Julio Casares se defende na investigação do São Paulo
Seis meses depois do impeachment, Julio Casares falou publicamente sobre a apuração que corre no 4º DP e no Ministério Público. Negou os desvios, chamou os saques de fantasia e disse ter sido traído dentro do Morumbi.
Renato Caldeira5 min de leitura
Seis meses depois de perder o cargo no Morumbi, Julio Casares decidiu falar. O ex-presidente do São Paulo rompeu o silêncio neste domingo para responder à investigação que apura suspeitas de desvio de recursos do clube — e escolheu a frase mais direta possível: "eu não sou ladrão". A entrevista chega enquanto a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo colhem depoimentos que, segundo as testemunhas ouvidas em julho, descrevem uma rotina de saques em dinheiro vivo dentro do departamento financeiro tricolor.
O timing não é casual. O caso vinha correndo sob sigilo desde janeiro, alimentado por vazamentos pontuais. Com os relatos das últimas semanas ganhando corpo, a defesa mudou de estratégia: saiu da nota oficial e foi para o microfone.
O que a investigação apura
A apuração está no 4º Distrito Policial, ligado à divisão que cuida de crimes contra a administração e lavagem de dinheiro, com acompanhamento do Ministério Público. Os crimes sob análise são gestão temerária, furto qualificado e lavagem de dinheiro. Nenhuma decisão judicial definitiva foi tomada até aqui.
Os números que circulam se dividem em dois blocos distintos — e essa distinção importa, porque parte da cobertura os trata como se fossem o mesmo dinheiro:
| Bloco | Valor | Período | Origem |
|---|---|---|---|
| Saques das contas do clube | R$ 11 milhões em 35 operações | jan/2021 a nov/2025 | Caixa do São Paulo |
| Depósitos em espécie na conta pessoal | R$ 1,5 milhão | jan/2023 a mai/2025 | Conta de Casares |
O ponto que a investigação ainda não fechou é justamente a ponte entre os dois. Até o momento, não há conexão direta estabelecida entre os R$ 11 milhões retirados do clube e os depósitos identificados na conta do ex-dirigente. São linhas que correm em paralelo no inquérito.
No segundo bloco, o que chamou atenção do Coaf foi o padrão. Do R$ 1,5 milhão movimentado, apenas R$ 617 mil — 19,3% — tinham origem no salário que Casares recebia do clube. O restante entrou fracionado, em depósitos que frequentemente paravam em R$ 49 mil, logo abaixo do limite de R$ 50 mil que dispara comunicação automática aos órgãos de controle. A prática tem nome técnico: smurfing.
Os depoimentos de julho acrescentaram a camada mais concreta. Testemunhas relataram que Casares solicitava valores ao financeiro sob a justificativa de "ações promocionais em eventos", e que o dinheiro saía em sacolas e envelopes, em quantias mensais de cerca de R$ 100 mil.
A defesa de Julio Casares
A resposta de Julio Casares ataca a verossimilhança da acusação antes de atacar as provas. Ele afirmou que presidente de clube não vai pessoalmente ao banco fazer saque — chamou o cenário de "fantasia" — e emendou que, se quisesse desviar dinheiro, "não faria isso de forma tão amadora".
Sobre o cartão corporativo, admitiu. Houve gastos pessoais, mas diz ter restituído cerca de R$ 400 mil ao clube, e não o R$ 1 milhão que a acusação aponta. Negou também conhecimento sobre a venda irregular de camarotes, outro braço da apuração. E cravou a tese que dá o tom da entrevista: foi traído por gente de dentro.
A linha dos advogados Daniel Bialski e Bruno Borragine é a mesma desde janeiro — origem lícita. O argumento é que o dinheiro vem da poupança acumulada por Casares no mercado privado, antes de assumir a presidência, e que o salário de R$ 27 mil no cargo não sustentaria o padrão de vida que ele tinha fora do futebol.
É uma defesa que se sustenta ou desmorona em documento. Extrato, declaração de renda, comprovação da poupança anterior. Nada disso foi apresentado publicamente até agora.
O clube no meio do fogo cruzado
Casares não é mais presidente do São Paulo desde 16 de janeiro de 2026, quando o Conselho Deliberativo aprovou o impeachment por 188 votos. O vice Harry Massis Júnior assumiu e comanda o clube até o fim do ano, quando ocorre nova eleição. Casares ainda responde a um processo de expulsão do quadro social.
A herança administrativa é pesada. O clube atravessou o primeiro semestre lidando com restrições da Fifa no mercado de transferências, um problema que nasce exatamente do tipo de gestão financeira agora sob investigação. Em campo, o Tricolor tenta separar as coisas — com oscilação entre a tabela e a realidade do elenco que marcou o turno inteiro.
Próximos passos
O inquérito segue sob sigilo, sem prazo divulgado para conclusão. Os depoimentos colhidos em julho ainda serão cruzados com a documentação bancária pedida pelo Ministério Público, e o desfecho depende de a investigação conseguir — ou não — estabelecer o vínculo entre o caixa do clube e a conta pessoal do ex-presidente. Sem essa ponte, o caso muda de tamanho.
Enquanto isso, a bola rola. O São Paulo visita o Flamengo neste domingo, às 18h30, no Maracanã, pela rodada 20 que abre o returno do Brasileirão. O elenco entra em campo num clube que passou o ano tentando provar que a crise de gabinete não contamina o vestiário — uma tese que 90 minutos não confirmam nem desmentem, mas que a tabela vai cobrando semana a semana.
Informações apuradas em ESPN, Lance e O Tempo. Julio Casares nega as acusações e não há condenação no caso.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
- Do que Julio Casares é acusado?
- A apuração da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo investiga suspeitas de gestão temerária, furto qualificado e lavagem de dinheiro. Não há decisão judicial definitiva no caso.
- Quanto dinheiro está sob investigação no São Paulo?
- São dois blocos: R$ 11 milhões retirados em espécie das contas do clube em 35 operações entre janeiro de 2021 e novembro de 2025, e R$ 1,5 milhão em depósitos em dinheiro vivo na conta pessoal de Casares entre janeiro de 2023 e maio de 2025.
- Julio Casares ainda é presidente do São Paulo?
- Não. O Conselho Deliberativo aprovou o impeachment em 16 de janeiro de 2026, por 188 votos. O vice Harry Massis Júnior assumiu o cargo e fica até o fim de 2026, quando haverá nova eleição.
- O que Casares respondeu às acusações?
- Ele negou os desvios, afirmou que não é ladrão e classificou como fantasia a ideia de que um presidente faça saques em espécie pessoalmente. Admitiu gastos pessoais no cartão corporativo, mas disse ter restituído cerca de R$ 400 mil ao clube.
Fonte: ESPN, Lance, O Tempo · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

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Jornalista esportivo com 15 anos de experiência cobrindo futebol brasileiro. Ex-repórter da Gazeta Esportiva e colaborador do Lance!. Especialista em mercado da bola e bastidores dos grandes clubes.

