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Opinião

Limite de estrangeiros: CBF acerta, mas precisa ir além

A redução gradual do limite de estrangeiros e a nova lista Sub-23 são uma resposta útil da CBF, desde que a base não vire apenas uma exigência de planilha.

Neide FerreiraNeide Ferreira5 min de leitura
Limite de estrangeiros: CBF acerta, mas precisa ir além
Reunião da CBF que discutiu a nova grade de jogos e regras de inscrição no futebol brasileiro — Foto: Reprodução / CBF

A CBF acertou ao reduzir gradualmente o limite de estrangeiros no Brasileirão, mas a decisão só terá valor se vier acompanhada de coragem para usar a base de verdade. A partir de 2027, cada clube poderá relacionar oito atletas de fora do país; o teto cai para sete em 2028, seis em 2029 e cinco em 2030. Junto dele, entra uma lista de inscritos que reserva espaço crescente aos jogadores Sub-23. É uma correção de rota sensata. Não é milagre de regulamento.

O futebol brasileiro passou anos tratando elenco como álbum de figurinhas caro. Contrata estrangeiro para a posição já coberta, empresta garoto para abrir vaga e, quando a conta fecha mal, culpa a falta de maturidade do menino. Agora a CBF oferece uma trava. Ótimo. Só não adianta transformar a Lista B numa garagem de promessas sem minutos, sem plano e sem alguém disposto a bancar o primeiro erro.

O limite de estrangeiros no Brasileirão muda sem dar cavalo de pau

O regulamento aprovado para as Séries A e B não expulsa ninguém nem rompe contratos na marra. Hoje são permitidos nove estrangeiros em súmula por partida; em 2027 serão oito, e o corte será anual até chegar a cinco em 2030. A CBF detalhou a decisão após a reunião com clubes e federações, em 21 de setembro.

Essa escadinha é o melhor pedaço da medida. Clube sério ganha tempo para ajustar contratos, mapear carências e parar de contratar no susto. Clube que vive de remendo perde a desculpa de que ninguém avisou. O ge mostrou que a mudança foi pensada justamente para reduzir o impacto imediato sobre os elencos já montados.

Também convém botar a conversa no lugar certo: estrangeiro não é sinônimo de problema. O Brasileirão cresceu porque passou a atrair bons jogadores, técnicos e ideias de outros mercados. A discussão não é fechar a porta nem fingir que todo garoto da base está pronto aos 17 anos. É perguntar por que um clube mantém dez opções de fora e, ao mesmo tempo, não consegue dar uma sequência de cinco jogos ao meia que formou.

O recorde recente de atletas estrangeiros utilizados, explicado no nosso balanço sobre a marca de 172 jogadores, já mostrava um mercado mais globalizado. A resposta não precisa ser nostalgia. Precisa ser critério.

A lista Sub-23 vale mais que um número bonito no regulamento

O outro lado da aprovação é a divisão dos 50 inscritos. Em 2027, a Lista A terá 30 vagas e a Lista B, destinada a atletas Sub-23, terá 20. A proporção muda ano a ano até ficar em 25 para cada lado em 2030. É uma tentativa clara de impedir que a preocupação com a base pare no discurso de coletiva.

Ainda assim, inscrição não é escalação. A diferença parece óbvia, mas o futebol brasileiro adora fingir que não. Um jovem pode aparecer na lista, treinar com os profissionais e passar o domingo vendo o time recorrer a um veterano sem ritmo porque o técnico teme a reação da arquibancada. Se a regra servir apenas para preencher burocracia, teremos 20 nomes protegidos no papel e nenhum projeto protegido no campo.

Por isso, a cobrança precisa mudar de alvo. Não basta perguntar quantos Sub-23 cada clube inscreveu. É preciso observar quem entra em jogos equilibrados, quem começa partidas, quem recebe sequência e quem é vendido depois de jogar futebol de gente grande. Formação não é vitrine de banco de reservas.

O passaporte não pode virar atalho para a análise preguiçosa

A CBF justificou a proposta com a busca por mais espaço para atletas jovens. A intenção é defensável. Mas limitar estrangeiros não cura, sozinho, departamentos de base desconectados do profissional, calendários ruins ou decisões de mercado feitas por impulso. Um atacante sul-americano que melhora o time deve ser tratado como reforço; um brasileiro sem preparo não vira solução só porque nasceu aqui.

O risco agora é a turma do slogan comemorar o corte e esquecer o trabalho. Para abrir vaga a um garoto, é preciso ter observação, treinador que conheça o jogador, preparação física compatível e um contexto de competição que não o devore no primeiro passe errado. Sem isso, o clube só trocará um estrangeiro útil por um brasileiro contratado às pressas, e a base continuará esperando no corredor.

A mudança aprovada também reorganiza horários e janelas de transmissão, assunto que afeta a rotina dos clubes e do torcedor e que já explicamos no guia sobre como CBF e TV definem os jogos do Brasileirão. A mesma regra vale para tudo: planejamento não é detalhe de reunião, é o que aparece em campo quando a bola começa a queimar.

Minha leitura é simples. A CBF fez bem em tirar a mão do acelerador que levou o limite de nove a uma prática confortável demais. Agora precisa provar que a medida não é apenas uma resposta política ao barulho da base. Mais jovens em lista é começo. Mais jovens preparados e usados nos jogos é a parte que separa uma boa ata de uma transformação de verdade.

Fonte: CBF, ge e UOL · informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
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