Substituição por concussão no futebol: como funciona
A substituição por concussão pode dar a um time uma troca extra, mas só quando a competição adota o protocolo da IFAB. Veja quem decide, o que muda para o rival e por que o placar não pode pesar na avaliação médica.
Patrícia Mendes9 min de leitura
Substituição por concussão no futebol não é uma sexta troca comum, nem um recurso para reorganizar um time nos minutos finais. É um protocolo de proteção: se uma competição o adota e um jogador sofre — ou pode ter sofrido — concussão, ele pode ser retirado com uma substituição adicional e permanente. A prioridade não é manter onze atletas em campo; é impedir que uma suspeita neurológica seja tratada como incômodo passageiro.
O detalhe decisivo está na palavra “pode”. O diagnóstico completo não precisa ser fechado à beira do gramado para que o atleta saia. A Lei 3 da IFAB prevê o mecanismo como opção de cada competição, e o protocolo determina que a decisão clínica seja protegida da pressão do placar, do relógio e da comissão técnica. Na prática, uma suspeita já basta para acionar o cuidado.
As regras de 2026/27 mantêm essa possibilidade entre as modificações que federações, confederações e a FIFA podem autorizar. A CBF também disponibilizou os documentos das alterações do ciclo atual, mas cada torneio precisa informar em seu regulamento se usa o protocolo. Por isso, não basta ouvir que “existe uma substituição extra”: é preciso saber se ela está prevista naquela competição.
Substituição por concussão no futebol: o que o protocolo permite
Quando o protocolo permanente é adotado, a equipe pode fazer uma substituição adicional por concussão, independentemente das trocas normais que já tenha usado. O jogador retirado torna-se substituído e não pode retornar ao campo naquela partida. A regra é deliberadamente conservadora: não existe teste rápido de vestiário que converta uma possível concussão em autorização para seguir jogando.
O substituto entra seguindo o procedimento normal de uma troca. A bola precisa estar parada, o árbitro autoriza a entrada e o atleta que sai deixa o campo. A diferença é a razão da mudança e a contagem: ela não consome a cota ordinária prevista pelo regulamento do torneio.
Há ainda uma compensação esportiva importante. Depois de uma substituição por concussão, o adversário recebe o direito a um substituto adicional e uma oportunidade adicional de substituição. Pode usá-los naquele momento ou depois, de acordo com as regras da partida. A medida evita que a proteção médica seja vista como vantagem tática de um lado.
O texto completo do protocolo da IFAB é claro em outro ponto: membros da comissão técnica não devem participar da decisão sobre a existência de concussão nem escolher entre uma troca normal e uma troca por concussão. A avaliação pertence aos profissionais de saúde. O árbitro e o quarto árbitro registram e operacionalizam o procedimento; não fazem diagnóstico.
O que acontece quando há suspeita de concussão
Um choque de cabeça pode ocorrer em disputa aérea, colisão com goleiro, queda ou impacto com o solo. Nem todo impacto provoca concussão, e nem toda concussão produz sinais óbvios no instante do lance. Essa incerteza explica por que o protocolo privilegia a retirada quando existe suspeita razoável, em vez de exigir que o atleta “prove” em campo que está mal.
O primeiro passo é a assistência médica. A equipe avalia o jogador, observa sinais e sintomas e define se ele deve deixar a partida. Se a competição adota a substituição adicional, a troca pode ser comunicada à arbitragem como substituição por concussão; o rival é informado de que ganhou a sua opção extra.
Isso não transforma o gramado em consultório nem substitui o acompanhamento posterior. O protocolo é uma resposta de jogo. A avaliação clínica e o retorno seguro ao esporte seguem procedimentos médicos próprios, fora do interesse imediato do resultado. É justamente esse limite que separa proteção de improviso.
O futebol também vem buscando reduzir o custo de decisões médicas durante a partida. As mudanças recentes sobre atendimento e fluxo de jogo, explicadas em nosso guia sobre as regras contra cera em laterais e tiros de meta, tratam de outra situação: atrasos intencionais. Concussão não entra nessa conta. Atendimento por possível lesão na cabeça exige prudência, não cronômetro.
Por que a troca extra não pode virar estratégia
Uma leitura apressada sugere um incentivo: se a substituição é extra, por que não usá-la para ganhar uma peça nova? O desenho da IFAB tenta fechar essa porta em três frentes. A primeira é clínica: há uma suspeita de concussão a ser avaliada por profissionais de saúde. A segunda é definitiva: quem sai não pode voltar. A terceira é competitiva: o oponente recebe uma troca e uma janela adicionais.
Ainda assim, a qualidade do protocolo depende de transparência. O regulamento do torneio precisa dizer se ele é utilizado, quem informa a ocorrência e como a substituição é registrada. Sem isso, torcedor e transmissão podem confundir uma mudança médica com uma troca comum e criar uma polêmica artificial.
