Semifinais da Copa 2026: cadê a zebra que a FIFA vendeu?
A Copa de 48 seleções foi apresentada como a festa das zebras. Chegou à semifinal com França, Espanha, Argentina e Inglaterra: exatamente os quatro primeiros do ranking da FIFA. Nunca aconteceu antes. E não foi por acaso.
Neide Ferreira4 min de leitura
A FIFA passou anos vendendo a Copa de 48 seleções como a democracia chegando ao futebol. Mais vagas, mais países, mais sonho, mais zebra. Pois a Copa 2026 chegou às semifinais e, adivinha, sobrou para França, Espanha, Argentina e Inglaterra. Não é coincidência bonita: são exatamente os quatro primeiros do ranking da FIFA. A festa da diversidade terminou com a mesa de sempre.
O ranking não gaguejou
Guarde essa informação, porque ela é histórica de verdade: pela primeira vez desde que a FIFA criou o ranking, em dezembro de 1992, os quatro melhores do mundo chegaram juntos à semifinal de uma Copa. Nunca tinha acontecido. Em 2014, em 2018, em 2022, sempre um azarão furava a fila — a Croácia, o Marrocos, alguém que não estava no topo da lista. Desta vez, não. A lista mandou e o campo obedeceu.
E olha que o ranking, atualizado em tempo real durante o mata-mata, colocou a França na liderança, seguida de Argentina, Espanha e Inglaterra. Os mesmos quatro nomes que qualquer criança escreveria num guardanapo antes da bola rolar. A Copa mais inchada da história produziu a semifinal mais previsível da história.
Os números não deixam espaço para poesia
Quem torce por surpresa que feche os olhos agora. França e Argentina venceram os seis jogos que disputaram, 100% de aproveitamento cada uma. A França fez 16 gols e sofreu 2, com quatro jogos sem levar gol. A Argentina de Messi marcou 17, o ataque mais produtivo do torneio. A Espanha construiu a melhor defesa da Copa: um gol sofrido em seis partidas, cinco jogos com a rede intacta. A Inglaterra foi a menos avassaladora do quarteto e, ainda assim, passou por Croácia, México e Noruega.
Isso não é sorte de chaveamento. É o dinheiro, a base, a estrutura e o histórico fazendo o que sempre fizeram: separar quem brinca de Copa de quem disputa Copa. As 48 seleções encheram a fase de grupos de goleadas e de jogos sem sentido, mas na hora de valer o futebol dos ricos apareceu para cobrar a conta. E cobrou à vista.
Vale lembrar quem ficou pelo caminho para os favoritos chegarem até aqui. A Argentina precisou de prorrogação para superar a Suíça, a Inglaterra suou para tirar a Noruega de Haaland, e nem por isso o roteiro mudou de dono. A Croácia levou 4 a 2 da Inglaterra e caiu, o Marrocos foi barrado pela França, Portugal despediu Cristiano Ronaldo diante da Espanha. Um por um, os candidatos a padrinho da zebra foram eliminados justamente pelas quatro seleções que a lista da FIFA já apontava como donas da festa.
"Mas teve zebra, Neide!"
Já ouço o coro. Teve, sim. A África levou dez seleções e fez barulho, o novo formato de 48 rendeu recordes de gols e de público, times pequenos tiveram o seu dia de sol na primeira fase. Não vou negar o que os números da fase de grupos mostraram. A festa existiu.
Só que festa de fase de grupos não é troféu. A FIFA vendeu inclusão e entregou vitrine: os pequenos aparecem três jogos, fazem a foto, e são educadamente convidados a se retirar quando o mata-mata aperta. A promessa de que 48 seleções mudariam a hierarquia do futebol morreu exatamente onde ela sempre morre — nas quartas de final. O sonho durou o suficiente para vender ingresso. Foi o que sempre suspeitei quando critiquei o formato inchado que a FIFA empurrou goela abaixo.
O que sobra para a gente
Sobra uma semifinal de altíssimo nível, é preciso reconhecer. França x Espanha na terça e Argentina x Inglaterra na quarta são quatro potências de verdade, com Messi e Mbappé empatados na artilharia e um futebol que merece ser visto. Ninguém aqui vai reclamar da qualidade do que vem por aí.
Meu incômodo é outro, e é honesto: a FIFA gastou uma fortuna de marketing para dizer que estava democratizando o futebol e o resultado prático foi a semifinal mais elitista de todos os tempos. Aumentaram o torneio para faturar mais, não para surpreender mais. E quando a bola parou de rolar na primeira fase, o mapa do poder continuou idêntico ao de sempre.
Que ganhe o melhor, então — porque agora, oficialmente, só sobrou os melhores. A zebra pegou o voo de volta para casa ainda na primeira semana, com a camisa suada e a certeza de que continua servindo de figurante no espetáculo dos outros. A Copa de 48 prometeu revolução. Entregou o de sempre, com nota fiscal.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
- Quando são as semifinais da Copa do Mundo 2026?
- França x Espanha é na terça-feira, 14 de julho, às 16h de Brasília, em Arlington. Argentina x Inglaterra é na quarta, 15 de julho, também às 16h, em Atlanta.
- Quais seleções estão nas semifinais da Copa 2026?
- França, Espanha, Argentina e Inglaterra — os quatro primeiros colocados do ranking da FIFA, algo inédito na história das Copas.
- Quando é a final da Copa do Mundo 2026?
- A final está marcada para domingo, 19 de julho, às 16h de Brasília, em Nova Jersey.
Fonte: FIFA, Exame, Metrópoles, Lance · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


