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Dominguez bancado, Galo atolado: o Atlético-MG está à beira do Z-4

Bracks foi às câmeras defender Dominguez. O argentino negou o pedido de demissão. A tabela mostrou que o Atlético tem 14 pontos e está a dois do Z-4. Neide pergunta: alguém está vendo o elefante na sala?

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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Dominguez bancado, Galo atolado: o Atlético-MG está à beira do Z-4
Presidente Paulo Bracks deu respaldo público a Dominguez após a derrota — Foto: Reprodução / Moon BH

Paulo Bracks foi ao microfone e disse que Dominguez está no cargo. Eduardo Domínguez foi à coletiva e disse que não pediu demissão. Todos negaram, todos explicaram, todos botaram panos quentes. Muito bonito, muito civilizado. O único que não quis saber de protocolo foi o placar: Coritiba 2 a 0, Atlético-MG, no Couto Pereira, em mais um domingo de pesadelo para o Galo.

Quatorze pontos. Doze rodadas. Décima primeira posição. A dois do Z-4. Esse é o retrato do Atlético-MG no Brasileirão 2026 — e não existe declaração de presidente que apague esse número da tabela.

A Tabela Não Mentiu, Dominguez

O 2 a 0 do Coritiba não foi acidente. Breno Lopes abriu logo aos sete minutos e o goleiro Everson deu o segundo de bandeja — um erro tão bizarro que parecia coisa de quem desistiu antes de a bola rolar. O Atlético não pressionou, não criou, não incomodou. Voltou de Curitiba com o mesmo vazio que levou.

O problema começa muito antes do gol errado de Everson. Eduardo Domínguez chegou em fevereiro com currículo respeitável — defendeu Racing e Colón com seriedade, dois clubes que não têm o orçamento de um Galo ainda vivendo dos ecos do Mundial de Clubes. Veio com proposta de jogo e com a chancela do departamento de futebol. Em doze rodadas, somou 14 pontos — o mesmo que times dos quais ninguém esperava grande coisa.

Pode conferir no raio-X estatístico das 12 rodadas do Brasileirão 2026: o Atlético não encontra identidade ofensiva, e a defesa que deveria ser sólida virou catálogo de erros individuais. Não é azar. É padrão.

Bracks Bancou — E Isso Resolve Alguma Coisa?

O presidente foi rápido. Quando o jornalista Guilherme Frossard informou que Domínguez teria colocado o cargo à disposição, Bracks apareceu nas câmeras para desmentir, deu o respaldo oficial e mostrou que o clube está unido. Muito bem.

Só que respaldo de presidente não valida passe e não garante resultado. O que Bracks bancou foi um treinador que, no momento em que escrevo, ainda não virou o jogo — e que comanda um elenco que o próprio acionista do clube chamou de cheio de "peixes graúdos" sem comprometimento. Quando o dono do negócio fala isso em público, o problema não é tático. É cultural. E cultura não se resolve em coletiva.

O Galo prometia ser diferente em 2026. A derrota para o Coritiba que aprofundou a crise encerrou essa narrativa antes de ela ganhar força. O que sobrou foi uma equipe sem identidade e uma diretoria que defende o treinador enquanto a tabela sugere que talvez ela precise defender o clube.

O Relógio Está Rodando, Eduardo

Vou ser direta, que é o que gosto de ser.

Dominguez tem o respaldo, tem o salário, tem o vestiário. Mas não tem resultado. E no futebol brasileiro, essas três coisas não ficam juntas por muito tempo quando a quarta está faltando.

A zona de rebaixamento é real. Dois pontos de distância. Uma derrota. Um deslize em casa, uma viagem fora, e o Galo olha para o Z-4 pela primeira vez em anos. Isso não é papo de torcedor exagerado — é matemática.

O que me incomoda não é o Dominguez em si. O treinador argentino pode ser bom, pode ter projeto, pode precisar de mais tempo. O que me incomoda é a narrativa de que o clube está "controlado" enquanto o vestiário vaza rumores de pedido de demissão, enquanto o acionista faz declaração pública sobre jogadores descompromissados e enquanto a torcida vaia no Couto Pereira.

Não existe crise sob controle nessas condições. Existe crise com fachada de controle.

Bracks pode bancar Dominguez o tempo que quiser. Mas o Brasileirão não aceita negociação: o Atlético precisa ganhar pontos, e precisa começar agora. Se o treinador consegue, ótimo. Se não consegue, a diretoria vai ter que escolher entre a lealdade ao projeto e a sobrevivência na elite.

Eu já escolheria. Você sabe qual.

Fonte: Moon BH, Antenas do Futebol, O Tempo | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.