Abel Ferreira pediu desculpa pelo dedo. E pronto?
Abel Ferreira subiu ao púlpito em Londrina, fez sua mea-culpa pelo dedo do meio mostrado para Flaco López na Libertadores e voltou para o vestiário. A Conmebol agradece. Mas Neide não fica contente: o pedido tapou a discussão real — a do futebol que adora indignação seletiva.


Abel Ferreira fez o que tinha que fazer e gente grande costuma fazer: subiu ao púlpito da coletiva, baixou a cabeça e pediu desculpa pelo dedo do meio que mostrou para Flaco López na noite em Lima. Disse que foi erro, disse que não queria provocar, disse que o treinador do Palmeiras é mais do que treinador. Bonito o discurso. Ensaiado, também.
E pronto? É só isso?
O gesto que custou US$ 25 mil
Vamos repassar para quem entrou agora. Na vitória sobre o Sporting Cristal pela Libertadores, Flaco López marcou, virou-se para o banco e fez um joinha para o treinador. Abel, que adora chamar jogador de "filho", retribuiu com o dedo do meio. Pego em flagrante por uma câmera fechada que não deixou margem para charada de "ah, foi a luz" ou "ele estava coçando o nariz".
A Conmebol fez o que sempre faz quando a imagem vira meme: abriu processo. A peça acusatória se ancora no Artigo 11.2, alíneas B e C — comportamento ofensivo e violação das diretrizes mínimas de conduta esportiva. A multa esperada bate em US$ 25 mil, algo como R$ 122 mil ao câmbio de hoje. O prazo de defesa encerrou no dia 13 de maio. Quem quiser revisar a cronologia completa do bafafá pode consultar a cobertura sobre a investigação aberta pela Conmebol contra Abel, que destrincha o regulamento.
Agora veio o pedido de desculpa público, em coletiva, na noite em que o Palmeiras goleou o Jacuipense por 4 a 1 com time reserva em Londrina. O timing é digno de manual de assessoria de imprensa. Goleada na Copa do Brasil, holofote favorável, Felipe Anderson endossado, Erick Belé estreando com gol — e, no meio da euforia, o mea-culpa que reduz a multa, suaviza a comissão disciplinar e devolve o Abel ao seu lugar de gentleman português.
O problema não é o dedo. É a fila
Eu sou justa. O dedo foi feio, sim. Não dá para defender. Treinador da equipe mais vencedora do continente recente, comandando um clube com 18 milhões de torcedores, em campeonato com transmissão para 150 países, não pode levantar o dedo do meio em direção a ninguém — nem para xingar o juiz, nem para "brincar" com o próprio atacante. Ponto. Abel errou. E acertou em pedir desculpa.
Só que tem uma coisinha incomodando o meu sono. É aquela velha questão: por que esse, por que agora, por que esse tamanho?
Em maio de 2025, Renato Paiva, ainda no Botafogo, fez o mesmo gesto em uma comemoração de gol na Libertadores. Mesmo torneio. Mesma câmera. Mesmo dedo. E nenhuma denúncia. Nenhum processo. Nada. A Comissão Disciplinar pegou no sono ou achou que era folclore? O próprio Palmeiras se vale desse precedente na defesa entregue à Conmebol. E não é argumento ruim — é argumento sólido, porque expõe a régua maleável que a entidade aplica.
E não é só Paiva. O futebol sul-americano produz episódios semanais que pediriam processo se a régua fosse a mesma: invasão de campo, troca de empurrão, treinador apontando dedo (do que for) para arbitragem, jogador peitando juiz, dirigente cuspindo na zona mista. A Conmebol abre expediente quando vira manchete em Madri, em Lisboa e no Brasil. Antes disso, é tudo paisagem.
A indignação seletiva é o esporte preferido do Brasil
Aqui o assunto desce do palco e vira papo de boteco. Por que a gente surta com o dedo do Abel e bufa de tédio com coisas piores? Por que o vídeo do dedo viaja o mundo enquanto a sumula que reclama de árbitro vira nota de rodapé? Já cobrei isso quando escrevi sobre a guerra silenciosa do Abel contra os árbitros e a súmula polêmica do começo do Brasileirão. Já cobrei isso quando o STJD aplicou 8 jogos de suspensão no Abel após o Derby 0 a 0. É um padrão.
