Seleção na Copa 2026: chega de transformar tudo em novela
O Brasil decide o Grupo C contra a Escócia já classificado, com Vini reabilitado e a defesa firme — mas o país só fala de uma coisa: se o Neymar entra. Neide Ferreira manda o recado de que essa Seleção é maior do que a saudade de um nome só.


Tem dia que eu juro que o Brasil não quer ganhar Copa — quer ganhar audiência. A Seleção na Copa 2026 entra em campo nesta quarta-feira (24), às 19h de Brasília, no Hard Rock Stadium, em Miami, para fechar o Grupo C diante da Escócia. Já está classificada, lidera a chave, mal foi vazada. E qual é o assunto da padaria ao salão de beleza, de norte a sul? Se o Neymar entra ou não entra. A gente pegou uma noite tranquila e transformou em capítulo de novela das nove.
A Seleção na Copa 2026 virou novela — de novo
Antes que torçam o nariz: não sou eu quem vai entrar no clube do "fora, Neymar". Talento é talento, e respeito quem o time tem. Meu problema é outro — é a mania nacional de escolher o protagonista errado bem na hora da decisão.
Olha o tamanho do enredo que estamos ignorando. O Brasil chega à terceira rodada com 4 pontos, empatado com o Marrocos e na frente pelo saldo, depois de ceder um 1 a 1 aos marroquinos e atropelar o Haiti por 3 a 0. A vaga, na prática, está no bolso; o que se decide hoje é a liderança e o adversário das oitavas — tudo isso enquanto, em Atlanta, o Marrocos joga o seu jogo paralelo pela ponta. Ah, e tem desfalque de peso: Raphinha, com problema na coxa, está fora, e o garoto Rayan herda a camisa. Mesmo com tudo isso em jogo, a manchete que o país escolheu foi a panturrilha do camisa 10. Faça-me o favor.
Os números que o barulho tenta esconder
Quer saber quem está empurrando essa Seleção enquanto o Brasil debate quem ainda não jogou? Vinicius Júnior. Eu, que faz pouco tempo chamei o Vini de fantasma na camisa amarela, preciso ser honesta: ele me calou a boca. O cara voltou a brilhar contra o Haiti, comanda o ataque e já é o nome ofensivo do Brasil nesta Copa.
Do lado dele, Matheus Cunha fez os outros dois gols na vitória sobre os haitianos e provou que a função de centroavante não está órfã. E tem mais: a defesa de Carlo Ancelotti sofreu apenas um gol em duas partidas. Pode parecer pouco para quem só quer falar de craque, mas Copa do Mundo, minha gente, se ganha com o time que não toma gol bobo no mata-mata.
Tem ainda um detalhe que a novela faz questão de esconder: terminar o grupo em primeiro não é luxo, é estratégia. A liderança costuma render um adversário teoricamente mais palpável nas oitavas e, num torneio de 48 seleções e oito melhores terceiros colocados, cada gol de saldo pode ser a diferença entre um chaveamento amigável e um caminho de pedra. Por isso a Escócia não é mero figurante — ganhar bem hoje é construir o resto da Copa. Esse alicerce — Vini ligado, Cunha decisivo, zaga fechada e um treinador que organizou a bagunça — é o que sustenta de verdade qualquer conversa séria sobre o caminho do Brasil rumo ao hexa. Não é nostalgia. É planilha.
O outro lado: e se o Neymar for mesmo o curinga?
Sou justa, então deixa eu defender o réu. Existe, sim, um cenário em que toda essa expectativa faz sentido. No mata-mata, quando o adversário se tranca com nove atrás da linha da bola e o jogo emperra, um único toque de bola do Neymar pode valer uma classificação. Inspiração daquele naipe não se compra na esquina, e seria burrice fingir que ela não pesa.
Se ele ganhar minutos contra a Escócia e entrar afiado, ótimo — ter um banco de luxo é o tipo de problema que todo técnico sonha em ter. O ponto nunca foi tirar o Neymar do mapa. O ponto é onde a gente coloca ele nesse mapa: como peça que soma, e não como sol em volta do qual o resto do elenco vira planeta.
O recado da Neide
Então fica o meu pitaco, sem meias-palavras: a Copa não é, e não pode ser, a turnê de despedida de ninguém. Quem construiu a liderança do grupo foram o Vini, o Cunha, o Casemiro segurando o meio e uma defesa que aprendeu a se comportar. O Neymar que venha — de preferência decisivo — mas como arma na manga, não como roteiro obrigatório de toda transmissão.
Se o Brasil quiser levantar a taça em julho, que seja o Brasil do presente, com o Neymar de curinga e não de muleta emocional. Hoje, contra a Escócia, eu quero ver é a Seleção jogar futebol. A novela, deixem para o SBT.
Fonte: CNN Brasil, FIFA, Olympics, Terra | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


