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Oscar aposentado: o coração fez o que a China não conseguiu

Oscar se aposenta aos 34 anos com um problema cardíaco. Neide Ferreira não tem papas na língua: o Brasil esperou anos por esse retorno e teve seis jogos.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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Oscar aposentado: o coração fez o que a China não conseguiu
Oscar se despede do futebol aos 34 anos após diagnóstico de síncope vasovagal — Foto: Reprodução / Lance

"Eu queria fazer mais pelo São Paulo, queria jogar mais." Essa frase, dita neste sábado por Oscar ao anunciar sua aposentadoria aos 34 anos, é a mais dolorosa do futebol brasileiro em muitos meses. Não porque Oscar foi o maior da história. Não porque o Brasil perdeu um tricampeão mundial. Mas porque o Brasil esperou mais de uma década pelo retorno desse meia — e o coração levou tudo antes de qualquer coisa acontecer.

Isso dói de um jeito diferente.

A China deu dinheiro. O Brasil ficou esperando.

Oscar saiu do São Paulo em 2010 com menos de 20 anos e uma situação conturbada. Foi para o Internacional, se destacou, e em 2012 foi vendido ao Chelsea por £25 milhões — o maior negócio do futebol brasileiro até então. Chegou lá e funcionou: Europa League no primeiro ano, duas Premiers League, League Cup. Foram 203 jogos, 38 gols, muita assistência e uma presença constante no time titular. Classe inegável.

Então a China apareceu com o cheque. Oito anos em Shanghai. Oito temporadas no Shanghai Port, três títulos nacionais, mais de duzentas partidas. Dinheiro de sobra, vida confortável, futebol de qualidade chinesa.

E o Brasil ficou do lado de fora, olhando pela janela.

Cada convocação da Seleção que ele poderia ter estado. Cada Brasileirão que passou sem um meia daquele nível nos gramados locais. Cada Libertadores que ficou mais pobre sem Oscar. Não é julgamento moral — é luto esportivo. A gente lamentava o que não era nosso, mas poderia ter sido.

Em dezembro de 2024, Oscar assinou com o São Paulo. O retorno do filho pródigo. O Morumbi se animou. A torcida correu atrás de camisa. O clube acreditou que aquele seria o início de algo bonito.

Seis partidas. O coração disse não.

Oscar disputou seis partidas com a camisa do São Paulo neste retorno. Em novembro de 2025, passou mal durante um teste de esforço no CT do clube. Levado ao Einstein, recebeu o diagnóstico: síncope vasovagal — condição cardíaca que causa quedas bruscas de pressão e batimentos, levando ao desmaio. Passou por cirurgia. Ficou três dias internado. E nunca mais voltou a jogar.

Hoje, o São Paulo formalizou o que já era inevitável: rescisão e aposentadoria. O clube ainda terá que desembolsar cerca de R$ 10 milhões em luvas, direitos de imagem e comissões — parcelados até 2028, segundo apuração do Lance!. Um investimento que não deu em campo, mas que o clube honra para encerrar a relação com dignidade.

Respeito ao São Paulo por isso.

Vai ter gente culpando a China. Essa conversa é desonesta.

Já sei o que vão falar esta semana. "Ah, se ele tivesse ficado na Europa." "Ah, se não tivesse ido para a China." "Ah, oito anos de futebol de segunda linha fizeram mal."

Vou discordar com todas as letras.

Síncope vasovagal não tem endereço. Não escolhe quem joga na China ou quem joga na Inglaterra. É uma condição cardíaca que pode aparecer em atleta de elite, em triatleta amador ou em pessoa sedentária. O médico que atendeu Oscar deixou claro: o problema não é de vida, mas impede atividade física intensa de alto rendimento.

Oscar foi para a China porque pagou bem. Como vão para a Arábia Saudita hoje. Como muitos foram para o Catar, para os Estados Unidos, para o Japão. Futebol é profissão. Ninguém joga de graça.

O problema do Brasil não é que Oscar foi para a China. É que o São Paulo segue construindo a melhor campanha dos últimos anos sem nenhum meia de nível Oscar — e o país não soube criar outro desde ele.

Oscar vai fazer falta. Mas o Brasil nunca teve Oscar de volta pra fazer falta.

Esta é a conclusão amarga que ninguém quer tirar: a gente perdeu Oscar antes de ter Oscar de volta. O retorno foi de seis partidas, um diagnóstico e uma aposentadoria inesperada. Não deu para ver o que teria sido.

E essa é a parte mais cruel. Não é uma tragédia de queda de desempenho, de polêmica, de saída confusa. É a tragédia silenciosa de uma carreira que tinha mais capítulos para escrever e simplesmente parou.

O Brasil vai continuar. O São Paulo vai continuar. Esta semana ainda tem Flamengo enfrentando o Santos com Neymar suspenso — outro craque que vai e vem do futebol como um pião desequilibrado. A vida segue no ritmo do calendário.

Mas quando alguém te perguntar como foi a volta de Oscar ao São Paulo, a resposta correta é simples: não foi. O Oscar voltou para a torcida, para o clube, para a saudade. Para o campo, nunca mais.

Que ele tenha saúde, uma longa vida e toda a felicidade possível fora das quatro linhas. Porque dentro delas, o futebol foi ingrato com alguém que tinha muito mais para dar.

Fonte: Lance!, Metrópoles, Jovem Pan, CNN Brasil | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.