A gente prefere a polêmica que cabe num GIF. O dedo cabe. O dedo viraliza. O dedo dá clique. O artigo 11.2 inteiro? Ninguém leu. A reforma do código disciplinar da Conmebol? Ninguém pediu. O acordo sobre VAR centralizado para a Libertadores? Ninguém cobra.
Eu não estou aqui defendendo o gesto do Abel, fique claro. Estou dizendo que o pedido de desculpa, sozinho, não resolve nada. Resolve o problema do Abel — ele tira o dedo do alvo da Conmebol e segue com a carreira. Não resolve o problema do futebol, que continua tratando comportamento de banco de reservas como dancinha de tendência: hoje é o dedo, amanhã é a camisa rasgada, depois é a entrevista de pós-jogo com vinho na mão.
E o Palmeiras com isso?
Ah, o Palmeiras agradece. O técnico saiu da Conmebol com o ar de quem aprendeu a lição, deixou o time reserva inteiro com vitrine na Copa do Brasil — Felipe Anderson com um gol e duas assistências, garoto de 19 anos estreando com bola na rede — e ainda elogiou os meninos publicamente. Politicamente, o jogo foi perfeito. Esportivamente, também. A classificação do Palmeiras na Copa do Brasil contra o Jacuipense já estava encaminhada, mas o placar exagerado fechou a noite com chave de ouro.
Sobre o Flaco, ninguém perguntou. Ele marcou o gol, levou o dedo, virou meme. Tem mais com o que se preocupar — a Argentina chama em junho e ele precisa convencer Scaloni de que merece o ônibus para a Copa do Mundo. Que mostre menos joinha e mais gol que a fila do banco encurta sozinha.
Conclusão
Abel pediu desculpa. Cumpriu o protocolo. A Conmebol vai cobrar a multa, registrar a falta, arquivar o caso e voltar para a sua rotina de não cobrar nada do que importa. O futebol sul-americano vai seguir produzindo o próximo dedo, a próxima cusparada, o próximo cartão para o quarto árbitro. E nós, jornalistas, torcedores e cronistas, vamos seguir nos indignando por episódio, como quem brinca de pega-pega.
Eu quero a indignação que dure mais que um GIF. Quero entidade que aplique a régua antes da manchete. Quero Comissão Disciplinar que não dependa de câmera fechada da Globo para enxergar comportamento ruim. Enquanto isso não vier, o pedido de desculpa do Abel é o que é: um pedido de desculpa. Bem feito, sincero talvez, útil para o bolso do Palmeiras.
Mas a polêmica de verdade — essa não cabe num minuto de coletiva. Essa é a fila inteira de gestos que ninguém pune. E essa, meus caros, nenhum técnico vai pedir desculpa.
Até a próxima Quinta.
Perguntas frequentes
- O que Abel Ferreira disse no pedido de desculpas?
- Em coletiva após o 4 a 1 sobre o Jacuipense, Abel afirmou que o gesto foi um erro, que não pretendia provocar ninguém e reconheceu que precisa entender que é mais do que um treinador de futebol.
- Por que a Conmebol abriu processo contra Abel Ferreira?
- Pelo dedo do meio mostrado ao próprio atacante Flaco López durante a comemoração de gol contra o Sporting Cristal em Lima. O processo se baseia no Art. 11.2 do Código Disciplinar, alíneas B e C, e a multa pode chegar a US$ 25 mil.
- O Palmeiras já apresentou defesa à Conmebol?
- Sim. O prazo de defesa encerrou em 13 de maio e o clube usou como argumento o caso de Renato Paiva em 2025, quando o então técnico do Botafogo fez gesto semelhante na Libertadores e não foi punido.
Fonte: Gazeta Esportiva, Terra, CNN Brasil, Lance | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


