Critérios de desempate do Brasileirão 2026: os 7 itens
Empate em pontos no Brasileirão não se resolve pelo saldo de gols — se resolve pelo número de vitórias. Entenda os sete critérios do regulamento da CBF na ordem exata, por que o Brasil diverge do resto do mundo e como essa hierarquia decide título, Libertadores e rebaixamento.
Thiago Borges8 min de leitura
Todo returno de Brasileirão chega com a mesma pergunta mal respondida nas mesas de bar: se dois times terminarem com os mesmos pontos, quem fica na frente? A resposta automática costuma ser "o saldo de gols" — e a resposta automática está errada. Os critérios de desempate do Brasileirão começam pelo número de vitórias, e essa escolha, tomada há mais de duas décadas, muda o cálculo de quem briga por título, por vaga na Libertadores e contra o rebaixamento.
A distinção deixa de ser detalhe de regulamento no momento em que a tabela comprime. Com a competição voltando da pausa da Copa do Mundo nesta quinta-feira, na 19ª rodada que fecha o primeiro turno, ainda faltam 20 rodadas para o desenho final. É exatamente o tipo de campeonato em que dois ou três clubes chegam a dezembro empatados — e em que a ordem dos critérios decide o que o campo não decidiu.
O que são os critérios de desempate do Brasileirão
O Brasileirão Série A é disputado em pontos corridos: 20 clubes, 38 rodadas, turno e returno. Vitória vale três pontos, empate vale um. Quando dois ou mais clubes encerram a competição com a mesma pontuação, o Regulamento Específico da Competição (REC) da CBF aciona uma sequência hierárquica de sete itens.
A palavra que importa aqui é hierárquica. Os critérios não são somados nem ponderados: são aplicados um a um, na ordem, e o primeiro que separar os clubes encerra a conta. Se o item 1 resolve, o item 2 sequer é consultado. Isso significa que um time pode ter saldo de gols muito superior ao do rival e ainda assim ficar atrás — basta ter vencido menos jogos.
A mesma hierarquia vale para qualquer faixa da tabela. Não existe critério especial para o título e outro para o Z4: o mecanismo que define quem levanta a taça é o mesmo que define quem cai para a Série B.
Os 7 critérios, na ordem exata do regulamento
| # | Critério | O que significa |
|---|---|---|
| 1 | Número de vitórias | Quem venceu mais partidas na competição |
| 2 | Saldo de gols | Gols marcados menos gols sofridos |
| 3 | Gols marcados | O total de gols pró, sem descontar os sofridos |
| 4 | Confronto direto | Resultado dos jogos entre os dois clubes empatados |
| 5 | Menos cartões vermelhos | O time com menos expulsões leva vantagem |
| 6 | Menos cartões amarelos | O time com menos advertências leva vantagem |
| 7 | Sorteio | Último recurso, realizado pela CBF |
Dois pontos desta tabela merecem atenção porque são os mais mal compreendidos.
O confronto direto (item 4) tem uma limitação decisiva: ele só se aplica quando exatamente dois clubes estão empatados. Se três times terminam com 62 pontos, o critério é simplesmente pulado, porque não há um "confronto direto" entre três equipes que produza um vencedor limpo. Daí vem boa parte da confusão nas últimas rodadas — a torcida faz a conta do confronto direto num empate triplo em que ele nunca seria acionado.
O fair play (itens 5 e 6) quase nunca aparece, mas existe e já foi consultado em divisões inferiores. É o lembrete de que indisciplina tem preço tabelado no regulamento, ainda que em último caso.
Por que vitória vale mais que saldo de gols no Brasil
A ordem não é acidente nem herança sem dono. Segundo o LANCE!, o modelo foi acertado entre a CBF e o antigo Clube dos 13 no fim de 2002 e passou a valer a partir de 2003 — atravessando mais de vinte temporadas sem contestação relevante dos clubes.
O argumento é de mérito esportivo. Num campeonato de pontos corridos longo, dois times podem chegar aos mesmos 62 pontos por caminhos opostos: um vencendo 18 jogos e empatando 8, outro vencendo 14 e empatando 20. A pontuação é idêntica; a postura, não. A regra brasileira parte do princípio de que quem venceu mais buscou mais o resultado, e que o campeonato deve premiar essa disposição em vez do acúmulo de empates.
Há um efeito colateral pouco discutido. Ao colocar vitórias na frente, o regulamento reduz o incentivo à goleada como estratégia de reserva — mas não o elimina, porque o saldo continua sendo o segundo item. O técnico brasileiro que pede calma num 4 a 0 está protegendo pernas; o que manda buscar o quinto está guardando crédito para dezembro. Os dois estão jogando dentro da regra, apenas em critérios diferentes.
O Brasileirão contra o resto do mundo
Aqui está a divergência que confunde o torcedor que acompanha futebol europeu e Copa do Mundo. A tendência internacional é começar pelo saldo de gols. A FIFA, na fase de grupos, ordena os empatados por saldo e depois por gols marcados, recorrendo ao confronto direto na sequência. Premier League e La Liga seguem lógicas próprias, mas nenhuma delas abre a hierarquia pelo número de vitórias.
