota. Na seleção, ele tem semanas, um amistoso contra o Egito ainda pela frente e zero margem para erro a partir do jogo contra o Marrocos, no Grupo C. A barreira do idioma, o conhecimento raso do futebol de base brasileiro, a leitura do vestiário canarinho — tudo isso é real e pode pesar. Quem aponta esses riscos está fazendo o debate sério que o tabu finge fazer.
Mas reparem na diferença. Esses são argumentos sobre o trabalho, sobre adaptação, sobre contexto. São coisas que se medem em campo. O "técnico estrangeiro nunca ganhou" não mede nada disso — é só um número velho usado para encerrar a conversa antes de ela começar. Um é crítica. O outro é superstição com gravata.
Chega de desculpa pré-fabricada
Já dei minha opinião sobre o favoritismo morno do Brasil nesta Copa, e mantenho: o problema da seleção nunca foi a origem do treinador. Foi a falta de projeto, de coragem para apostar em uma ideia e bancá-la até o fim. Ancelotti pode acertar ou pode fracassar, e eu serei a primeira a cobrar se ele entregar um time sem cara. Mas que ele seja julgado pelo que fizer no gramado, e não por uma planilha de campeões que diz mais sobre o século passado do que sobre 2026.
Se o Brasil levantar a taça nos Estados Unidos, o tabu vai cair e ninguém vai lembrar dele no dia seguinte. Se cair na primeira fase, o passaporte de Ancelotti será a última coisa que explicará o vexame. De um jeito ou de outro, está na hora de aposentar essa muleta estatística. Quem quiser apostar contra o italiano que aposte pelos motivos certos — e que tenha coragem de assinar embaixo. Como dizem os tais especialistas da CNN sobre o desafio de quebrar o tabu, recordes existem para ser batidos. Eu prefiro acreditar nisso a acreditar em maldição.
Perguntas frequentes
- Algum técnico estrangeiro já ganhou a Copa do Mundo?
- Não. Nas 22 edições disputadas entre 1930 e 2022, todas as seleções campeãs foram comandadas por treinadores da mesma nacionalidade da equipe.
- Quem é o técnico da Seleção Brasileira na Copa de 2026?
- O italiano Carlo Ancelotti, anunciado em maio de 2025, é o primeiro estrangeiro a comandar o Brasil em uma Copa do Mundo.
- Quando o Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026?
- O Brasil estreia em 13 de junho contra o Marrocos, pelo Grupo C, que ainda tem Escócia e Haiti.
Fonte: CNN Brasil, Bolavip, CBF | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.

