Scarpa e os livros: rivalidade não precisa virar barreira
Ao comemorar a aproximação entre torcidas por meio da leitura, Gustavo Scarpa oferece um exemplo que merece continuidade: competir em campo sem fechar as portas fora dele.
Neide Ferreira5 min de leitura
Scarpa e os livros merecem atenção por uma razão que vai além da imagem simpática de um jogador leitor: mostram que a rivalidade pode continuar forte sem bloquear toda conversa entre torcedores. Minha posição é simples. Vale incentivar esse encontro, sem transformar o meia do Atlético-MG em santo, professor obrigatório ou responsável por consertar o futebol brasileiro. O gesto é bom justamente porque cabe na vida comum.
Na entrevista publicada pela CNN Brasil nesta terça-feira, 6 de outubro, Scarpa comemorou a criação de clubes de leitura em outras torcidas e a aproximação entre pessoas que torcem por adversários. A conversa atual dá novo fôlego a um movimento que já vinha sendo documentado em setembro. Não nasceu hoje, nem precisa fingir que nasceu para continuar relevante.
Scarpa e os livros abrem uma conversa diferente
O ge registrou em 25 de setembro a criação da Galeitura, organizada por torcedores atleticanos a partir das indicações do jogador. A primeira leitura coletiva relatada foi A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói. A reportagem também documentou iniciativas de torcidas de Cruzeiro, Corinthians, São Paulo e Grêmio. Esse é o contexto histórico; não um balanço atualizado de participantes.
A graça da história está em abrir uma porta sem pedir que ninguém devolva a camisa. O cruzeirense pode continuar querendo vencer o Atlético. O atleticano pode continuar comemorando o tropeço do rival. Compartilhar uma leitura não obriga os dois a combinar o placar do clássico. Só oferece um assunto em que discordar não precisa terminar em expulsar o outro da conversa.
Eu defenderia esse espaço mesmo que reunisse pouca gente. A relevância não depende de uma corrida por seguidores. Um grupo pequeno que consegue conversar com respeito já tem valor. O futebol costuma medir quase tudo por tamanho: maior torcida, maior receita, maior contratação. Para a convivência, a pergunta pode ser outra: quem conseguiu entrar, participar e continuar ali?
Leitura não é teste de superioridade
Há um risco nessa celebração: usar Scarpa para montar um tribunal dos hábitos alheios. O jogador que lê vira o exemplo aprovado; o colega que prefere música, videogame ou outra diversão aparece como alguém a corrigir. Seria uma maneira bastante torta de defender uma atividade que pode ampliar a curiosidade.
Na conversa com a CNN, o próprio Scarpa evitou garantir que os livros mudarão sua relação com o elenco e destacou o respeito pelo espaço dos outros. Essa cautela merece acompanhar a repercussão. Incentivar é oferecer uma possibilidade. Cobrar que todo companheiro siga o mesmo gosto é transformar uma troca voluntária em obrigação.
Também não faz sentido exigir de quem chegou agora o vocabulário de um crítico literário. Uma conversa pode começar com uma impressão simples, uma dúvida ou o reconhecimento de que determinado livro não funcionou para aquela pessoa. Se o clube de leitura vira concurso para descobrir quem parece mais culto, troca o acolhimento pela pose. A porta abriu para ser atravessada, não para ganhar um fiscal.
A cobrança pelo futebol continua no lugar
O contra-argumento é previsível: jogador recebe para jogar, e o torcedor quer rendimento. Correto. A atuação continua sujeita a análise, e ninguém precisa gostar de uma partida ruim porque o atleta indicou um bom livro. O erro começa quando essa cobrança tenta ocupar todas as horas e todas as dimensões da pessoa.
Um passe errado pode ser discutido como passe errado. Não é necessário convocar o livro da semana como suspeito. Da mesma forma, uma boa apresentação não prova que ler produziu vantagem esportiva. Sem evidência, essa associação seria só uma superstição com capa mais elegante. A iniciativa cultural pode ser defendida pelo que oferece fora do placar.
Essa separação também conversa com a coluna sobre Klopp e o pertencimento no futebol: respeito não deveria ficar condicionado à vitória. E a discussão sobre uma transição responsável após as bets lembra que a influência do futebol merece ser examinada para além do anúncio na camisa. São debates diferentes, unidos pela necessidade de pensar o que essa paixão coloca em circulação.
Uma rivalidade que deixa espaço para o outro
Não espero que uma indicação literária resolva hostilidade, intolerância ou conflito entre torcidas. Seria uma promessa desproporcional. Defendo algo mais concreto: preservar espaços em que o adversário possa aparecer como interlocutor. Ter um assunto comum não elimina a disputa; impede que ela seja a única forma possível de relacionamento.
Quem quiser discutir o desempenho do Galo pode acompanhar a tabela do Brasileirão e a agenda de jogos. Quem quiser conversar sobre um livro não precisa esperar o próximo resultado. As duas coisas cabem na mesma torcida. Scarpa ajudou a abrir essa possibilidade; mantê-la aberta parece uma escolha melhor do que perguntar a cada rodada se ele ainda merece ter um hobby.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
- O que é a Galeitura?
- É um clube de leitura criado por torcedores do Atlético-MG a partir das indicações literárias de Gustavo Scarpa. O ge documentou o movimento em 25 de setembro de 2026.
- Quando Scarpa falou sobre livros e torcedores rivais à CNN?
- A entrevista foi publicada em 6 de outubro de 2026. Nela, o jogador comemorou o surgimento de iniciativas de leitura em outras torcidas.
- Qual livro aparece no início do movimento da Galeitura?
- A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, foi a obra escolhida para a primeira leitura coletiva relatada pelo ge.
Fonte: CNN Brasil (entrevista de 6/10) e ge (contexto de 25/9); consultados em 6 de outubro de 2026 · informações adicionais por Beira do Campo
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