Acréscimos no futebol: quem decide o tempo e como funcionam
Os acréscimos não são uma conta exata de cada segundo parado. Entenda o que a Regra 7 manda recuperar, por que a placa mostra um mínimo e até quando um gol ou pênalti pode estender a partida.
Marcos Vinícius Santos9 min de leitura
Acréscimos no futebol não são um presente do árbitro para quem está perdendo, nem uma conta mecânica em que cada bola fora vira alguns segundos no relógio. Eles existem para recuperar, em cada tempo, a parcela relevante de jogo que deixou de ser jogada. A Regra 7 da IFAB põe a decisão nas mãos do árbitro; a placa levantada pelo quarto árbitro mostra o mínimo que ele determinou, não um cronômetro de encerramento obrigatório.
É por isso que dois jogos com o mesmo número de substituições podem receber tempos diferentes. Um teve atendimento longo, revisão de VAR e comemoração que atravessou minutos; o outro teve reposições normais e poucas interrupções. A regra não tenta transformar o futebol em relógio parado. Ela pede que o árbitro faça uma compensação honesta pelo que foi efetivamente perdido.
O debate cresceu porque o jogo passou a cuidar mais do tempo útil. A FIFA relatou, na Copa do Mundo de 2026, que medidas contra interrupções deliberadas ajudaram a preservar o ritmo. As alterações da temporada, detalhadas pela CBF, não mudaram o princípio dos acréscimos: elas oferecem instrumentos para que a bola volte a rolar com menos demora.
Acréscimos no futebol: o que a Regra 7 manda recuperar
A lista da IFAB é objetiva, ainda que a avaliação de cada lance continue sendo humana. O árbitro deve considerar o tempo perdido por substituições, atendimento ou retirada de jogadores lesionados, perda deliberada de tempo, punições disciplinares, pausas médicas autorizadas, checagens e revisões do VAR, comemorações de gol e qualquer outro atraso importante para reiniciar a partida.
Há uma diferença decisiva entre uma pausa natural e uma demora excessiva. A própria orientação da IFAB lembra que laterais e tiros de meta, por si só, fazem parte do jogo e não geram compensação automática. O acréscimo entra quando a reposição é deliberadamente retardada ou quando a interrupção assume uma dimensão fora do normal. Essa distinção evita a ilusão de que uma partida deveria recuperar cada segundo em que a bola não esteve em movimento.
Uma substituição ilustra bem a lógica. Há tempo para o árbitro autorizar a troca, para o atleta deixar o campo, para o substituto entrar e para a bola voltar a ser posta em jogo. Se o procedimento corre normalmente, a perda é pequena; se há demora, discussão ou uma saída muito lenta, ela pode pesar mais na conta. Desde 2026/27, há também limite de dez segundos para o jogador substituído deixar o gramado em determinadas situações, uma tentativa de reduzir esse tipo de desperdício.
O mesmo vale para o VAR. A revisão não é um intervalo à parte da partida: seu tempo pode ser compensado ao fim do período. Um gol anulado após checagem longa, uma ida ao monitor ou uma análise de impedimento são eventos que tiram minutos do fluxo e que o árbitro deve levar em consideração. Isso não significa que a placa precisa reproduzir com precisão de laboratório a duração de cada revisão. Significa que ela precisa refletir uma avaliação séria do que foi perdido.
Por que a placa mostra um mínimo, e não uma hora marcada para acabar
Quando o quarto árbitro ergue a placa com cinco minutos, a mensagem correta é “pelo menos cinco”, e não “o jogo terminará exatamente aos cinco”. A Regra 7 estabelece que o tempo adicional indicado é mínimo. Se uma nova paralisação relevante acontece já nos acréscimos — atendimento, demora para reiniciar, revisão de VAR ou outra interrupção significativa — o árbitro pode aumentar o período.
Ele não pode reduzi-lo depois de já o ter anunciado. Se a placa marca cinco, a partida não deve acabar com quatro apenas porque a equipe que vence conseguiu manter a posse. O árbitro controla o fim do jogo, mas a regra protege a expectativa criada pela indicação mínima. A escolha de encerrar vem após avaliar se o tempo anunciado transcorreu e se houve novo tempo perdido que mereça ser devolvido.
Essa ideia explica lances que costumam confundir torcedores. Um escanteio cobrado aos 49 minutos de um segundo tempo com quatro de acréscimo não dá, por si só, direito a uma sequência infinita de ataques. O árbitro pode encerrar depois que a jogada se conclui, desde que o mínimo tenha sido cumprido e não haja razão para estender o período. Por outro lado, se o escanteio foi adiado por atendimento ou por confusão, o relógio adicional pode continuar correndo além do número inicialmente exibido.
Também não existe compensação entre os tempos. Se o primeiro tempo teve erro de cronometragem, o árbitro não pode “pagar” essa diferença encurtando ou alongando o segundo. Cada etapa é tratada de forma própria. É uma proteção importante para que o primeiro período não vire uma dívida abstrata transferida para o fim da partida.
