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10 demissões em 13 rodadas: o Brasileirão pediu pra perder

Em 13 rodadas, dez clubes da Série A trocaram de comandante — e o Palmeiras de Abel Ferreira, único projeto longo de fato, abre vantagem na liderança. Neide Ferreira explica por que o Brasileirão demite tudo e não aprende nada com isso.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
5 min de leitura
10 demissões em 13 rodadas: o Brasileirão pediu pra perder
Ilustração — Banco de reservas vazio sob holofotes: a roleta-russa virou método na Série A 2026

Treze rodadas. Dez técnicos demitidos. É essa a média que o Brasileirão de 2026 entregou até este domingo, e eu vou repetir de novo porque parece coisa de jornal estrangeiro de zoeira: dez demissões em treze rodadas. Enquanto isso, no topo, um senhor português que está lá desde a pré-pandemia abre vantagem na liderança e ri por dentro. Não é coincidência. É a única tese que sobrou em pé depois desse circo.

O Palmeiras de Abel Ferreira tem 32 pontos. Flamengo e Fluminense empatam em segundo, com 26. O Athletico-PR fecha a zona de classificação direta com 22. Lá embaixo, Santos, Mirassol, Remo e Chapecoense formam um Z4 que parece foto de família de demissão coletiva — e em três dos quatro o técnico já foi trocado. Pesquisem comigo: quando o clube brasileiro desconfia que o problema é estrutural, a primeira providência é assinar a rescisão do treinador. A segunda é contratar outro pelo dobro. A terceira é dizer "agora vai".

A lista da vergonha

Para ninguém achar que estou exagerando, vou listar. No Atlético-MG, Sampaoli caiu e veio Eduardo Domínguez. No Vasco, Diniz saiu para entrar Renato Gaúcho — e dali a poucas semanas Diniz reapareceu no Corinthians no lugar de Dorival Júnior, que tinha acabado de ser campeão da Copa do Brasil. No Flamengo, Filipe Luís foi demitido depois de uma goleada de 8x0 sobre o Madureira; entrou Leonardo Jardim. No São Paulo, Hernán Crespo virou Roger Machado em troca anunciada na 7ª rodada. No Cruzeiro, Tite — campeão mineiro — caiu para Artur Jorge assumir. No Santos, Vojvoda virou Cuca. No Botafogo, Anselmi virou Franclim Carvalho. No Remo, Osorio virou Léo Condé. Na Chapecoense, Dal Pozzo virou Fábio Matias.

Dez. Não estou contando interinos, não estou contando Série B, não estou inflando estatística de Twitter. É a conta da Gazeta, da ESPN e do Lance, três fontes que detestam concordar entre si — e mesmo assim concordaram. Um jornal espanhol se deu ao trabalho de chamar isso de "inferno dos técnicos", e a gente ficou ofendido como se a culpa fosse do espanhol. A culpa é nossa.

O caso Abel é a refutação viva

Quando alguém puxa o microfone para falar de "exigência da torcida brasileira" e "pressão da Série A", lembrem dele. Abel Ferreira está há cinco anos e meio no Palmeiras. Cinco anos. Ele sobreviveu a Libertadores perdida na trave, a vaia em Allianz, a final dolorida no fim de 2024, a temporada 2025 sem nada de continental — e segue sendo o mesmo Abel, com o mesmo discurso e o mesmo método. Hoje seu time tem dez vitórias em treze rodadas, sofre sete gols no campeonato inteiro e tem um esquema tático que evolui ano após ano, não que reseta a cada coletiva.

Rogério Ceni está no Bahia desde 2023. Rafael Guanaes está no Mirassol desde 2025. Esses três são literalmente os únicos técnicos da Série A 2026 com mais de um ano contínuo no clube. Três em vinte. O Bahia briga pelo G6, o Mirassol é o time mais simpático da temporada apesar do Z4, e o Palmeiras é líder. Os outros 17 estão presos no looping de coletiva-de-apresentação-com-cachecol e despedida-em-nota-oficial-na-quarta-feira.

"Mas alguns mereciam ser demitidos"

Já ouço a defesa: Tite empatou em casa com o Vasco mesmo com vantagem numérica. Crespo foi exigente demais com o elenco. Filipe Luís, na cabeça da diretoria do Flamengo, "esgotou o ciclo" depois de uma goleada de oito gols. E? Quem fez o ciclo esgotar em quatro meses? Quem montou o calendário absurdo? Quem prometeu reforços em janeiro e entregou meio elenco em março? Demitir o treinador é o ato mais covarde da gestão de futebol no Brasil — porque transfere para uma única pessoa o ônus de decisões que envolveram quatro ou cinco diretores, dois conselheiros, um patrocinador e o dono do canal de YouTube da torcida.

E demitir custa caro. O Cruzeiro pagou multa para Tite. O Corinthians pagou R$ 6 milhões para Dorival Júnior depois de um título. O Flamengo deve estar pagando dois técnicos enquanto eu escrevo isso, porque a SAF descobriu agora que rescisão tem cláusula. Esse dinheiro saiu do orçamento de elenco. Sai sempre.

A tese que sobrou de pé

Olha a tabela: o time com o técnico mais antigo é líder. O segundo técnico mais antigo briga por G6. O terceiro luta dignamente contra o rebaixamento com o orçamento de uma cidade do interior. Os outros 17 jogam roleta-russa toda quarta-feira, e quando a bala sai, surpresa, o time perde mais ainda. A culpa não é dos treinadores. A culpa é de quem demite treinadores como se fosse trocar de chip de celular.

Os clubes brasileiros não vão ganhar Libertadores, não vão ter projeto longo, não vão exportar técnico para a Europa, não vão construir identidade — enquanto continuarem tratando o cargo de comissão técnica como assento de aeronave low-cost. Cinco anos no Palmeiras viraram vinte títulos. Cinco meses no Cruzeiro viram comunicado oficial e uma multa que nunca existia no orçamento.

O Brasileirão de 2026 ainda tem 25 rodadas pela frente. Aposto a coluna inteira que pelo menos mais cinco técnicos vão cair antes de dezembro. E quando a temporada acabar e o Palmeiras estiver de novo com a taça, o presidente do clube zona-do-rebaixamento que demitiu três no ano vai dar entrevista dizendo que precisa "buscar um nome forte para 2027". Forte como? Forte como o que ficou cinco anos no concorrente?

Pediu para perder. Está ganhando bem.

Perguntas frequentes

Quantos técnicos foram demitidos no Brasileirão 2026 até agora?
Dez treinadores caíram em 13 rodadas — a maior média de demissões por rodada da Série A no recorte recente.
Quais técnicos têm mais tempo de clube na Série A 2026?
Abel Ferreira está no Palmeiras desde novembro de 2020, Rogério Ceni no Bahia desde setembro de 2023, e Rafael Guanaes no Mirassol desde março de 2025.
Como está a tabela do Brasileirão 2026 após a Rodada 13?
Palmeiras lidera com 32 pontos, seguido por Flamengo e Fluminense com 26. Santos, Mirassol, Remo e Chapecoense formam o Z4.

Fonte: ESPN Brasil, Gazeta Esportiva, Lance! | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
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Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.