Quinta Polêmica: o Corinthians virou delegacia
Enquanto o Timão tenta sobreviver no Brasileirão, o MP de SP pede tornozeleira para Andrés Sanchez, investiga R$ 3,4 mi em espécie e a diretoria briga feio nos bastidores. Neide não economiza.


O Corinthians tem dois problemas sérios em 2026. O primeiro é futebolístico: brigar para não afundar no Brasileirão. O segundo é jurídico: brigar para não virar pauta do Jornal Nacional pela enésima vez. Esta semana, os dois frontes avançaram ao mesmo tempo — e, convenhamos, o jurídico está ganhando de goleada.
O Ministério Público de São Paulo foi ao Parque São Jorge, recolheu documentos, apontou R$ 3,4 milhões entregues em espécie a um ex-funcionário durante as gestões de Andrés Sanchez e Duílio Monteiro, e ainda pediu tornozeleira eletrônica para Andrés. Para completar o pacote, o MP recorreu para reabrir a denúncia por lavagem de dinheiro após uma juíza rejeitar o caso. Tudo isso na mesma semana em que a reunião para reforma do estatuto do clube descambou em briga de pátio de escola, com o presidente Stabile e o conselheiro Romeu Tuma Júnior trocando ameaças nos bastidores. Corintho, meu Corintho.
O que os números dizem sobre a gestão
Antes que alguém levante o dedo e diga "mas isso é perseguição política", vamos aos fatos. Três virgulas quatro milhões de reais em espécie. Não em transferência bancária rastreável, não em nota fiscal, não em contrato assinado. Em dinheiro vivo, entregue na mão. No Brasil corporativo de 2026, isso não é só suspeito — é um cartão vermelho antes mesmo do apito.
O Corinthians acumula uma dívida que já passou dos R$ 2 bilhões. O clube mal sobreviveu ao rebaixamento nos últimos anos e agora respira na parte de baixo da tabela do Brasileirão. Nesse contexto, descobrir que milhões circularam em espécie dentro da gestão do clube não é uma surpresa agradável. É a confirmação de que parte do dinheiro que deveria virar reforço, estádio e categoria de base foi parar em outro lugar.
O pior? Não é a primeira vez. As gestões de Andrés e Duílio já responderam por irregularidades diversas ao longo dos anos. A Fiel acompanhou tudo, gritou "time sem vergonha" em algumas arquibancadas e depois voltou a torcer porque o Corinthians é assim — ele te machuca e você volta. É uma relação de codependência digna de estudo clínico.
A briga interna que ninguém pediu
Como se a investigação do MP não bastasse, a diretoria atual resolveu adicionar um terceiro ato ao espetáculo. A reunião que deveria reformar o estatuto do clube — tema chato, burocrático, mas importante — virou campo de batalha. Stabile e Tuma Júnior se estranharam de forma que os bastidores descrevem com palavras que este jornal não pode publicar em horário escolar.
Enquanto isso, o torcedor corinthiano acorda de manhã, abre o celular e precisa decidir em qual notícia ele vai se angustiar primeiro: se no esquema de caixa dois ou se na classificação do time no Brasileirão. É muita coisa para processar antes do café.
Cabe registrar que Andrés Sanchez nega as acusações e seu advogado afirmou que a defesa contestará o pedido de tornozeleira. O Corinthians, como clube, não se pronunciou oficialmente sobre os detalhes da investigação até o fechamento desta coluna.
A torcida que merece mais
Aqui é onde eu digo o que precisa ser dito: a Fiel Torcida é uma das mais apaixonadas do país. Lota o Parque São Jorge mesmo quando o time joga feio, canta mesmo quando o time perde, e defende o Corinthians mesmo quando o Corinthians não defende nada — nem a própria reputação.
Essa torcida merece uma diretoria à altura. Merece saber que o dinheiro do sócio-torcedor está sendo gasto em jogador, não em maleta. Merece um clube que passe mais tempo no noticiário esportivo do que no noticiário policial.
O Corinthians, como clube popular, como símbolo de identidade de milhões de trabalhadores que se reconhecem na camisa preta e branca, é maior do que qualquer dirigente. É maior do que qualquer escândalo. Mas escândalos cobram preço — e quem paga, invariavelmente, é a torcida.
Torço para que a investigação siga seu curso, que a Justiça faça o que tem que fazer, e que o próximo noticiário sobre o Corinthians venha do campo. Quem sabe até da Libertadores. O futebol, definitivamente, agradece.
Neide Ferreira escreve às quintas na coluna "Quinta Polêmica". Ela também já escreveu sobre o início do Brasileirão e a crise do Cruzeiro com Tite.
Fonte: Estadão, ge.globo.com, UOL Esporte | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


