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Segunda da Neide: a camisa vermelha que a CBF teve medo de lançar

Neide Ferreira desmonta o veto à camisa vermelha da Seleção: quando a CBF confundiu política com futebol — e ficou com o azul por puro pavor.

Neide Ferreira
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Segunda da Neide: a camisa vermelha que a CBF teve medo de lançar
Camisa vermelha da Seleção Brasileira vetada pela CBF para a Copa 2026 — Foto: Reprodução / CNN Brasil

A CBF teve medo de uma cor. Isso. Uma cor. A camisa vermelha que a Nike havia criado para o Brasil na Copa do Mundo 2026 — com conceito artisticamente bonito, assinada pela Jordan Brand, batizada de "brasas incandescentes" — foi vetada em reunião de urgência pelo presidente Samir Xaud antes mesmo de chegar às prateleiras. Motivo oficial: "patriotismo" e as cores da bandeira. Motivo real: medo de manchete, medo de associação política, medo de vermelho. E essa covardia institucional diz mais sobre o estado do futebol brasileiro do que qualquer resultado em campo.

A CBF não vetou uma cor. Vetou um espelho

Vamos combinar: ninguém usa camisa alternativa achando que está traindo a pátria. Alemanha joga de rosa. Holanda joga de preto. Portugal joga de verde. O Brasil já jogou de azul, de branco, de cinza. Mas vermelho? Vermelho não dá. Vermelho é coisa do capeta — ou pior, de partido.

Esse é o problema. O presidente Xaud disse claramente que não foi "lado político". Mas então por que a reunião de urgência? Por que a pressa para cancelar uma camisa que ainda nem tinha data de estreia? Quando a justificativa é "patriotismo" e a cor rejeitada é exatamente a cor mais associada ao maior partido de oposição do país, fica difícil aceitar que política não estava na mesa.

A camisa havia sido aprovada na gestão anterior, pelo então presidente Ednaldo Rodrigues. Xaud chegou, convocou Nike em caráter emergencial e fez questão de anunciar publicamente o veto — "fui contra", disse ele, com o orgulho de quem desarmou uma bomba. O futebol brasileiro tem um problema sério de instrumentalização política, e a CBF acabou de protagonizar o capítulo mais ridículo dessa história.

Noventa por cento odiaram. Mas isso justifica o veto?

Sim, pesquisa mostrou que 90% das menções à camisa vermelha nas redes sociais foram negativas. Noventa por cento. Parece consenso. Mas vamos ter honestidade aqui: quantos desses comentários eram sobre estética, e quantos eram reflexo de uma guerra política que não tem nada a ver com futebol?

Desde 2022, quando a Seleção virou campo de batalha ideológica, qualquer coisa que a CBF faz é lida com lente política. Uma camisa vermelha vira "propaganda". Um discurso vira manifesto. A Nike não quis fazer comício de ninguém — queria vender camisa, que é o negócio delas há décadas. O design era uma referência visual, uma identidade criativa. Mas num Brasil que politizou até cor de camiseta, pedir que as pessoas vejam um uniforme como uniforme parece ingenuidade demais.

Sobre o que realmente importa para a Seleção — o time dentro da camisa —, os números desta geração são históricos. Esse sim seria um debate digno do tempo da CBF.

A tradição tem razão — mas não essa razão

Aqui vou ser justa com quem defende o amarelo. Existe um argumento legítimo na questão da tradição: o Brasil é o país mais identificado com uma cor no esporte mundial. O amarelo-verde é uma marca, um patrimônio, um ativo global de valor incalculável. Proteger isso tem sentido.

O problema é que a proteção veio pelo argumento errado. Não foi "esse uniforme enfraquece nossa identidade visual global". Foi "vermelho lembra política". E quando você usa um argumento fraco para defender uma causa que poderia ter argumento forte, você fragiliza a causa inteira.

A alternativa azul — que será estreada no dia 26 de março contra a França, em Boston — é bonita, aliás. O design da Jordan tem charme. Mas foi escolhida não porque era a melhor opção criativa, e sim porque era a mais segura politicamente. Isso, com todo respeito, é gestão de marca com coleira.

O problema não é a cor. Nunca foi

Neide vai dizer o óbvio que ninguém quer ouvir: a CBF poderia ter lançado as duas. Azul para jogar, vermelho para vender como item exclusivo — a própria Nike já avalia essa possibilidade no mercado de colecionadores. Negócio fechado, a fornecedora feliz, os fãs de design felizes e o presidente salvo das manchetes. Mas não. Teve reunião de urgência, veto declarado publicamente, nota à imprensa.

Por que tanta energia num assunto que poderia ter sido silenciosamente resolvido num contrato? Porque o gesto era importante. Porque, em 2026, mostrar que você "não é de vermelho" vale mais do que qualquer planejamento de vestuário esportivo.

Enquanto a questão do centroavante da Seleção segue sem resposta, enquanto o calendário sufoca os clubes e a janela vira circo, a maior preocupação pública do presidente da CBF foi a cor de uma segunda camisa. Bom. Menos mal que o amarelo continua sagrado. Só espero que o time dentro dele continue sendo também.

A coluna Segunda da Neide é publicada toda semana às segundas-feiras.

Fonte: CNN Brasil / Terra / Mantos do Futebol | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.