Centroavante da seleção: Ancelotti busca o 9 a 100 dias da Copa
Na Segunda da Neide, a colunista questiona: quem é o 9 do Brasil na Copa? Endrick brilha no Lyon, Igor Thiago artilha na Premier League, Jesus volta de lesão e Neymar quer provar que não precisa de teste. Ancelotti tem 100 dias.

Coluna "Segunda da Neide"
Faltam 100 dias para a Copa do Mundo e eu preciso fazer uma pergunta que ninguém quer responder: quem é o centroavante da seleção brasileira?
Porque se você me disser que o Brasil vai ao Mundial sem um camisa 9 definido, eu vou te dizer que a gente já viu esse filme. E não terminou bem.
Carlo Ancelotti, o homem que já ganhou tudo no futebol europeu, chegou à seleção com a missão de dar ordem à bagunça. E deu. São 18 nomes que ele considera praticamente certos para o Mundial nos Estados Unidos: Alisson, Marquinhos, Gabriel Magalhães, Casemiro, Bruno Guimarães, Vini Jr., Estêvão, Raphinha, Rodrygo, Matheus Cunha, Gabriel Martinelli... A espinha dorsal está montada. Mas no lugar onde a bola precisa entrar — ali, dentro da área adversária — o treinador italiano ainda procura resposta.
O centroavante fantasma da seleção brasileira
A convocação para os amistosos contra França e Croácia sai no dia 16 de março. Os jogos acontecem em Boston (dia 28) e Orlando (dia 31). Esses são os dois últimos testes antes da lista final para a Copa, marcada para 19 de maio. E o debate que domina a imprensa esportiva é tão simples quanto angustiante: Endrick, Gabriel Jesus ou Igor Thiago?
Vamos aos números, porque eu gosto de opinar com dados na mão:
Endrick está voando no Lyon. Cinco gols em seis jogos, média de uma participação em gol a cada 70 minutos. Tem 19 anos, fome de provar e aquele brilho nos olhos de quem sabe que a Copa pode mudar sua carreira para sempre. Mas nunca foi convocado por Ancelotti. Nunca. O italiano prefere observar de longe, mandar olheiros à França e esperar. É o estilo dele — cauteloso, calculista, europeu até na paciência.
Gabriel Jesus voltou de 11 meses de lesão grave no joelho. No Arsenal, tenta recuperar ritmo e sequência, e a versatilidade dele — joga em qualquer posição do ataque — é um trunfo tático. Mas centroavante nato, aquele que te resolve um jogo travado com um gol de oportunismo puro? Jesus nunca foi esse cara. E aos 29 anos, com um joelho reconstruído, o tempo não está exatamente jogando a favor.
Igor Thiago é o nome que surpreende quem não acompanha a Premier League de perto. Dezesseis gols em 23 jogos pelo Brentford, artilharia firme, jogo de corpo e finalização precisa. Tem 24 anos e nunca defendeu a seleção principal. Estrear num Mundial é uma aposta de altíssimo risco — mas também pode ser a revelação que ninguém esperava.
E tem o elefante na sala: Neymar. Duas bolas na rede contra o Vasco, atuação de gala pelo Santos, aquele sorriso de quem diz "me esqueceram?". Segundo a ESPN, Ancelotti não vai chamá-lo para março, mas mantém o craque no radar para a convocação de maio. O próprio Neymar acredita que "não precisa ser testado". Convicção ou ilusão? Depende de como o joelho dele responder nas próximas semanas.
"O Brasil não precisa de 9" — desculpa de quem não tem solução
Eu sei que vai ter gente dizendo: "Neide, o futebol moderno não precisa de centroavante fixo. Vini Jr. faz o pivô, Rodrygo flutua, Raphinha aparece por dentro..."
Tá bom. Me conta como foi a Copa de 2022 com essa filosofia. Me conta como a Argentina, com Julián Álvarez fazendo o trabalho sujo na área, levantou a taça. Ou como a França usou Giroud — um centroavante de ofício, que não precisava driblar, só precisava estar no lugar certo na hora certa.
Copa do Mundo não é Liga dos Campeões. São sete jogos em 30 dias, contra seleções que se fecham, que estudam cada movimento, que jogam com linha de cinco. Você precisa de alguém que abra espaço, que segure a bola de costas, que finalize de primeira quando a oportunidade aparece. O Brasil tem pontas espetaculares jogando na Europa, meias de luxo, um goleiro de classe mundial. Mas quando a área está lotada e o jogo trava no 0x0 contra a Suíça no calor de Dallas... quem resolve?
Minha aposta (e o recado para o professor Ancelotti)
Se eu fosse Ancelotti — e que bom que não sou, porque a pressão de 220 milhões de técnicos de sofá é coisa para italiano de sangue frio —, levaria Endrick e Igor Thiago. Os dois. Gabriel Jesus como coringa do ataque, opção tática de banco, não como titular da posição.
Endrick tem o talento bruto, a explosão, o instinto de gol que não se ensina. Igor Thiago tem a consistência, os gols na melhor liga do mundo, a maturidade física de quem sabe brigar por espaço com zagueiros de 1,90m. Juntos, cobrem o que falta um ao outro. Um para começar, outro para mudar o jogo.
E Neymar? Olha, se ele chegar em maio inteiro, com ritmo de jogo e sem dores no joelho, é impossível deixá-lo de fora da lista de 26. Mas como referência de área, como o homem-gol? Não. Neymar é Neymar — ele cria, desequilibra, inventa o impossível, mas a função de centroavante não é e nunca foi dele. Levá-lo como falso 9 seria desperdiçar o que ele faz de melhor.
A convocação de março vai ser o termômetro. Se Ancelotti chamar Endrick pela primeira vez, saberemos que ele encontrou o caminho. Se insistir em esperar, em observar, em mandar olheiro para mais uma rodada da Ligue 1... aí eu começo a ficar preocupada de verdade.
Faltam 100 dias, professor. O relógio não para. E a camisa 9 continua pendurada no cabide.
Fonte: ESPN / Bolavip / CNN Brasil | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


