América-MG: cinco rodadas, zero vitórias e muita vergonha alheia
O Coelho amarga um dos piores inícios da Série B neste século: cinco rodadas, zero vitórias, 20º lugar. Neide Ferreira analisa sem papas na língua o que deu errado no América-MG em 2026.


Cidades onde o futebol é religião têm um jeito peculiar de tolerar a derrota: vão à missa, acendem uma vela e torcem para que Deus seja torcedor do mesmo time. Em Belo Horizonte, o América-MG chegou a 2026 com outro plano: não exatamente perder — mas com certeza não vencer. Cinco rodadas na Série B. Zero vitórias. Vinte e quatro pontos possíveis. Dois conquistados. Isso não é crise. Isso é declaração de falência.
O pior início do século merece ser chamado pelo nome
O Coelho amarga um dos piores começos na Série B neste século. Números não mentem — e quando mentem, o América os usa como álibi. A equipe lidera rankings que ninguém quer liderar: mais posse de bola da competição, próximo de 68% em alguns jogos, e ao mesmo tempo a pior eficiência ofensiva do grupo. É o paradoxo do time que controla tudo e decide nada.
Você já imaginou um jogador de xadrez que move todas as peças corretamente, fica 80% do tempo com posição dominante e no final perde para o adversário que mal tocou no tabuleiro? Pois é exatamente o América-MG em 2026.
Não é só o volume que desaponta. É a ausência de caráter competitivo nas horas que importam. Derrota por virada para o Botafogo-SP — que, diga-se de passagem, não é o Botafogo do Rio. Empates que cheiram a rendição. E a sensação crescente de que este elenco perdeu, em algum momento durante o inverno mineiro de 2025, a vontade de incomodar adversários.
Troca de técnico: remédio, aspirina ou placebo?
Alberto Valentim foi embora. Roger Silva chegou. O novo treinador estreou com... 0 a 0 contra o Sport. Um empate que, para o América de hoje, parece quase uma vitória moral. Isso não é crítica ao trabalho do Roger Silva — é crítica ao estado de espírito de um clube que chegou a um ponto em que um empate sem gols virou notícia positiva.
A Série B tem dono nas suas dificuldades: não é ela que afunda times, são os times que se afogam nela. Cruzeiro sabe disso. Grêmio aprendeu da pior forma possível. Vasco provou que o tamanho do clube não é proteção contra a segunda divisão. E o América está repetindo o erro clássico: montar um elenco mediano para um campeonato que exige determinação acima da média.
Trocas de treinador podem resolver problemas pontuais de sistema tático e motivação de curto prazo. Mas não resolvem o principal problema do time: a falta de gols. Sem atacantes que façam a diferença, qualquer treinador vai patinar no mesmo lugar — e o ciclo de posse estéril vai continuar fazendo a torcida arrancar os cabelos.
O contra-argumento que não convence
Sim, é cedo. Restam 34 rodadas. Times já saíram do buraco com situação ainda pior. A Ponte Preta — adversária desta sexta, com os times se enfrentando no Lucarelli — também está na zona de rebaixamento. Matematicamente, nada está perdido.
Mas aqui vai o que o otimismo não quer admitir: o América não tem nenhum fator externo que justifique o desempenho. Não está com elenco destroçado por lesões. Não enfrenta viagens desumanas. Não luta em múltiplas frentes desgastantes. Joga basicamente a Série B. E ainda assim, zero vitórias em cinco jogos.
O argumento de que "o campeonato é longo" só tem validade quando o time mostra sinais de reação. Quando a reação se resume a um empate 0-0 de estreia do novo técnico, o argumento vai murchando. Não à toa, como analisamos no levantamento sobre os dez técnicos demitidos nas primeiras rodadas do Brasileirão, o futebol brasileiro está no auge da síndrome do treinador descartável — e o América já entrou nessa estatística.
O Coelho precisa aprender a correr de novo
Existe uma versão do América-MG que merece respeito: o time que subiu à Série A duas vezes neste século, que já foi protagonista no campeonato mineiro e que tem uma torcida que merece mais do que zero vitórias em mais de um mês de competição.
Essa versão existe na memória. Está bem guardada. E vai continuar guardada enquanto o clube insistir em aceitar meio ponto como conquista.
Roger Silva tem material para trabalhar. A posição na tabela é crítica, mas não irreversível. O que o técnico — e a diretoria — precisam entender é simples: na Série B, o time que não vence nos primeiros meses não é bom o suficiente para se segurar na zona neutra até o fim. Vai afundar lentamente, rodada a rodada, enquanto os concorrentes diretos somam pontos.
O Coelho precisa aprender a correr de novo. Ou vai descobrir, na marra, que a Série C espera sem pressa nenhuma.
Fonte: O Tempo | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


