São Paulo não bate o Palmeiras há 12 jogos. Cadê o orgulho?
Jhon Arias decidiu no Morumbi e o Choque-Rei voltou a terminar do jeito que o São Paulo mais odeia. São 12 clássicos consecutivos sem vitória tricolor. Neide Ferreira questiona: até quando?


Pode anotar mais um na lista. São Paulo 0, Palmeiras 1. Jhon Arias apareceu aos 67 minutos dentro da área como se fosse a coisa mais natural do mundo, bateu, e o Morumbi silenciou. De novo. São Paulo não bate o Palmeiras há 12 jogos consecutivos. Doze. Uma sequência que atravessa três treinadores no banco tricolor, duas campanhas de Brasileirão e nenhuma resposta convincente.
A torcida do São Paulo pode culpar a arbitragem, o gramado, a escalação do técnico, a fase da lua. Mas o número não mente. Doze partidas. Zero vitórias. É regularidade — e regularidade tem nome: desvantagem crônica.
O São Paulo que desaparece quando o rival entra
Era para ser o jogo mais bonito da rodada. O pré-jogo prometia tudo: os dois times chegaram ao Morumbi com 16 pontos cada, co-líderes do Brasileirão. São Paulo vinha de melhor início no campeonato em sete anos, com Roger Machado dando identidade ao time. Palmeiras era o Palmeiras — sólido, organizado, incomodativo.
O primeiro tempo foi o São Paulo tentando jogar. Teve posse, tentou girar o jogo, mandou bolas na área, mas sem chegar com perigo real. Calleri sumiu. Luciano ficou pelo lado esquerdo como um fantasma. A marcação alta palmeirense não deixou o Tricolor respirar perto do gol.
No segundo tempo, Abel Ferreira ajustou e o Palmeiras passou a dominar. Jhon Arias, o colombiano que os torcedores palmeirenses adoram e os rivais odeiam, foi destravado à esquerda. Aos 67 minutos, recebeu na área, girou sobre o marcador e bateu no canto. Sem drama. Sem defesa possível. 1 a 0.
O São Paulo respondeu com boa vontade, mas sem criatividade. Roger Machado colocou atacantes extras, mexeu no sistema, mas o Palmeiras simplesmente fechou os espaços como faz há anos. O placar não mudou.
Os números que envergonham
12 clássicos sem vencer. Percorrer essa sequência é como ler uma lista de vergonhas:
- Fevereiro de 2023 — São Paulo perde no Paulistão
- Abril de 2023 — derrota no Brasileirão
- Agosto de 2023 — mais uma
- E assim por diante, treinador após treinador, mês após mês
Ao longo desses doze jogos, o São Paulo teve, em média, menos finalizações no alvo que o rival. Não é azar. Não é desfalque específico. É que o Palmeiras, quando joga contra o São Paulo, monta um ambiente tático que o Tricolor não sabe quebrar há anos.
Para piorar o contexto: o São Paulo chegou a liderar isolado o Brasileirão com Roger Machado, três pontos à frente de todo mundo. Estava o melhor time do campeonato até aqui. E ainda assim não conseguiu uma vitória no clássico decisivo.
Isso diz mais sobre o problema do que qualquer derrota feia diante de um time pequeno.
O advogado do diabo (porque todo artigo precisa de um)
Vou ser justa. O Palmeiras de 2026 é bom. Muito bom. 12 jogos de invencibilidade sobre o São Paulo é também um reflexo de um clube bem estruturado, com Abel Ferreira moldando um elenco que entende o que precisa fazer dentro de campo.
E o São Paulo até jogou. Não foi uma vergonha tática, não foi uma goleada humilhante. Foi um 0 a 1 disputado, com o Tricolor tendo suas chances e um goleiro palmeirense bem postado.
Além disso, Roger Machado ainda está construindo seu trabalho. Quatro meses de campeonato pela frente. O time pode evoluir.
Tudo isso é verdade. E não muda nada.
Um clássico virou mito. E mito não se combate com boa vontade
O problema dos 12 jogos não é tático — é mental. Quando uma sequência como essa se instala num clássico, ela começa a ter vida própria. O jogador adversário entra em campo com uma confiança diferente. O jogador da casa carrega uma sombra que não está no livro de sistemas.
Jhon Arias não entrou pensando "tenho que marcar porque somos superiores". Entrou sabendo que a história está do lado dele. E o zagueiro são-paulino que chegou atrasado na dividida estava carregando esse peso sem saber.
Enquanto o São Paulo não construir uma vitória — uma, só uma — nesse confronto, o ciclo se perpetua. E não adianta Roger Machado montar uma equipe excelente, não adianta liderar o Brasileirão, não adianta ganhar de todo mundo: se o Palmeiras entrar na frente, o coração tricolor vai apertar do mesmo jeito.
O que vem pela frente
O Brasileirão para agora para a Data FIFA. São Paulo e Palmeiras voltam a campo apenas em 1º de abril, na Rodada 9, mas não se enfrentam. Há tempo para respirar, para trabalhar, para o São Paulo tentar entender o que acontece toda vez que o verde entra no horizonte.
Na outra rivalidade que agita hoje o torcedor paulistano, Corinthians e Flamengo decidem G5 à noite. O futebol segue. O mundo gira.
Mas essa conta do São Paulo com o Palmeiras vai ficar aberta. E cada jogo que passa sem resposta pesa mais.
Treze, quatorze, quinze? Espero estar errada. Mas não acredito que estou.
Fonte: Palmeiras, VAVEL | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


