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Brasil perde com um a mais e a Copa chega em três meses

A seleção de Ancelotti levou 2x1 da França jogando com um homem a mais por 40 minutos. Neide Ferreira não tem paciência para desculpa: Copa em junho, e o Brasil ainda não tem cara.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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Brasil perde com um a mais e a Copa chega em três meses
Brasil x França no Gillette Stadium, em Boston — Foto: Reprodução / ESPN Brasil

Deixa eu contar o que aconteceu na última quinta-feira em Boston, porque eu sei que muita gente ainda está tentando encontrar uma explicação aceitável para o que viu.

O Brasil tinha onze jogadores em campo. A França, dez. Isso aconteceu durante quase quarenta minutos. No futebol, isso não é vantagem — é liquidação. É o momento em que você fecha o jogo, você controla, você assusta. A seleção de Carlo Ancelotti fez exatamente o oposto: tomou um gol com a França na inferioridade numérica e acabou perdendo de 2 a 1. Primeiro derrota da era Ancelotti. Primeira, mas não a última se o Brasil não acordar — porque a Copa começa em junho e eu não estou vendo evolução.

Amanhã à noite, no Camping World Stadium, em Orlando, temos mais um teste. A Croácia, às 21h. Modric ainda lá, como sempre. E eu pergunto: o Brasil vai aparecer dessa vez?

O que aconteceu em Boston

Mbappé abriu o placar antes do intervalo. Gol bonito, de cobertura, tirando de Ederson com aquela categoria de quem faz isso todo sábado. O Brasil não criou nada de relevante no primeiro tempo — nem uma finalização de perigo. Ancelotti apostou no 4-3-3 com Vini Jr e Raphinha nas pontas, Martinelli de referência. O que vimos foi lentidão, previsibilidade e passes horizontais que não levavam a lugar nenhum.

No segundo tempo, o árbitro expulsou Upamecano. VAR confirmou: vermelho direto. O Brasil com 11, a França com 10. Quarenta minutos para virar. Não virou. Pior: a França fez o segundo, com Ekitike, em uma jogada de cobertura que resumiu tudo o que estava errado. O Brasil pressionou no final, Bremer descontou, e acabou. 2 a 1. Jogando com um a mais.

Se você quer ler a análise completa do jogo, ela está aqui, por Renato Caldeira. Eu não vou repetir o relato. Meu trabalho é diferente: é te dizer o que isso significa.

O que os números realmente dizem

Eu ouvi os defensores de Ancelotti. "Oito desfalques, Neide. Oito! Militão, Rodrygo, Estêvão, Bruno Guimarães, Vanderson, Caio Henrique..." — sim, eu sei. Está em todo lugar. Mas o Brasil dos números que constroem a narrativa pré-Copa mostrava uma geração ofensiva histórica. Esse discurso ainda vale?

A verdade é que o Brasil jogou sem dois dos lesionados mais importantes, sim. Mas jogou com Vini Jr, Casemiro, Marquinhos, Raphinha e Luiz Henrique. Não é time de Segunda Liga. São jogadores que faturam dezenas de milhões por ano em clubes europeus. E esses jogadores não conseguiram resolver um jogo com onze contra dez.

O que me preocupa não é o resultado. É a postura. É a seleção que não corre atrás, que não pressiona alto, que não tem senso de urgência. Equipe que está perdendo por um gol, com um homem a mais, e parece que está esperando o adversário cometer um erro sozinho. Isso não é futebol de Copa do Mundo. Isso é futebol de time que vai para casa nas oitavas.

A defesa que não convence

Ancelotti disse no pós-jogo que o grupo estava "abaixo do esperado fisicamente" pela sequência de viagens. Disse que o gol da França com dez foi "um acidente". Disse que "em breve tudo vai se encaixar".

Eu ouço esse discurso desde fevereiro. Primeiro era "time em construção". Depois era "faltam os titulares". Agora é "desgaste físico". Ancelotti, você é um dos maiores técnicos do mundo — eu respeito isso. Mas excusa de técnico fraco não combina com curriculum de campeão.

A Copa do Mundo começa na primeira semana de junho. A lista definitiva de convocados sai no dia 18 de maio. Isso é sete semanas. Sete semanas para encaixar um time que não tem identidade definida, não pressiona consistentemente e não sabe o que fazer com superioridade numérica.

Amanhã é a última chance de dar sinal de vida

A Croácia não é a França. Mas também não é fraquinha. Modric ainda joga — sim, naquele nível que irrita qualquer adversário. Livakovic no gol. Perisic na lateral. É uma seleção experiente, que foi à final da Copa de 2018, que sabe sofrer e se fechar.

Se o Brasil jogar amanhã o mesmo futebol lento de Boston, com a mesma displicência na marcação e a mesma falta de criatividade no ataque, então deixa eu te dizer uma coisa: não é Militão que está faltando. É alma.

O palpite do Brasil para amanhã: Ederson; Ibañez, Marquinhos, Léo Pereira e Douglas Santos; Casemiro e Danilo; Luiz Henrique, Matheus Cunha, João Pedro e Vini Jr. É time. Agora precisa jogar como time.

Eu vou assistir. E eu espero que Ancelotti me surpreenda. Mas com o que vi em Boston, ainda não sei se acredito nisso.

A Copa não espera. E o Brasil também não pode mais.


Neide Ferreira escreve toda segunda-feira no Beira do Campo. Ela não tem paciência para discurso pós-jogo.

Fonte: ESPN Brasil, CNN Brasil, Olympics.com | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
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Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.