O Flamengo gastou R$ 334 milhões — e não tem mais desculpa
Paquetá voltou por R$ 260 milhões, Vitão veio do Inter por R$ 65 milhões, Andrew fechou o pacote. Com R$ 334 mi gastos em janeiro, Neide Ferreira sentencia: a palavra 'processo' foi aposentada no Flamengo.


Pode me chamar de implacável. Pode dizer que sou injusta. Mas quando um clube desembolsa R$ 334 milhões em uma única janela de transferências, eu tenho o direito — e a obrigação — de cobrar resultado. O Flamengo fechou a primeira janela de 2026 com Lucas Paquetá (R$ 260 milhões do West Ham), Vitão (R$ 65 milhões do Internacional) e o goleiro Andrew (R$ 9,4 milhões do Gil Vicente). Trezentos e trinta e quatro milhões de reais. Em três jogadores. Em três meses.
Escreva esse número por extenso uma vez. Depois me diz se ainda consegue usar a palavra "processo" com cara limpa.
A temporada mal ganhou ritmo e o Rubro-Negro já carrega um compromisso pesado com a torcida. Depois de tanto investimento, de tanto esforço para convencer a nação de que 2026 seria o ano da redenção, o Flamengo não está em construção. O Flamengo está — ou deveria estar — pronto. E cobrar pronto não é exagero. É consequência natural de quem decide gastar tanto.
Os R$ 334 milhões que tiram qualquer desculpa
Lucas Paquetá não é reforço qualquer. É a contratação mais cara da história do futebol brasileiro: 42 milhões de euros vindos do cofre do clube para trazer de volta o meia que o próprio Flamengo revelou, vendeu para a Europa e agora recompra mais experiente, mais técnico e — espera-se — mais decisivo. Ele retorna ao Maracanã com o peso de uma expectativa que o dinheiro sozinho não resolve, mas que o dinheiro ajudou a construir.
Vitão chegou do Internacional para tapar um buraco histórico: a zaga. Dez milhões de euros por um zagueiro sólido, de clube, de seleção. Faz sentido. Andrew, o goleiro português, veio para disputar posição e elevar o nível do setor. Matematicamente, o elenco fecha. No papel, o Flamengo tem estrutura para brigar por Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil simultaneamente.
De acordo com o Poder360, esse foi o maior gasto da história do clube em uma única janela. Isso não é investimento modesto. É declaração de guerra. E declaração de guerra tem preço — todo mundo sabe qual é o preço de uma declaração que não se sustenta em campo.
Já analisamos aqui no portal os desafios específicos que Paquetá enfrenta neste novo ciclo com Filipe Luís. O ambiente de cobrança existe, é justo, e vai crescer a cada rodada que o time não entrar no trilho.
"Ainda é cedo demais para cobrar" — não venha com essa
Toda vez que o Flamengo tropeça, aparece o coro de sempre: "calma, o time ainda está se entrosando", "pré-temporada foi atípica", "precisa de mais rodadas". Tempo. Sempre tempo. Como se dinheiro não comprasse exatamente isso — a capacidade de acelerar processos.
O Flamengo arrancou o Brasileirão com 1 vitória, 1 empate e 1 derrota nas primeiras três rodadas. Não é colapso, longe disso. Mas também não é o que se espera de um elenco montado com o maior investimento da janela sul-americana. O Brasileirão 2026 apontava o Rubro-Negro como um dos principais favoritos ao título antes de a bola sequer rolar. Com razão: o plantel justifica essa expectativa.
A questão que a torcida faz — e tem todo o direito de fazer — é simples: quando esse potencial vai virar pontos? O Brasileirão é longo, sim. Sessenta e oito rodadas pela frente. Mas título não se constrói no fim do campeonato. Constrói-se em março, em abril, nos jogos que a maioria chama de "corriqueiros" e que os campeões não deixam escapar.
E olha que não é só questão de resultado. É de identidade. O Flamengo de Filipe Luís ainda parece um time em busca de um estilo definido. Com tanto talento disponível, isso precisa ser resolvido rápido — antes que o campeonato decida por você.
O Flamengo pode. Por isso tem que ganhar
Não sou ingênua de achar que dinheiro garante título. Vi o PSG gastar fortunas e amargar decepções europeias por anos. Vi clubes ricos errarem feio no mercado. Investimento alto não é sinônimo de campeonato ganho.
Mas o ponto aqui não é sobre dinheiro mágico. É sobre responsabilidade pública. Quando você investe R$ 334 milhões, você manda um recado ao torcedor: "acredite em nós". Ao rival: "venha nos bater". Ao país: "queremos ser os melhores desta geração". Esse recado foi mandado. Não pode ser renegado na primeira sequência difícil.
Filipe Luís tem talento de sobra para trabalhar. Paquetá já deu sinais de que a integração caminha — seu melhor desempenho da temporada veio justamente no Maracanã, contra o Sampaio Corrêa, no Carioca. O time respira. Mas precisa mais que respirar: precisa ganhar jogos grandes, segurar resultados fora de casa, mostrar personalidade quando o marcador aperta.
A torcida do Flamengo esperou muito. O Flamengo gastou muito. Agora é hora de dar muito — em pontos, em títulos, em futebol de verdade.
Porque quando você coloca R$ 334 milhões na mesa, "foi difícil" não é resposta suficiente no fim do ano. A conta vai chegar. E ela já tem nome, número e prazo de vencimento.
Fonte: Poder360, ESPN Brasil, CNN Brasil | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