Gol, pênalti e atendimento: o que acontece perto do apito final
Um gol marcado nos acréscimos produz celebração, saída de jogadores, reorganização defensiva e reinício. A comemoração é um dos itens expressamente previstos na Regra 7, portanto o árbitro pode acrescentar tempo por ela quando for significativa. A leitura não deve ser automática: o que importa é a demora efetiva, não simplesmente o fato de a rede ter balançado.
Em caso de pênalti no fim da etapa, a regra é ainda mais clara. Se a cobrança precisa ser realizada ou repetida, o período é prolongado até sua conclusão. Caso o batedor converta diretamente e não haja infração de sua equipe, o gol vale e o árbitro encerra a etapa sem um novo reinício. Se houver defesa, rebote permitido ou necessidade de repetição, o desfecho depende do que ocorrer na cobrança e das infrações verificadas pela arbitragem.
Atendimentos médicos exigem outra cautela. A pressa para retomar a bola não pode se sobrepor à segurança de um jogador. Uma paralisação por lesão pode entrar nos acréscimos, mas não deve ser tratada como cera por definição. O protocolo de substituição por concussão, por exemplo, parte da lógica oposta: primeiro vem a avaliação clínica; o regulamento da competição define como a troca adicional funciona.
A partida também pode ter pausas de hidratação ou resfriamento quando o regulamento permite. A IFAB prevê esse tipo de interrupção e pede que ele seja considerado. Em dias de calor extremo, a resposta correta não é fingir que a pausa não existiu nem exigir que o jogo termine no horário originalmente imaginado; é administrar a competição com transparência e compensar o tempo cabível.
Cera não vira automaticamente cartão, mas pode entrar na conta
Muita discussão mistura duas perguntas distintas: se uma conduta deve ser punida disciplinarmente e se ela deve gerar acréscimo. Chutar a bola para longe enquanto ela está em jogo, por exemplo, pode não se enquadrar automaticamente como atraso no reinício; ainda assim, se produz uma paralisação relevante, o árbitro deve recuperar o tempo perdido. A orientação para árbitros da IFAB faz essa separação de modo explícito.
Quando a bola já está fora, a gestão do reinício ganha mais peso. As mudanças de 2026/27 ampliaram a contagem visual para atrasos deliberados em laterais e tiros de meta. O tema foi detalhado no nosso guia sobre as regras contra cera em laterais e tiros de meta. A consequência disciplinar ou técnica de uma demora depende da situação; os acréscimos continuam sendo a ferramenta que devolve, ao menos em parte, o tempo consumido.
Por isso, placares apertados tornam cada reposição um teste de percepção. Quem está vencendo tenta administrar; quem está atrás quer velocidade. A tarefa da arbitragem não é escolher um lado dessa tensão, mas identificar o momento em que a administração ultrapassa o ritmo normal do jogo. Cartão, advertência, contagem visual e acréscimo são respostas diferentes, que podem coexistir ou não conforme o lance.
A melhor leitura para quem acompanha a partida
Ao ver a placa subir, vale olhar menos para uma suposta “regra dos X minutos” e mais para o que aconteceu na etapa. Houve lesões? VAR? muitas substituições? festa prolongada após um gol? uma sequência de reposições claramente retardadas? Esses elementos explicam melhor o número exibido do que o placar ou a camisa de quem está em campo.
O árbitro não precisa dar uma aula ao estádio a cada acréscimo, mas a partida ganha credibilidade quando suas decisões seguem critérios reconhecíveis. A Lei 7 existe para isso: conservar os 45 minutos como estrutura do jogo sem ignorar que parte desse período pode se perder entre atendimentos, revisões e interrupções relevantes.
No fim, o apito final não é uma punição a quem ataca nem um prêmio a quem se defende. É o ponto em que o árbitro entende que o mínimo indicado foi cumprido e que não há tempo relevante a recuperar. A placa dá uma referência pública; a condução da partida continua exigindo atenção ao que acontece depois dela. Entender essa diferença entre mínimo, reposição e decisão final deixa o debate menos refém da ansiedade — e mais próximo da regra que de fato organiza a partida.
Fontes consultadas: Lei 7 da IFAB, orientações práticas da IFAB, livro de regras 2026/27 da CBF e balanço da FIFA sobre medidas de ritmo de jogo.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
- Quem decide os acréscimos no futebol?
- O árbitro é quem decide o tempo adicional de cada etapa. O quarto árbitro apenas indica na placa o mínimo determinado pelo árbitro.
- Por que os acréscimos podem passar do tempo mostrado na placa?
- A placa informa um tempo mínimo. Se houver nova paralisação relevante depois dela, o árbitro pode ampliar o período para recuperar esse tempo.
- O que conta para os acréscimos no futebol?
- Substituições, atendimento a lesionados, cera, cartões, checagens do VAR, comemorações de gol e atrasos significativos podem entrar na conta.
- O jogo pode terminar antes de uma cobrança de pênalti?
- Não. Quando um pênalti precisa ser cobrado ou repetido ao fim da etapa, o período é estendido até a conclusão da cobrança.
Fonte: The IFAB, CBF e FIFA · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

Correspondente Internacional
Morou 8 anos na Europa cobrindo as principais ligas. Fluente em inglês, espanhol e italiano. Acompanha de perto brasileiros no exterior e os bastidores do futebol europeu.


