Corinthians acerta ao barrar a venda de André ao Milan?
Presidente Osmar Stabile vetou negociação de R$ 103 milhões com o Milan por André. Decisão corajosa ou irresponsabilidade financeira? Neide Ferreira analisa o dilema que divide o Parque São Jorge.


O presidente Osmar Stabile colocou o pé na mesa e disse não. Diante de uma proposta de 17 milhões de euros — algo em torno de R$ 103 milhões — do Milan pelo volante André, o mandatário corintiano preferiu engavetar a caneta. A torcida aplaudiu. Dorival respirou aliviado. Mas será que o Corinthians realmente acertou? Essa pergunta não tem resposta fácil, e quem disser que tem está mentindo.
O veto que sacudiu o Parque São Jorge
Vamos aos fatos. O Milan apresentou proposta de 15 milhões de euros fixos, mais 2 milhões em bônus por metas, pela aquisição de 70% dos direitos econômicos de André. O departamento jurídico do Corinthians já havia trocado minutas contratuais com o clube italiano. Marcelo Paz, diretor de futebol, levou a oferta aos setores financeiro e técnico. Tudo caminhava para a conclusão do negócio — até Stabile, no domingo, decidir que não assinaria.
A justificativa? André vale mais. O garoto de 19 anos, revelado na base corintiana, tem contrato até 2029 e multa rescisória internacional de 100 milhões de euros. Com 23 jogos e 4 gols pelo profissional, o volante se firmou como titular e peça fundamental no esquema de Dorival. A lógica do presidente é que vender agora, nesse valor, seria entregar ouro por preço de bronze.
E aqui mora o problema: nem tudo que brilha na Fazendinha vira ouro na Europa.
Os números não mentem — e assustam
O próprio Marcelo Paz foi sincero ao falar sobre a situação financeira do clube. "O André pode valer mais? Pode. Mas pode valer menos também", admitiu o diretor à ESPN. E complementou reconhecendo que o Corinthians precisa de vendas para equilibrar o caixa.
R$ 103 milhões não é dinheiro que se encontra debaixo do colchão — especialmente para um clube que ainda carrega dívidas pesadas. O Corinthians, que viu sua temporada no Paulistão terminar nas mãos do Novorizontino, precisa de receitas para reforçar o elenco e honrar compromissos. A própria ampliação da janela de transferências pela CBF dava ao clube margem para vender André e buscar reposição no mercado.
Agora o Milan ameaça ir à FIFA alegando quebra unilateral de contrato. Existem e-mails, minutas trocadas e assinaturas parciais que podem configurar, na visão dos italianos, um acordo de fato. Se a entidade der razão ao Milan, o Corinthians pode acabar obrigado a concretizar a venda — e ainda levar uma multa por cima.
O argumento de quem aplaude Stabile
Do outro lado da moeda, há quem defenda — com razão — que não se deve vender a joia da coroa na primeira oferta. Dorival Júnior deixou claro, antes mesmo da semifinal do Paulistão, que não tinha "peça de reposição à altura" para André. E o técnico tem um ponto: tirar um volante de 19 anos do time titular no meio da temporada, sem substituto garantido, é receita para desastre esportivo.
Além disso, existe o fator valorização. Se André mantiver a evolução, uma convocação para a Seleção Brasileira — com a Copa do Mundo de 2026 no horizonte — pode multiplicar seu valor de mercado. Nesse cenário, os 17 milhões de euros do Milan pareceriam troco de padaria.
A torcida sabe disso. A reação negativa nas redes sociais quando o acordo vazou no sábado pesou na decisão de Stabile. O presidente leu o termômetro da Fiel e agiu.
O risco calculado — ou nem tanto
Minha posição? O Corinthians está jogando um jogo perigoso. Barrar a venda é defensável do ponto de vista esportivo, mas ignora a realidade financeira do clube. E no futebol brasileiro, realidade financeira cobra juros altos.
André pode, sim, explodir e valer 50 milhões de euros em dois anos. Mas também pode sofrer uma lesão grave amanhã, perder espaço no time ou simplesmente não confirmar o potencial que todos enxergam. A história do futebol brasileiro está cheia de joias que nunca chegaram a brilhar na vitrine europeia.
O que mais me preocupa não é a decisão em si, mas o processo. Um presidente que deixa a negociação chegar ao estágio de minutas assinadas pelo jurídico para só então vetar tem um problema de governança. Ou Stabile não acompanhou as tratativas de perto — o que é grave — ou mudou de ideia por pressão externa — o que é pior.
Corinthians acertou? Talvez. Mas se a FIFA bater à porta e o André se machucar na próxima rodada, quem vai arcar com a conta não será a torcida que comemorou no Twitter. Será o mesmo clube que, há tempos, tenta sair do vermelho sem sucesso. Stabile apostou alto. Agora, que banque a aposta.
Fonte: Gazeta Esportiva, ESPN, Terra | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


