O dono do Bernabéu some quando veste o amarelo
Vinicius Jr. é o melhor atacante do mundo — no Real Madrid. Na Seleção, ele virou o sumiço do ano. E Mbappé, seu parceiro no Bernabéu, foi quem mostrou o caminho em Boston.


Vinicius Jr. é o melhor atacante do mundo. No papel, no vídeo, no Real Madrid, na lista de prêmios — é ele. Mas tem uma versão do Vini que reaparece de tempos em tempos, e essa versão apareceu inteira na quinta-feira em Boston: o Vini invisível. O que perde gol feito. O que entra no campo e some.
O Brasil perdeu para a França por 2 a 1, jogando com um homem a mais por boa parte da partida. Ekitike e Mbappé marcaram para os azuis. Bremer descontou. E Vinicius Jr.? Perdeu uma chance que atacante de Série C dificilmente perderia. A imprensa internacional foi impiedosa: "o samba da tartaruga", "Mbappé petrificando Vini Jr." foram algumas das frases que circularam lá fora. Dói. Mas a dor não torna os fatos menos reais.
O gol que Vini não fez — e a foto que vai ficar
A cena que marca a memória de Boston não é a derrota em si. É o momento em que Vinicius Jr., cara a cara com o goleiro francês, chutou para o lado errado do planeta. Um gol que teria sido o empate. Um gol que qualquer atacante de segunda linha de qualquer liga europeia provavelmente não perderia.
Mas não é só o gol. É a postura. A insegurança com a bola nos pés. A hesitação na tomada de decisão. O olhar perdido que não combinava com o jogador que semanas antes havia arrancado ovação no Santiago Bernabéu.
E quem apareceu no lugar dele na partida? Mbappé. Seu companheiro de ataque no Real Madrid. O cara que treina do lado dele toda semana. Que conhece seus movimentos, sua cadência, seus vícios. E que, vestindo a azul da França, foi exatamente o que Vini deveria ter sido: presente, intratável, decisivo.
Isso não é detalhe. É um símbolo.
Bernabéu versus amarelinha — dois homens, um jogador?
A teoria mais simpática para explicar o fenômeno é tática. O esquema de Ancelotti na Seleção pede algo diferente do que o Real Madrid exige dele. A posição, a liberdade, o parceiro de lado. Pode até ter verdade nisso — não descarto.
O problema é que a inconsistência de Vini com a amarelinha antecede Ancelotti. Tem partidas marcantes, sim. Mas há um padrão: nos jogos de maior pressão, quando o olho do mundo está sobre o Brasil, a performance de Vinicius Jr. oscila de forma que nenhum outro craque de nível semelhante oscila tanto.
Os dados e a análise do caminho do Brasil para o Hexa mostram um time que depende de Vini como peça central do ataque. Sem ele funcionando, a criatividade ofensiva do Brasil vai embora junto. E a França — que não é favorita ao título, mas tem elenco de respeito — exposição essa fragilidade com eficiência clínica.
Ancelotti declarou estar "satisfeito" após a derrota. Satisfeito. Com derrota. Com um homem a mais. Com Vini perdendo gol só. Entendo a postura de um técnico que protege o elenco. Mas satisfeito com o que exatamente? Com o processo? Que processo é esse que entrega um homem a mais e ainda perde para a França em amistoso?
O argumento da torcida vai aparecer — e não resolve
Agora vem o pessoal da defesa: "é amistoso, não conta", "ele pode ter chegado desgastado fisicamente", "o Brasil como time foi mal, não é culpa individual".
Todos os pontos têm algum fundamento. Amistoso de Data FIFA tem pressão diferente de uma Copa. Calendário de clube pesado pode chegar no físico. E um jogador nunca carrega um resultado sozinho.
Mas aqui está o problema: a Copa do Mundo começa em 11 de junho. Não daqui a um ano. Em junho. Restam dois amistosos — esse que já foi e o contra a Croácia, dia 31 de março, em Orlando. Dois jogos antes do torneio real.
Se Vini acumula atuação fraca após atuação fraca com a amarelinha, a que ponto exatamente vai se materializar o "ele resolve quando importa"? A Copa vai ser o momento que importa. E a preparação é essa.
A Copa não te dá segunda chance
Ballon d'Or, camisa 7, expectativa de 215 milhões de brasileiros. Quando o torneio começar, não tem amistoso para amortecer. Tem fase de grupos contra seleções que vão ter estudado cada metro do jogo de Vinicius Jr. Tem oitava de final. Tem quartas.
Mbappé fez o favorzinho de mostrar ao mundo como travar Vini. Marcação intensa, antecipação e leitura de jogo. Outros técnicos assistiram à mesma partida e tomaram nota.
Vinicius Jr. tem talento para ser o jogador que decide o Hexa. Isso está fora de qualquer debate. Mas talento que só aparece em um clube é talento pela metade. E Copa do Mundo não aceita pela metade.
O Vini invisível de Boston não pode aparecer em junho. A versão Bernabéu precisa aparecer de amarelo. Antes que seja tarde demais para construir essa consistência.
Neide Ferreira é colunista do Beira do Campo.
Fonte: ESPN Brasil / CNN Brasil / Terra | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


