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Opinião

Ceará feminino: voltar ao treino não quita salário atrasado

As jogadoras voltaram ao campo com pagamentos pendentes, segundo o ge. Na Quinta Polêmica, Neide cobra que dedicação das atletas não vire desculpa para adiar salário e pede uma resposta concreta do Ceará.

Neide FerreiraNeide Ferreira5 min de leitura
Ceará feminino: voltar ao treino não quita salário atrasado
Mayara, goleira do Ceará, em fotografia de arquivo usada na reportagem sobre os atrasos — Foto: Junior Santos/AD Taubaté, via ge

O Ceará feminino merece receber os salários atrasados sem que a volta aos treinos seja tratada como solução da crise. Jogadora que retorna ao campo demonstra dedicação; não assina recibo de pagamento com a chuteira. Minha posição nesta Quinta Polêmica é essa: o esforço de quem trabalha não pode servir de cortina para a obrigação de quem administra.

A cobrança continua pertinente nesta quinta-feira, 8 de outubro. A cobertura do ge para Ceará x Criciúma ainda aponta atrasos que atingem diferentes setores do clube. No feminino, o retorno aos trabalhos foi noticiado na véspera, com a preparação para o Cearense como motivo. Uma equipe pode seguir seu calendário enquanto o problema fora dele permanece aberto.

Ceará feminino: salários atrasados não desaparecem no campo

Na apuração publicada pelo ge em 7 de outubro, a maioria das atletas havia retomado os treinos, mas duas mantinham o protesto sem atividades de campo. A reportagem informou três meses de atraso e relatou que a promessa de regularização até 2 de outubro não havia sido cumprida.

Essa diferença entre as decisões das atletas precisa ser respeitada. Não cabe transformar quem voltou em exemplo usado contra quem continuou parada. Tampouco cabe julgar a dedicação de uma profissional pelo modo como enfrenta uma situação que ela não criou. Cada uma conhece suas condições; a diretoria responde pela pendência.

O futebol gosta de chamar dificuldades de combustível. Às vezes, a linguagem da superação ajuda a descrever um jogo. Aqui, ela atrapalha: salário atrasado não é ingrediente romântico de uma campanha. É incerteza para quem organiza a vida em torno de um pagamento esperado. Celebrar compromisso com a camisa pode ser justo, desde que a celebração não dispense a prestação de contas.

O apoio de Sanchez acerta o endereço da cobrança

Em entrevista de quarta-feira reproduzida pelo ge, Sanchez manifestou apoio às jogadoras e confiança na diretoria. O lateral disse que o elenco masculino mantém o foco nos treinos e jogos apesar dos atrasos.

As duas posições podem coexistir. Um atleta pode confiar na solução e reconhecer que o pagamento faz falta. A torcida também pode apoiar o clube e cobrar a gestão. Não existe contradição obrigatória entre querer uma equipe competitiva e exigir respeito a quem a sustenta diariamente.

Eu prefiro esse apoio à conversa de que reclamar prejudica o ambiente. O ambiente já sofre quando existe uma pendência salarial. A pessoa que aponta o problema não passa a ser sua autora. E o feminino não deveria precisar de um porta-voz do masculino para que a cobrança fosse considerada legítima. A solidariedade ajuda; o pagamento continua sendo a resposta necessária.

A dificuldade financeira explica, mas não encerra

Há um contra-argumento que merece ser considerado: organizar o caixa de um clube em crise não depende apenas de vontade. Receitas podem falhar, negociações podem demorar e uma solução anunciada pode encontrar obstáculos. Reconhecer essa dificuldade evita reduzir qualquer atraso a uma explicação fácil sobre intenção.

O Ceará apresentou sua posição. Ao ge, o clube disse ter regularizado pendências com boa parte dos funcionários e trabalhar para normalizar as restantes até o fim da semana. Isso é uma resposta institucional que precisa constar da discussão. Ainda é, porém, uma previsão de regularização; não comprova que todo mundo recebeu.

Também em entrevista noticiada em 1º de outubro, João Paulo Silva reconheceu pagamentos parciais e prometeu resolver a situação do feminino. O registro é histórico, anterior à notícia da retomada. Minha cobrança hoje nasce justamente da distância entre uma promessa e sua confirmação.

O debate sobre transição financeira no futebol exige responsabilidade com receitas e despesas. E o acompanhamento de balancetes de clubes ajuda a distinguir números contabilizados de expectativas. Nenhum desses debates autoriza tratar quem espera salário como variável secundária.

A próxima boa notícia precisa caber no comprovante

Não proponho adivinhar a data de quitação, anunciar uma punição ou fazer diagnóstico jurídico a partir de reportagens. Cobro algo mais direto: comunicação compreensível com as pessoas afetadas e confirmação do que foi efetivamente pago. Prazo que muda precisa de explicação, não de um novo elogio à entrega do elenco.

Na agenda de jogos do portal, o torcedor acompanha os compromissos esportivos. Mas a existência de uma partida não fecha as contas pendentes. Resultado, treino e salário são acontecimentos diferentes; um não serve de comprovante para o outro.

As jogadoras do Ceará já mostraram que sabem enfrentar a parte delas. O clube precisa demonstrar a sua com ações verificáveis. Eu quero ver a dedicação reconhecida, claro. Quero ainda mais que o próximo anúncio sobre esse problema permita escrever que houve pagamento, com a mesma precisão com que hoje se registra o atraso.

Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

01
As jogadoras do Ceará receberam os salários atrasados?
A reportagem do ge de 7 de outubro informou que os atrasos do feminino permaneciam em três meses. A cobertura de 8 de outubro ainda mencionava pendências no clube.
02
O feminino do Ceará voltou a treinar?
Segundo a apuração do ge de 7 de outubro, a maioria das atletas retomou os trabalhos de campo, mas duas continuavam sem treinar em protesto.
03
O que o Ceará respondeu sobre os pagamentos?
Ao ge, o clube afirmou ter regularizado pendências com boa parte dos funcionários e trabalhar para normalizar os pagamentos restantes até o fim da semana.

Fonte: ge: apuração sobre as jogadoras, entrevista de Sanchez e resposta do Ceará · informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

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