O resultado prático é que a mesma tabela produz classificações diferentes dependendo do país. Dois clubes empatados em pontos, um com mais vitórias e outro com melhor saldo, trocam de posição conforme o regulamento aplicado. No Brasil, vence o primeiro. Na maior parte do mundo, o segundo.
Não existe "certo" e "errado" — existem prioridades. O saldo mede desempenho médio; a vitória mede resultado binário. O Brasileirão escolheu o segundo caminho e o defende há mais de vinte anos.
Como os critérios decidem título, G6 e Z4 na prática
O peso real da hierarquia aparece nas três faixas que valem dinheiro. Como já detalhamos no guia sobre as vagas na Libertadores pelo Brasileirão, as fronteiras da tabela raramente são separadas por margens confortáveis. É rotina que 6º e 8º cheguem à 38ª rodada empatados, e que 16º e 17º dividam a mesma pontuação com destinos radicalmente opostos.
Quando isso acontece, a conta é sempre a mesma e sempre nesta ordem: primeiro vitórias, depois saldo. Um empate arrancado aos 48 minutos vale um ponto na tabela, mas vale zero no primeiro critério de desempate. Uma vitória por 1 a 0 vale três pontos e mais uma unidade na coluna que separa a Libertadores da Sul-Americana.
Para o clube ameaçado, a leitura é ainda mais direta. Time que soma pontos empatando constrói uma pontuação frágil: chega aos mesmos números do concorrente com munição pior no desempate. Time que alterna vitórias e derrotas chega com pontuação igual e vantagem no item 1. O regulamento, na prática, cobra um pedágio de quem se acomoda.
Os erros de conta mais comuns
Cinco equívocos se repetem em toda reta final, e todos nascem da mesma raiz: aplicar ao Brasileirão uma regra que pertence a outro campeonato.
"O saldo desempata." Não desempata — não primeiro. O saldo é o item 2 e só é consultado quando dois clubes têm pontos e vitórias iguais. Um time com saldo +30 fica atrás de um com saldo +5 se tiver vencido um jogo a menos.
"No confronto direto, o Palmeiras leva." Talvez, mas só se o empate for entre exatamente dois clubes. Em empate triplo, o item 4 é ignorado e a disputa se resolve nos itens 1, 2 e 3.
"Para o Z4 o critério é outro." Não é. A hierarquia é única e vale igual para a primeira e para a última posição da tabela.
"Empate é meia vitória." Na pontuação, um empate rende um ponto. Na coluna que abre o desempate, rende zero. Dois empates somam os mesmos dois pontos que duas derrotas e uma vitória rendem menos um — mas a vitória isolada leva vantagem no item 1.
"O aproveitamento decide." O percentual de aproveitamento é ferramenta de análise, não item de regulamento. Ele descreve o rendimento, mas não aparece em nenhuma linha do artigo 15. Dois clubes com o mesmo aproveitamento e a mesma pontuação continuam sendo separados por vitórias.
O que a tabela de 2026 já mostra
Os números do primeiro turno ajudam a dimensionar quando o desempate vira assunto de verdade — e quando é ruído. O Brasileirão 2026 parou para a Copa com o Palmeiras na liderança com 41 pontos e 75,9% de aproveitamento, sete à frente do Flamengo, segundo o raio-X dos números da pausa. Uma distância dessas na ponta torna o critério de desempate irrelevante para o título: sete pontos são mais de duas vitórias, e nenhum item do artigo 15 se aplica a quem não empatou em pontos.
A parte de baixo conta outra história. O Grêmio voltou da pausa na 16ª colocação com 21 pontos, exatamente um à frente do Vasco, primeiro clube dentro da zona. Um ponto é a margem em que a hierarquia passa a mandar: basta um tropeço para os dois clubes se igualarem, e aí a conta deixa de ser sobre pontos e passa a ser sobre quantos jogos cada um venceu ao longo de 38 rodadas.
É por isso que o desempate é assunto de julho, não de dezembro. Em dezembro ele apenas revela o que já foi construído; a construção acontece agora, na 19ª rodada que abre com Botafogo x Santos e Vitória x Vasco e fecha o turno de ida. Cada vitória somada no returno é um crédito guardado no item 1 — e o item 1, no Brasil, é o que abre a fila.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
- Qual é o primeiro critério de desempate do Brasileirão?
- O maior número de vitórias. Só depois entra o saldo de gols, ao contrário da maioria das ligas do mundo, que começam pelo saldo.
- Quais são os critérios de desempate do Brasileirão na ordem?
- São sete: número de vitórias, saldo de gols, gols marcados, confronto direto, menos cartões vermelhos, menos cartões amarelos e, por último, sorteio da CBF.
- O confronto direto vale para desempatar três ou mais times?
- Não. O confronto direto só é aplicado quando exatamente dois clubes estão empatados. Com três ou mais, o critério é pulado.
- O que acontece se todos os critérios de desempate empatarem?
- O regulamento prevê sorteio realizado pela CBF como último recurso. Na prática, isso nunca precisou decidir um título ou um rebaixamento na Série A.
- Desde quando o Brasileirão usa o número de vitórias como primeiro critério?
- Desde 2003. A ordem foi acordada entre a CBF e os clubes no fim de 2002, com o argumento de valorizar quem busca a vitória em vez de acumular empates.
Fonte: CBF, LANCE!, Trivela, Band · informações adicionais por Beira do Campo
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