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São Paulo, FPF e o árbitro: quem ganhou nessa bagunça toda?

O São Paulo ameaçou boicotar o Paulistão, pediu cabeça de árbitro e a FPF teve que engolir um mea-culpa. Na Quinta Polemica de hoje, Neide avalia quem saiu ganhando — e quem perdeu feio.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
4 min de leitura
São Paulo, FPF e o árbitro: quem ganhou nessa bagunça toda?
Ilustracao — Estadio vazio ao entardecer, reflexo de um Paulistao marcado pela polemica de arbitragem em 2026

O São Paulo foi eliminado do Paulistão. Perdeu para o Palmeiras por 1 a 0, com um pênalti que nem o presidente da FPF conseguiu defender de verdade. E aí o Tricolor fez o que os grandes clubes brasileiros fazem quando perdem de jeito errado: virou a mesa, mandou ofício, ameaçou boicote e exigiu a cabeça do árbitro. Dramático? Sim. Errado? Bem, essa é a Quinta Polemica, e aqui a gente pensa antes de responder.

O Árbitro, o Pênalti e a Boca do Presidente da FPF

O pivô de tudo é Flávio Rodrigues de Souza. O árbitro marcou um pênalti duvidoso na partida contra o Palmeiras — o VAR não foi acionado e o gol saiu. Até aí, polêmica comum no futebol brasileiro. O que fez o São Paulo virar o tabuleiro foi o que veio depois: Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da FPF, abriu a boca e disse que, se o goleiro Rafael tivesse chutado para frente, nada teria acontecido.

Leu certo. O presidente da federação culpou o goleiro pelo erro do árbitro.

Não é a primeira vez que Flávio Rodrigues causa problema. A própria CBF já o afastou em 2024 por um erro em Vitória x Fluminense. Mas, aparentemente, a FPF tem memória seletiva — ou apreço especial pelo árbitro.

Boicote: Ameaça Real ou Blefe Caro?

A diretoria do São Paulo enviou ofício à FPF pedindo a exclusão do árbitro e deixou no ar a possibilidade de escalar sub-20 no Paulistão 2026. A palavra "boicote" foi evitada com cuidado — até porque os advogados do clube lembraram que isso pode gerar problemas legais. Mas a mensagem foi clara: se não houver mudanças, o Tricolor joga de cabeça, não de coração.

Funciona? Depende de quem você pergunta.

A torcida adorou a postura. Clube com coluna vertebral, disseram nas redes sociais. Eu entendo o entusiasmo. Quando um grande clube enfrenta a federação, parece que alguém está finalmente lutando. Mas é preciso ter honestidade: ameaças de boicote no futebol brasileiro têm histórico péssimo. Ninguém efetivamente boicota nada. Todo mundo volta a jogar, paga multa ou engole a derrota em silêncio.

O São Paulo sabe disso. A FPF sabe. É uma dança ensaiada onde ninguém quer pisar nos pés do outro de verdade.

A FPF Admitiu o Erro — Isso Muda Alguma Coisa?

Aqui está o detalhe que a maioria ignorou: a FPF recuou. Reinaldo Carneiro Bastos assinou um documento reconhecendo que o árbitro deveria ter sido chamado ao monitor do VAR e que a marcação do pênalti foi equivocada.

Isso é histórico. Federações brasileiras não costumam admitir nada. A cultura aqui é defender o erro até a morte, culpar o ambiente, culpar a pressão, culpar o vento. A FPF deu um passo diferente — ainda que forçada pelo barulho do São Paulo e pela pressão da imprensa.

Mas admitir erro não anula a eliminação. O São Paulo ainda está fora do Paulistão. E a final vai ser Palmeiras x Novorizontino, com ou sem a presença tricolor nas arquibancadas.

Quem Saiu Ganhando, Afinal?

O Palmeiras foi embora quieto, com a vaga na final no bolso. Novorizontino segura a zebra histórica. E o São Paulo ficou gritando no corredor, com razão na mão e sem taça.

A verdade que ninguém quer ouvir: o São Paulo tinha razão na reclamação e perdeu mesmo assim. E o futebol brasileiro segue funcionando do jeito que sempre funcionou — onde erros graves custam caro para quem é prejudicado e quase nada para quem erra.

O boicote não vai acontecer. O árbitro deve ficar afastado por uma temporada e voltar depois. E o clube vai disputar o Paulistão 2026 com o time titular porque não tem opção real de fazer diferente.

O que eu espero, isso sim, é que o São Paulo use essa briga para garantir cláusulas claras nos contratos com a FPF. Não peça desculpa de papel. Peça mudança de processo, câmera extra, reuniões técnicas abertas sobre VAR. Briga com resultado prático, não só com repercussão no Twitter.

Isso seria uma quinta polemica com final feliz. Mas, convenhamos, estamos falando de futebol brasileiro. Finais felizes aqui são sempre uma surpresa.


Neide Ferreira escreve toda quinta-feira na coluna Quinta Polemica. As opinioes sao da autora e nao representam a linha editorial do Beira do Campo.

Fonte: CNN Brasil, ESPN, Gazeta Esportiva | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
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Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.