Brasileirão 2026: 10 técnicos demitidos em 10 rodadas — a análise
Em 10 rodadas, o Brasileirão 2026 já consumiu 10 treinadores — incluindo os três últimos técnicos da Seleção Brasileira. A imprensa espanhola chamou o campeonato de inferno dos treinadores. Os dados explicam por quê.


Dez rodadas. Dez demissões. Uma média que nenhum dirigente de futebol brasileiro quer calcular. O Brasileirão 2026 tornou-se um estudo de caso — não de futebol, mas de impaciência corporativa — e a repercussão ultrapassou fronteiras. O diário esportivo espanhol AS dedicou reportagem ao campeonato com uma sentença direta: "El infierno de los técnicos". O inferno dos técnicos.
Para além do drama individual de cada demissão, o que os números revelam sobre esse fenômeno? A análise dos dados da Série A 2026 mostra que a velocidade das trocas não se traduz, necessariamente, em melhora de desempenho — e que o Brasileirão pode estar atingindo um ponto de inflexão sobre como os clubes tratam seus treinadores. Já cobrimos o fenômeno na 8ª rodada, quando a marca parecia absurda. Duas rodadas depois, ficou ainda mais expressiva.
O que os números dizem: a lista completa
A tabela abaixo reúne os dez treinadores demitidos entre a 1ª e a 10ª rodada do Brasileirão 2026, com o momento da saída e o substituto contratado:
| Técnico Demitido | Clube | Rodada | Substituto |
|---|---|---|---|
| Jorge Sampaoli | Atlético-MG | 3 | Eduardo Domínguez |
| Fernando Diniz | Vasco | 3 | Renato Gaúcho |
| Juan Carlos Osório | Remo | 3 | Léo Condé |
| Filipe Luís | Flamengo | 5 | Leonardo Jardim |
| Hernán Crespo | São Paulo | 6 | Roger Machado |
| Tite | Cruzeiro | 7 | Artur Jorge |
| Juan Pablo Vojvoda | Santos | 8 | Cuca |
| Martín Anselmi | Botafogo | 9 | Franclim Carvalho |
| Gilmar Dal Pozzo | Chapecoense | 9 | Fábio Mathias |
| Dorival Júnior | Corinthians | 10 | A definir |
O número impressiona não apenas pela quantidade, mas pelo perfil dos demitidos. Três dos dez eram ex-técnicos da Seleção Brasileira: Tite, Fernando Diniz e Dorival Júnior. Filipe Luís havia conquistado a Libertadores e o Mundial de Clubes com o Flamengo em 2025. Sampaoli tinha status de cult em parte da torcida atleticana. Nenhum desses históricos foi suficiente para garantir mais de duas meses de trabalho.
Tabelas e dados: o efeito real das trocas
A pergunta central de qualquer análise sobre demissões de técnicos é direta: funcionou? Os dados da Série A 2026 oferecem respostas nuançadas.
Casos em que a troca gerou melhora mensurável:
- Vasco (Diniz → Renato Gaúcho): após três rodadas sob pressão com Diniz, Renato assumiu e os resultados melhoraram. Na 12ª rodada, o Vasco virou sobre o São Paulo — 2 a 1 — e confirmou a subida na tabela.
- Flamengo (Filipe Luís → Leonardo Jardim): Jardim estabilizou a defesa rubro-negra, que passou a conceder menos gols fora de casa. O time chegou à 12ª rodada em 2º lugar.
- Cruzeiro (Tite → Artur Jorge): a chegada do português reorganizou a equipe, que passou a somár pontos de forma mais consistente.
Casos em que a troca não mudou o cenário:
- São Paulo (Crespo → Roger Machado): Roger chegou prometendo intensidade, mas já ouve vaias no Morumbis. A derrota para o Vasco na 12ª rodada (2 a 1) ampliou a instabilidade — e levantou a pergunta de quanto tempo o projeto pós-Crespo realmente dura.
- Botafogo (Anselmi → Franclim Carvalho): o campeão da Libertadores 2025 segue longe do G-4 e sem sequência de resultados positivos. A demissão de Anselmi ocorreu após uma vitória — sintoma extremo da impaciência de 2026.
- Corinthians: a saída de Dorival ainda aguarda desfecho definitivo em termos de desempenho — a 13ª rodada será um teste para o interino.
Historicamente, pesquisas sobre o impacto de demissões no futebol mostram que a melhora de desempenho, quando ocorre, costuma ser temporária — um efeito estimulante de curto prazo que se dissipa após quatro a cinco rodadas. O Brasileirão 2026 está replicando esse padrão: algumas trocas funcionam, outras não alteram a trajetória.
Contexto e comparações: isso é novo no Brasil?
O Brasileirão nunca foi território de paciência. Em 2023, foram 14 demissões na temporada inteira. Em 2024, 18. Em 2025, 22. A tendência de aceleração é clara — e 2026 chegou ao ritmo de uma demissão por rodada já no primeiro terço do campeonato.
O que diferencia 2026 não é apenas a velocidade, mas o perfil dos treinadores atingidos. Nas edições anteriores, as demissões precoces geralmente afetavam técnicos menos consagrados ou de clubes com menor estabilidade. Em 2026, o padrão mudou: nomes de alto prestígio foram alvos nas primeiras rodadas, sinalizando uma nova tolerância zero mesmo para treinadores com histórico recente de títulos.
Para efeito de comparação: na Premier League 2025-26, a primeira demissão de técnico ocorreu somente na 8ª rodada. Na La Liga, na 9ª. Na Bundesliga, na 7ª. No Brasileirão 2026, a primeira demissão — Sampaoli — ocorreu na 3ª rodada, quando o campeonato tinha menos de 30 dias de disputa.
A repercussão internacional não é exagerada. Quando o AS qualifica o Brasileirão como "inferno dos técnicos" e lista que três ex-selecionadores estavam entre os demitidos, o retrato é geograficamente impreciso, mas estatisticamente correto.
Conclusão analítica: o que esperar das próximas rodadas
Com 10 treinadores já substituídos e 10 rodadas pela frente até o intervalo da Copa do Mundo, a pergunta é sobre quais bancos técnicos ainda estão em risco. Os dados apontam para alguns perfis vulneráveis: clubes no Z-4 sem melhora consistente após trocar o treinador, e equipes que esperavam G-4 mas oscilam entre a 8ª e a 12ª posição.
Historicamente, os clubes que trocam mais de dois treinadores na mesma temporada raramente conquistam resultados expressivos no segundo turno. A gestão da comissão técnica passa a consumir energia institucional — contratações de emergência, adaptação de jogadores a novos sistemas, perda de referência tática.
O Brasileirão 2026 já escreveu um capítulo inédito. A questão é se os próximos capítulos ensinarão algo diferente — ou se o calendário seguirá exigindo uma demissão por rodada até dezembro.
Dados de rodadas e demissões compilados com base em informações da Gazeta Esportiva e ESPN Brasil. Análise comparativa com ligas europeias baseada em dados da temporada 2025-26.
Fonte: Gazeta Esportiva, KMIZA27, ESPN Brasil | Informações adicionais por Beira do Campo

Analista de Dados
Cientista de dados e fanático por futebol. Usa estatísticas avançadas (xG, xA, PPDA) para desvendar o que os olhos não veem. Transforma números em histórias.


