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Quinta Polêmica: o gesto de Allan diz tudo sobre o Corinthians 2026

Expulso por gesto obsceno no Maracanã, Allan entregou muito mais do que uma cartola vermelha. Entregou o retrato de um clube perdido em campo e fora dele.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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Quinta Polêmica: o gesto de Allan diz tudo sobre o Corinthians 2026
Allan expulso no Maracanã após gesto obsceno — Foto: Reprodução / Gazeta Esportiva

Não precisa de muita análise tática para entender o que aconteceu no Maracanã na quarta-feira à noite. O Fluminense ganhou 3 a 1 do Corinthians, e o volante Allan arranjou uma forma absolutamente inédita de ser expulso: colocou a mão na genitália em direção ao adversário Lucho Acosta, o VAR acionou a revisão, e o árbitro foi ao monitor sem hesitar. Vermelho. Com dez homens, o Corinthians afundou como sempre afunda quando o adversário aperta.

Mas sabe o que me fascina? Não é o gesto. É o que o gesto revela.

A crise que o gesto ilustra

O Corinthians tem 10 pontos em 9 rodadas. Está no 11º lugar. Com um elenco que inclui Memphis Depay, Rodrigo Garro e Yuri Alberto — nomes que, juntos, custam mais do que o PIB de alguns municípios paulistas. Um time que foi montado para brigar lá em cima, que contratou na ilusão de que dinheiro resolve tudo, está assistindo Palmeiras, Fluminense e Bahia abrirem distância enquanto ele tropeça com os próprios pés.

O gesto de Allan é o símbolo perfeito dessa desorientação. Não é um jogador fora do controle em um momento específico. É um clube inteiro fora do controle em uma temporada inteira.

Quando um atleta profissional, com anos de carreira, decide que a resposta para um atrito com um adversário é um gesto pornográfico às câmeras de TV — durante um jogo decisivo, numa fase ruim do campeonato — alguma coisa está muito errada. Não só com ele. Com o ambiente que permite isso.

Os dados que o Corinthians não quer olhar

Vamos falar de números, porque às vezes o sentimento não é suficiente para algumas pessoas.

O Corinthians somou apenas 10 pontos nos primeiros 9 jogos. Para quem quer o G4, esse ritmo é uma tragédia. Para quem lembra dos objetivos declarados no início do ano — "briga pelo título" —, é constrangedor.

No panorama atual do Brasileirão 2026, o Palmeiras lidera com 19 pontos, aproveitamento de 70%. O Fluminense tem os mesmos 19. O Corinthians, com aproveitamento abaixo de 40%, já perdeu o trem que nem saiu da estação.

E a questão não é só tática. Memphis não está entregando o que prometeu. Garro oscila. A defesa sangra quando pressionada. E agora, além de tudo isso, o time ficou sem o seu volante titular no momento mais delicado do jogo — porque ele preferiu um gestinho ridículo a manter o profissionalismo.

O Neto, que não é exatamente meu modelo de comentarista equilibrado, disse ao vivo que Allan é "o grande responsável" pela derrota. Concordo pela metade. A derrota é coletiva. A vergonha, também.

O argumento de defesa que não me convence

Sei o que vão dizer: "Neide, mas o Corinthians está sob pressão absurda, os jogadores são humanos, Lucho Acosta provocou antes."

Tudo certo. Pressão existe. Provocação em campo existe. Jogadores cometem erros dentro e fora das quatro linhas.

Mas deixa eu te contar um negócio sobre profissionalismo: ele não vem só nos momentos fáceis. Nenhum dirigente do Corinthians precisou orientar Allan a não fazer gestos obscenos em rede nacional. Esse é o tipo de coisa que se espera de quem recebe um salário para representar o maior clube do Brasil.

O pré-jogo de anteontem já apontava para um confronto difícil, com o Fluminense organizado e confiante. O Corinthians entrou no Maracanã precisando de um resultado. Saiu com 10 homens, um gol a mais no saldo negativo e uma nova manchete para a temporada das manchetes ruins.

O que o Corinthians precisa fazer

Punir Allan internamente é o mínimo — e o Corinthians já sinalizou que vai nesse caminho. Mas punição sem reforma de ambiente é cosmética.

O problema do Corinthians 2026 não cabe num único jogador, numa única expulsão, nem num único gesto. É um clube que gasta para vencer e coleciona tropeços; que contrata estrelas e não sabe como orquestrá-las; que vive entre a grandeza do nome e a mediocridade dos resultados.

E enquanto o Palmeiras estuda suas estatísticas e o Fluminense se organiza taticamente, o Corinthians ainda está discutindo por que um volante achou que um gesto desse era uma boa ideia num estádio lotado com câmeras em todos os ângulos.

Isso não é crise de um jogo. É crise de identidade.

Não basta mudar o técnico, punir o jogador ou prometer que "na próxima vai ser diferente." O Corinthians precisa de um espelho. E Allan, sem querer, acabou de providenciar um.


Neide Ferreira escreve toda quinta-feira na Quinta Polêmica do Beira do Campo.

Fonte: Gazeta Esportiva, CNN Brasil, ESPN Brasil | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.