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Botafogo fora da Libertadores: o campeão que não soube ser campeão

O Botafogo ganhou a Libertadores em 2024 e em 2026 caiu na fase preliminar para o Barcelona de Guayaquil. Neide Ferreira cobra: ganhar uma taça sem construir continuidade é tiro no escuro.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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Botafogo fora da Libertadores: o campeão que não soube ser campeão
Botafogo eliminado pelo Barcelona de Guayaquil na pré-Libertadores 2026 — Foto: Reprodução / ESPN Brasil

Neide Ferreira é colunista do Beira do Campo. Sua opinião não representa necessariamente a posição da redação.

O Botafogo foi campeão da Libertadores em novembro de 2024. Arrancou a taça de uma competição que faz crescer gigantes. Bateu o Atlético-MG na final, em Mar del Plata, com um futebol que o mundo parou para assistir. Jogadores cantados, Textor discursando, torcida em êxtase. Era para ser o começo de uma era.

Pouco mais de um ano depois, o Botafogo está na Copa Sul-Americana.

Não caiu diante de nenhum gigante. Não perdeu para Flamengo, River Plate ou Boca Juniors. Perdeu para o Barcelona de Guayaquil. Respeitável equipe equatoriana, sem dúvida — mas absolutamente fora do radar de qualquer campeão continental que ainda tenha o troféu guardado no armário. Foi 0x1 em casa, no Nilton Santos, depois de ter empatado por 1-1 no Equador. Agregado: 2-1 para o Barcelona. Fim.

Isso não é zebra. Isso é negligência disfarçada de processo.

O desmonte que ninguém quis chamar pelo nome

Ganhar a Libertadores exige mais do que um time inspirado numa noite histórica. Exige continuidade, planejamento e coragem de manter o que funcionou. O Botafogo de 2024 tinha um sistema, um técnico que havia moldado o grupo durante meses, e uma identidade de jogo reconhecível. O que fizeram depois do título? Primeiro virou o elenco de cabeça para baixo. Depois mudaram de treinador. E hoje apostam em Martín Anselmi, que chegou após o Mundial de Clubes, tentando remontar em semanas o que levou uma temporada para construir.

Textor aparecia em todo entrevista prometendo a revolução do futebol. Ciência de dados. Inteligência artificial. A gestão moderna que o Brasil nunca viu. O que temos em março de 2026 é uma eliminação na terceira fase preliminar da competição que o próprio clube venceu quatorze meses atrás. Antes da fase de grupos. Antes de qualquer time que o mundo considera favorito.

Enquanto isso, o Cristian Medina recém chegou ao Botafogo para reforçar o time no Brasileirão — numa janela de janela em janela, num clube que parece estar sempre reconstruindo o que ainda não terminou de construir.

O Brasil que gasta e perde na preliminar

Não é só o Botafogo. A ESPN levantou um dado histórico que vale anotar: é a primeira vez que dois clubes brasileiros são eliminados na fase preliminar da Libertadores no mesmo ano. O Bahia caiu para o O'Higgins. O Botafogo, para o Barcelona de Guayaquil. Nunca havia acontecido. Dois campeões nacionais foram eliminados antes de sentar à mesa grande.

O timing é particularmente irônico. O Brasileirão é hoje a segunda liga que mais gasta em transferências no mundo, atrás apenas da Premier League. R$ 1,6 bilhão na última janela. Contratamos Memphis Depay, Jesse Lingard, jogadores de seleção europeia. Estufamos o peito falando em patamar mundial.

E aí dois dos nossos melhores clubes caem na pré-fase da Libertadores para equipes das ligas equatoriana e chilena. Algo não fecha.

A lista de brasileiros eliminados cedo já é longa: Corinthians em 2011, 2020 e 2025, Grêmio em 2021, Fluminense em 2022, Fortaleza em 2023, Red Bull Bragantino em 2024. E agora, em 2026, chegamos ao recorde de duas eliminações simultâneas. Ninguém trata como emergência. Ninguém faz uma reunião de cúpula para entender por que o futebol brasileiro continua caindo no continente que deveria dominar.

Trono sem guarda é convite ao ladrão

Sou suspeita para defender o Botafogo — nunca escondi que prefiro torcer contra. Mas tenho obrigação de dizer a verdade: o que aconteceu no Nilton Santos na noite de terça-feira foi mais do que uma derrota. Foi a confirmação de que ganhar um título sem o menor planejamento para o que vem depois é um tiro no escuro. Às vezes entra. O dia seguinte não vem com garantia nenhuma.

A torcida vaiou o time ao fim do jogo. Fez bem. Não por crueldade, mas por respeito a quem veste aquela camisa e ao que aquele clube representou há pouco mais de um ano. Quando você é campeão e volta derrotado assim, precisa ouvir o que a arquibancada tem a dizer.

Textor vai aparecer com um comunicado. Vai falar de processo, de construção, de janela aberta, de ciclo novo. E pode ser que o Botafogo construa algo sólido no Brasileirão, que Anselmi encaixe as peças, que o time vire chave no segundo semestre. Pode acontecer. Mas o processo entregue até agora tem nome: demolição acelerada.

O Botafogo ganhou a Libertadores. A taça está exposta em algum lugar em Nilton Santos. A competição seguiu sem o campeão.

Parabéns, Barcelona de Guayaquil. Mereceram.

Fonte: ESPN Brasil, Lance | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.