O ponto mais relevante, porém, é cultural. Durante muito tempo, a imagem do jogador que “volta para ajudar o time” foi tratada como prova de coragem. Para uma possível concussão, a conduta responsável é outra: sair, ser avaliado e não colocar o resultado acima da saúde. A regra oferece uma saída que protege o elenco de perder uma substituição normal, mas não reduz a gravidade da situação.
O que vale no Brasil e o que depende da competição
As Leis do Jogo não impõem automaticamente a substituição por concussão a todos os campeonatos. A página de modificações gerais da IFAB lista as substituições permanentes adicionais por concussão como opção para as entidades responsáveis pela competição. Em outras palavras, a existência da ferramenta no livro de regras não confirma seu uso no Brasileirão, na Copa do Brasil, em torneios estaduais ou internacionais específicos.
Para saber se ela vale em uma partida, o caminho seguro é consultar o regulamento da competição ou um comunicado oficial da organizadora. Essa precaução evita dois erros comuns: dizer que uma sexta troca é automática e afirmar que qualquer atendimento na cabeça gera substituição extra. Nenhuma das duas frases é correta sem o protocolo adotado.
A CBF reúne materiais das alterações das regras 2026/27, enquanto a IFAB mantém a versão atualizada da Lei 3 e dos protocolos associados. Para o torcedor, a melhor leitura é simples: saúde vem antes; regulamento define o mecanismo; e a arbitragem precisa comunicar a aplicação com clareza.
Quem faz o quê em uma ocorrência no jogo
Há quatro responsabilidades que não podem se misturar. A equipe médica avalia o atleta e recomenda sua retirada quando há suspeita. O jogador deve relatar o que sente e aceitar a avaliação, sem transformar a vontade de continuar em critério clínico. A comissão técnica organiza o time depois da decisão, mas não deve pressionar pela permanência nem escolher a natureza da troca. A arbitragem, por sua vez, confirma os aspectos formais: jogador que sai, entrada do substituto, registro da mudança e aviso ao adversário sobre a opção adicional.
Essa divisão é útil até para quem assiste. Uma demora no atendimento não indica necessariamente confusão ou tentativa de gastar tempo. Em uma possível concussão, o procedimento correto pode exigir conversa, observação e uma retirada cautelosa. A regra não pede que o público nem o árbitro identifiquem sintomas à distância; pede que abram espaço para quem tem atribuição de cuidar do atleta.
Também é importante separar o incidente do resultado esportivo. Um time pode estar sem substituições normais, vencendo por um gol ou com um defensor decisivo fora do campo. Nenhuma dessas circunstâncias torna mais seguro manter um jogador sob suspeita. A troca adicional existe justamente para reduzir o conflito entre proteção e planejamento, sem fazer de conta que o problema desaparece ao final da partida.
Para os organizadores, a clareza começa antes do apito inicial. Regulamento publicado, treinamento de equipes médicas e arbitragem, comunicação padronizada com os bancos e registro preciso da troca reduzem a chance de improviso. Para clubes e atletas, a mensagem é ainda mais direta: em caso de possível concussão, o retorno à partida não é uma prova de comprometimento. O compromisso correto é interromper o risco e seguir o protocolo que a competição tiver adotado.
A proteção começa antes da discussão sobre vantagem
Uma partida pode ter cinco substituições, janelas limitadas e acréscimos decisivos. Nada disso altera a lógica de uma suspeita de concussão. O jogador não deve permanecer em campo para “aguentar mais alguns minutos”, e a comissão não deve tratar o caso como oportunidade de mexer no desenho tático.
O protocolo de substituição por concussão resolve uma dificuldade prática sem criar atalho esportivo: permite retirar o atleta com segurança, impede seu retorno e equilibra o efeito para o adversário. É um tipo de regra que aparece pouco quando funciona bem. E esse é o melhor cenário: menos heroísmo mal interpretado, mais cuidado e um jogo que não cobre da saúde a conta do placar.
Para entender como as regras organizam uma partida em outros pontos, veja também como funcionam os critérios de desempate do Brasileirão.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
- O que é substituição por concussão no futebol?
- É uma troca adicional que uma competição pode autorizar quando um jogador sofre ou pode ter sofrido concussão. O atleta substituído não pode voltar à partida.
- A substituição por concussão conta entre as cinco trocas?
- No protocolo permanente adicional da IFAB, ela é separada das substituições normais e também gera uma oportunidade adicional de troca para a equipe adversária.
- Quem decide se há concussão durante o jogo?
- A decisão clínica cabe à equipe médica. A arbitragem administra o procedimento de substituição, mas não deve influenciar a avaliação médica.
- Todo campeonato de futebol usa substituição por concussão?
- Não. A IFAB permite que a competição adote o protocolo, mas a utilização depende de regulamentação específica da entidade organizadora.
Fonte: The IFAB e CBF · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

Analista Tática
Formada em Educação Física e pós-graduada em Análise de Desempenho Esportivo. Certificada pela UEFA em análise tática. Cobre futebol feminino e masculino com profundidade técnica.


