Libertadores Feminina precisa ouvir quem entra em campo
Após a cobrança de Vic Albuquerque e Belén Aquino, Neide defende que a discussão sobre o calendário continental tenha participação das atletas e respostas verificáveis da organização.
Neide Ferreira5 min de leitura
A Libertadores Feminina precisa colocar as jogadoras na mesa em que seu calendário é decidido. Minha cobrança à CONMEBOL é simples: quem vive a competição deve participar da avaliação do formato, com espaço para apresentar problemas e receber respostas. A festa continental ganha sentido quando o cuidado com as protagonistas acompanha a importância atribuída à taça.
O motivo desta coluna é uma manifestação pública, não uma conclusão médica. Na reportagem de Giselly Corrêa, publicada pelo UOL neste sábado, 31 de outubro, Vic Albuquerque e Belén Aquino criticaram as condições da disputa. As declarações foram dadas em coletiva na sexta-feira, dia 30. Vic relacionou o desgaste ao intervalo reduzido entre partidas; Belén também cobrou evolução da competição.
Libertadores Feminina: ouvir a crítica faz parte do jogo
Não cabe transformar o relato das atletas em diagnóstico de todo o elenco ou em prova automática de que determinada lesão foi causada pelo calendário. Cabe reconhecer que existe uma cobrança feita por quem está disputando o torneio. É um ponto de partida suficientemente sério para exigir conversa organizada, em vez de esperar que o assunto desapareça depois da cerimônia de premiação.
Para mim, a resposta adequada começaria com perguntas concretas: quais dificuldades foram relatadas pelas participantes? Que alternativas de distribuição dos jogos foram consideradas? Quais restrições impedem uma mudança? A organização pode apresentar razões para suas escolhas. O que defendo é que essas razões sejam discutidas com as atletas, e que a escuta produza algum encaminhamento identificável.
Isso também exige responsabilidade de quem comenta. Uma declaração sobre cansaço não autoriza inventar números de lesões, estabelecer um limite universal de recuperação ou anunciar que um grupo inteiro está sem condições de jogar. A crítica fica mais forte quando respeita aquilo que se sabe. Exagerar a denúncia oferece uma saída fácil para quem prefere discutir o exagero a enfrentar o problema apresentado.
O calendário tem desenho e pode ser debatido
Na apresentação oficial da edição de 2026, a CONMEBOL informou a disputa de 15 a 31 de outubro, com 16 clubes. O formato reúne fase de grupos e eliminatórias em jogo único. Esse é o desenho desta edição, divulgado antes da abertura, e não uma mudança anunciada hoje.
A informação oficial ajuda a tirar o debate do terreno dos slogans. Não basta pedir um calendário melhor sem discutir como ele funcionaria. Eu cobraria uma comparação entre alternativas: o que mudaria para as delegações, para a preparação das equipes e para a organização? Quem pagaria os custos adicionais? Como os compromissos nacionais entrariam nessa negociação? São questões de planejamento que precisam acompanhar qualquer proposta.
Há um argumento legítimo a considerar: concentrar a competição pode facilitar sua realização e reduzir dificuldades logísticas. Essa é uma hipótese que merece exame, não um dado financeiro comprovado desta edição. Mesmo que seja demonstrada, ela não encerra a conversa. Facilitar a operação e oferecer condições adequadas de disputa são objetivos que precisam ser tratados juntos. A solução exige explicitar os custos de cada escolha.
O portal já explicou o início da competição e sua estrutura. Aqui, a pergunta é outra: como avaliar esse modelo depois de ouvir quem o disputa? Confundir explicação do regulamento com aprovação de todas as suas consequências empobrece uma discussão que pode ser muito mais útil.
Participação precisa deixar um resultado visível
Minha proposta seria reunir representantes das jogadoras, dos clubes e da organização para uma avaliação ao fim do torneio, com uma devolutiva pública antes da edição seguinte. Não apresento isso como uma reunião já marcada. É uma cobrança editorial: problemas relatados, alternativas examinadas e decisões justificadas deveriam formar um registro que pudesse ser acompanhado.
Uma consulta assim só teria valor se permitisse discordância. Ouvir atletas não pode significar convidá-las apenas para validar uma decisão pronta. Também não significa entregar a uma única equipe o poder de definir a competição. O objetivo seria reunir experiências diferentes e tornar claros os pontos em que existe acordo, os impasses e as providências possíveis.
A final entre Corinthians e Cruzeiro merece atenção pelo futebol. A cobrança sobre a organização merece continuidade independentemente de quem levante a taça. Não aceito que a vitória transforme uma reclamação em detalhe dispensável, nem que uma derrota seja usada para desqualificar a fala como desculpa. O mérito da crítica precisa ser examinado pelo que ela apresenta.
Quem quiser acompanhar a programação disponível pode consultar a agenda do portal. Minha exigência para o próximo calendário, porém, vai além de saber quando ligar a televisão: quero que as protagonistas tenham participação na construção da competição. Celebrar o trabalho das jogadoras inclui levar a sério o que elas dizem sobre as condições para realizá-lo.
Fonte: UOL e CONMEBOL; fontes conferidas em 31 de outubro de 2026 · informações adicionais por Beira do Campo
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