Abel e os feudos: união dos clubes exige abrir mão de poder
A cobrança de Abel Ferreira aos clubes acerta no problema coletivo. Mas defender organização exige aceitar fiscalização e critérios também quando eles incomodam a própria casa. Coluna de Neide Ferreira.
Neide Ferreira5 min de leitura
Abel Ferreira tem razão ao cobrar que os clubes saiam dos seus feudos. Minha ressalva é simples: união no futebol brasileiro precisa significar aceitar uma decisão coletiva quando ela contraria a própria conveniência. Se o acordo serve apenas para pressionar quem está do lado de fora, temos uma reunião de interesses momentaneamente parecidos. Organizar um campeonato exige um compromisso mais difícil: preservar o que foi combinado depois que a vantagem muda de camisa.
A declaração repercutiu nesta quinta-feira, 29 de outubro, em reportagem do UOL. O técnico do Palmeiras dividiu a responsabilidade pela organização entre CBF e clubes e criticou a dificuldade de pensar no conjunto. A provocação merece sobreviver à coletiva. Não como uma absolvição do treinador ou de qualquer instituição, mas como uma pergunta dirigida a todos: quem aceita ser contrariado pelo padrão que diz defender?
Abel e os feudos: concordar é a parte confortável
É fácil aplaudir uma cobrança por qualidade. Ninguém pede publicamente um campeonato pior, uma estrutura menos confiável ou um calendário mais confuso. A divergência aparece na conta: quem investe, quem fiscaliza, quem presta explicações e quem aceita corrigir um problema antes que ele provoque uma crise. Sem responder a essas perguntas, a palavra união vira um lugar agradável onde todo mundo concorda e ninguém se compromete.
A origem imediata da discussão foi a crítica de Abel às condições do campo na Vila Belmiro, registrada também pelo Lance! na noite de quarta-feira, 28. A reportagem confirma a cobrança por melhores condições para o espetáculo. A avaliação do gramado pertence ao treinador; não estou apresentando um laudo técnico, uma inspeção ou uma infração comprovada pela organização.
O ponto desta coluna vai além daquele estádio. Uma competição precisa de procedimentos que funcionem antes da entrevista irritada. Minha proposta seria tornar compreensíveis os critérios de avaliação, identificar os responsáveis por acompanhá-los e explicar as providências adotadas. Não afirmo que esse modelo tenha sido aprovado agora. Defendo que essa deveria ser a régua para julgar qualquer promessa de melhora.
Cooperação precisa ter consequência dentro de casa
Um clube pode defender os seus interesses e participar de uma construção coletiva. Não há contradição inevitável nisso. O conflito começa quando a exceção pedida para a própria casa destrói o critério exigido na casa do adversário. Aí, o problema deixa de ser rivalidade e passa a ser a incapacidade de sustentar uma regra comum.
Penso num exemplo hipotético: se todos aceitarem um procedimento de avaliação de infraestrutura, a conclusão desfavorável precisa produzir resposta também quando atingir um participante poderoso. Caso contrário, o procedimento existe apenas para os outros. O teste da cooperação ocorre justamente quando cumprir o combinado custa dinheiro, tempo ou alguma liberdade de decisão.
O portal já acompanhou a abertura do debate da CBF com os clubes sobre o regulamento de 2027. Aquele registro é de agosto e deve ser lido como histórico, sem presumir que toda reunião prevista ocorreu ou que uma proposta virou norma. Serve para lembrar uma distinção essencial: colocar um assunto na agenda e entregar uma solução são etapas diferentes.
O contra-argumento merece lugar na mesa
Existe uma objeção legítima: clubes têm estruturas e recursos distintos. Exigir o mesmo resultado imediato sem considerar condições de implementação pode ampliar desigualdades. Uma organização coletiva responsável teria de discutir prazos, assistência técnica e formas de financiamento. Pedir padrão não autoriza fingir que todos partem do mesmo ponto.
Também seria injusto transformar um técnico em responsável por resolver sozinho a administração do futebol. Abel responde por uma equipe, não pelo conjunto das instituições. A fala dele pode abrir a conversa; o desenho das decisões cabe aos responsáveis pela competição e aos participantes. Cobrar a contribuição dos clubes não elimina a responsabilidade da entidade organizadora.
Aceito esses limites. O que não aceito é usá-los como salvo-conduto para eternizar a conversa. Diferença de orçamento pode justificar uma transição bem explicada. Não deveria justificar ausência de compromisso verificável. O torcedor precisa conseguir distinguir uma dificuldade real de uma promessa sem prazo e sem responsável.
A cobrança vale quando a camisa muda
Minha conclusão é que a melhor parte da provocação de Abel está na responsabilidade compartilhada. O campeonato é uma relação entre adversários que dependem uns dos outros para competir. Cuidar dessa relação exige abrir mão de decisões isoladas em alguns assuntos, sem abrir mão da disputa esportiva. Rivalidade pode continuar intensa; o procedimento precisa continuar previsível.
Para observar o que acontece em campo, há a agenda de futebol e a tabela do Brasileirão. Para acompanhar outra dimensão da responsabilidade institucional, vale retomar o debate sobre horários e os papéis de CBF e televisão. São assuntos diferentes, unidos pela necessidade de explicar quem decide e por quê.
Aplaudir a crítica aos feudos é confortável. Aceitar fiscalização, justificar uma escolha e cumprir um compromisso inconveniente dá trabalho. É nessa segunda parte que eu quero ver a disposição coletiva aparecer. União que não consegue atravessar a porta do próprio clube ainda não virou organização.
Fonte: UOL (29/10/2026) e Lance! (28/10/2026, atualizado em 29/10), consultados em 29/10/2026 · informações adicionais por Beira do Campo
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