Segunda da Neide: vaiar Gabigol no Maracanã foi ingratidão pura
Gabigol foi vaiado pela torcida do Flamengo no Maracanã. Para Neide Ferreira, há um limite para o que o amor próprio de uma torcida pode justificar — e esse limite foi ultrapassado ontem.


Ontem, mais de 65 mil torcedores entraram no Maracanã para ver o Flamengo bater o Santos por 3 a 1 pela décima rodada do Brasileirão. Era jogo grande, era domingo de futebol, era a volta de Gabigol ao palco onde ele virou lenda. E boa parte desses 65 mil achou que a coisa mais inteligente a fazer era vaiar o homem.
Eu não concordo. E vou explicar por quê isso não é apenas errado — é uma desonestidade emocional que o torcedor precisa encarar no espelho.
O que Gabigol fez pelo Flamengo não tem preço
Antes de qualquer narrativa sobre traição ou desrespeito, é preciso colocar os fatos na mesa. Gabriel Barbosa Almeida chegou ao Flamengo em 2019, emprestado pela Inter de Milão, quando ninguém acreditava mais nele. Tinha virado motivo de piada no futebol europeu. E no Rio ele renasceu.
Dois títulos da Libertadores. Dois gols na final de 2019, a mais importante da história recente do clube. Seis Campeonatos Brasileiros, Copas do Brasil, títulos estaduais. Artilheiro, ídolo, símbolo. O cara que garantiu que a geração mais vitoriosa do Flamengo não fosse apenas uma promessa bonita, mas uma realidade com nome gravado na taça.
Isso não se apaga com uma saída mal resolvida. Isso não desaparece porque o departamento de futebol do Flamengo e o estafe de Gabigol não conseguiram chegar a um acordo. A história que ele construiu na Gávea é inalterável. E vaiar essa história é cuspir na própria memória.
O fim foi feio, mas a culpa não é só dele
Tem gente que vai dizer: "Mas Neide, ele saiu pela porta dos fundos. Ficou mandando indireta nas redes. Falou que o Flamengo não queria renovar." Verdade. O fim foi desajeitado, teve mágoa dos dois lados, teve falta de comunicação, teve ego ferido no meio do caminho.
Mas aqui eu preciso perguntar: o Flamengo é santo nisso? O mesmo clube que até hoje briga na Justiça com Gerson por R$ 42 milhões em disputa contratual — onde a própria defesa do jogador acusa a diretoria de "má-fé" e "sede de vingança" — esse clube é o modelo de relação honesta com seus atletas?
A vida real é mais complicada do que a narrativa limpa que a torcida quer consumir. Gabigol não foi embora porque acordou um dia odiando o Flamengo. Ele foi embora porque as conversas não foram bem conduzidas, porque o mercado chamou, porque tem outro ângulo desta história que a torcida não quer ver.
E no Santos, sob enorme pressão e recuperando ritmo, ele voltou ao Maracanã. Cumprimentou Bruno Henrique antes do jogo. Fez isso com dignidade.
Vaiar ídolo não é cobrança — é rancor
Tem uma diferença enorme entre cobrar um atleta que está dentro do clube e vaiar um ex-jogador que está na outra equipe. A cobrança é o direito legítimo de quem paga ingresso. O vazio é outra coisa: é rancor disfarçado de autonomia.
O torcedor que vaiou Gabigol ontem não estava exigindo performance. Estava alimentando uma mágoa que, no fundo, é sobre sentir que foi abandonado. Isso é humano. Mas não é bonito. E não precisa ser transformado em aplausos coletivos de ódio dirigido a um homem que deu os melhores anos da carreira ao seu clube.
O comportamento da torcida diante do Santos já estava sob holofotes antes mesmo do apito inicial — a semana foi de tensão interna no elenco, com Neymar de fora por suspensão e o técnico Filipe Jardim cobrando reação. Havia muito em jogo. E o que ficou da partida, na memória, não foi o 3 a 1 nem o brilho dos novos. Foi o vaia a um ídolo.
O que eu espero de uma torcida grande
Flamengo tem a maior torcida do Brasil. Com isso vem uma responsabilidade que nem todo clube tem. A grandeza de uma nação de torcedores não se mede só pelos títulos que ela celebra — se mede também pela forma como ela trata sua própria história.
Gabigol pode ter tido uma saída ruim. Pode ter errado no jeito de se comunicar. Pode ter escolhido um caminho que magoou parte da Nação. Tudo bem. Mas o que ele construiu antes disso é maior do que qualquer desaventura de mercado.
Quando ele entrar em campo contra o Flamengo da próxima vez, eu espero palmas. Não porque o torcedor seja obrigado a amar o Santos ou torcer pelo adversário. Mas porque respeitar o que alguém fez por você é o mínimo que se pede a um torcedor que se orgulha de ser de um clube grande.
Ontem, isso faltou. E isso precisa ser dito.
Neide Ferreira escreve toda segunda-feira no Beira do Campo.
Fonte: ESPN Brasil / ge.globo.com | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


