Investigado e candidato: a FPF merece um presidente sem sombras
Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da FPF desde 2015, é investigado por lavagem de dinheiro e falsidade ideológica — e mesmo assim quer o quarto mandato. O futebol paulista merece mais do que isso.


Tem gente que não sabe quando a história acabou. Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da Federação Paulista de Futebol desde 2015, está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo por suspeitas de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica — e, apesar disso tudo, pretende disputar o quarto mandato consecutivo nas eleições da FPF marcadas para 25 de março. Sim. O quarto mandato. Você leu certo.
A investigação gira em torno da venda da participação de Carneiro Bastos na empresa Milclean Serviços Ltda. em 2021: uma transação de R$ 15,5 milhões, sendo que R$ 11,5 milhões — quase três quartos do total — teriam sido pagos em espécie. Em dinheiro vivo. Em 2021. Alguém aqui vê normalidade nisso?
A FPF no olho do furacão
O inquérito tramita no 23º Distrito Policial de Perdizes a pedido do MP-SP e apura, além do dinheiro vivo, uma evolução patrimonial que não fecha com os rendimentos declarados: dezenas de imóveis concentrados em Taubaté, no Vale do Paraíba, e sucessivas alterações societárias envolvendo parentes próximos. Não é uma infração de trânsito. O MP fala em gestão fraudulenta, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.
E quem paga a conta quando o presidente de uma federação está no olho do furacão? O futebol. Os clubes. O torcedor. A federação responsável pelo Paulistão — cuja final histórica entre Palmeiras e Novorizontino acontece hoje à noite — tem no centro das atenções não o espetáculo do jogo, mas os bastidores de um inquérito policial. Isso não é um detalhe. É um problema sistêmico.
"Eu nunca recebi em espécie" — e outras histórias do folclore nacional
Carneiro Bastos negou tudo. Com a pontualidade de quem já ensaiou a resposta, disse que os pagamentos foram parcelados em 60 meses via transferências bancárias, que declarou tudo à Receita Federal e, como bônus, acusou as denúncias de serem "manobras eleitorais" do adversário Wilson Marqueti Júnior, que busca articular uma candidatura de oposição para o dia 25.
Entendo a estratégia. Quando não tem resposta boa, chama de política. Mas existe um detalhe inconveniente chamado inquérito policial que nenhuma narrativa eleitoral apaga. Os R$ 11,5 milhões em espécie existem ou não existem. O patrimônio tem lastro ou não tem. E o MP-SP abre inquéritos por diversão ou por suspeitas concretas?
O problema é que no futebol brasileiro estamos acostumados a aceitar essa normalização. Presidente investigado? "É coisa de adversário." Gestão opaca? "Sempre foi assim." Basta lembrar que até o Corinthians, clube com histórico de turbulências, ganhou elogios recentes por tomar decisões institucionais com firmeza. Por que a FPF seguiria caminho diferente?
21 dias para o futebol paulista se posicionar
A FPF é a maior federação estadual de futebol do Brasil. Organiza o campeonato do estado mais rico e populoso do país. É responsável por contratos de transmissão, arbitragem, calendário e regulamento. Não é um clube de várzea — é uma instituição que movimenta centenas de milhões de reais por ano.
Quando o presidente dessa instituição entra em campanha de reeleição sob investigação criminal, o mínimo que se espera é que os 63 clubes com direito a voto no dia 25 façam a pergunta certa: o futebol paulista precisa de continuidade ou de credibilidade?
Credibilidade. Sempre credibilidade.
Porque quando a federação aparece nos noticiários por lavagem de dinheiro, o futebol perde. Perde visibilidade positiva, perde investimento, perde a confiança do torcedor que comprou ingresso para ver o jogo — não para acompanhar mais um escândalo de governança.
O inquérito foi detalhado pela Máquina do Esporte, e a pergunta que fica é mais simples do que qualquer peça jurídica. Se os 63 clubes eleitores tiverem coragem de fazê-la em voz alta no dia 25, o futebol paulista dá um passo que a CBF ainda não conseguiu: escolher renovação com transparência em vez de perpetuar quem já não tem resposta para as perguntas mais básicas.
Reinaldo Carneiro Bastos pode ser inocente. O inquérito está aberto, a investigação em curso, e no Brasil isso significa que ainda não há condenação. Tudo certo do ponto de vista jurídico. Mas a questão que o futebol paulista precisa responder não é jurídica — é moral.
Um homem investigado por lavagem de dinheiro deve liderar a maior federação de futebol do Brasil?
Pra mim, a resposta é simples. E ela não muda em 21 dias.
Neide Ferreira é colunista do Beira do Campo.
Fonte: VAVEL Brasil, Máquina do Esporte, Band News FM | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


