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Opinião

Morte na Arena do Grêmio exige apuração, não notas

A morte de um torcedor durante Grêmio x Palmeiras não pode ser reduzida a versões em conflito. Relatos da família e respostas de Grêmio e Unimed pedem apuração independente e transparente.

Neide FerreiraNeide Ferreira5 min de leitura
Morte na Arena do Grêmio exige apuração, não notas
A Arena do Grêmio vista antes de partida em Porto Alegre — Foto: Reprodução / ge

A morte de um torcedor na Arena do Grêmio, durante o empate com o Palmeiras no domingo, não pode terminar numa troca de versões. A família de Euclides Maciel dos Santos questiona a demora no socorro; Grêmio e Unimed Porto Alegre afirmam que o atendimento foi imediato e que a estrutura estava disponível. Entre uma coisa e outra há uma pergunta que não cabe em nota: o que aconteceu, minuto a minuto, naquela arquibancada?

Morte na Arena do Grêmio exige apuração independente, com documentos, horários e responsáveis identificados. Não é sentença antecipada. É o mínimo depois de uma morte em um estádio que recebeu mais de 50 mil pessoas para uma partida de Campeonato Brasileiro.

O ge relatou que familiares e uma técnica de enfermagem presente no setor contestam o tempo de chegada do suporte médico. A Unimed informou à reportagem que aplicou imediatamente os protocolos e que havia seis UTIs móveis, seis médicos, seis enfermeiros, seis técnicos e um médico regulador no estádio. O Grêmio também disse que os bombeiros civis fizeram o primeiro atendimento antes da continuidade com a equipe contratada.

A versão oficial não encerra a pergunta

É correto registrar a posição de quem organizou o serviço. Também é indispensável não transformar uma nota corporativa em conclusão. A família cita uma espera de 25 a 30 minutos; a empresa sustenta que a assistência foi imediata. As versões são incompatíveis no ponto central. Por isso, não basta repetir que havia ambulâncias e profissionais previstos: é preciso saber onde estavam, quando foram acionados, quando chegaram e quais procedimentos foram feitos.

O Jornal do Comércio confirmou a morte durante Grêmio x Palmeiras e informou que o torcedor recebeu atendimento de bombeiros e da equipe da Unimed. Essa confirmação não resolve a divergência sobre a velocidade e a organização do socorro; apenas reforça por que a investigação deve ser precisa.

Em um caso assim, transparência não é gentileza de assessoria. O clube, a administradora da Arena e a empresa médica precisam preservar e apresentar os registros que permitam reconstituir o atendimento: chamados de rádio, controle de acesso das equipes, localização das ambulâncias, câmeras do setor e prontuários. Se algum desses dados tiver sigilo, a apuração independente pode receber a documentação e divulgar apenas o que for de interesse público.

O torcedor não pode depender de uma disputa de narrativa

Estádios são lugares de celebração, mas também são estruturas de risco previsível. Público alto, escadas, calor, consumo de álcool, crises cardíacas e quedas não são imprevistos exóticos para quem vende ingressos e recebe multidões. O planejamento médico existe justamente para que um mal súbito não vire uma corrida sem comando.

O debate costuma ganhar força quando o resultado em campo é dramático ou quando há confusão de torcida. Só que a segurança do torcedor não cabe numa tabela de ocorrências. Ela é parte do jogo, do mesmo modo que a tabela do campeonato e os jogos adiados influenciam a temporada. O portal já explicou como partidas remarcadas mudam o calendário; aqui, a urgência é outra: nenhuma agenda esportiva vale mais que a capacidade de responder a uma emergência.

O Grêmio tem razão ao lamentar a morte. A Unimed tem o direito de apresentar a sua defesa. A família tem o direito de cobrar respostas. Mas o direito que deve orientar os três é o do público de saber se o protocolo prometido funcionou como deveria. Caso a investigação confirme que funcionou, os registros dão sustentação à resposta. Caso revele falhas, eles mostram onde corrigir antes do próximo jogo.

Apurar é a única forma de prevenir

Não há mérito em transformar uma morte em munição de rivalidade ou em espetáculo de indignação. Há, sim, dever de impedir que o assunto desapareça depois de dois dias de manchetes. A apuração precisa ter prazo, autonomia e um resultado público: quais eram os recursos escalados, como se deu o atendimento, que pontos foram auditados e quais medidas serão adotadas.

O futebol brasileiro discute com frequência os critérios que decidem a classificação; o guia sobre desempate no Brasileirão mostra o quanto o regulamento é detalhado quando há pontos em jogo. Para a proteção de quem paga para estar na arquibancada, o padrão não pode ser menor. Regras, escalas e protocolos precisam ser tão verificáveis quanto uma súmula.

A morte na Arena do Grêmio não pede uma culpada escolhida por torcida, nem uma absolvição por comunicado. Pede fatos. E pede que esses fatos sejam usados para que nenhuma família tenha de descobrir, tarde demais, se a ajuda chegou quando ainda podia fazer diferença.

Fonte: ge e Jornal do Comércio; conferência em 24 de setembro de 2026 · informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
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