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Chega de mimimi: a torcida do Flamengo precisa parar de achar que técnico é culpado de tudo

Dois vice-campeonatos em 2026 e a torcida do Flamengo já quer a cabeça de Filipe Luís. Neide Ferreira analisa a crise no Rubro-Negro e pergunta: será que o problema é mesmo o técnico?

Neide Ferreira
Neide Ferreira
5 min de leitura
Chega de mimimi: a torcida do Flamengo precisa parar de achar que técnico é culpado de tudo
Torcedor do Flamengo com expressão de indignação — a frustração rubro-negra em um olhar

Coluna de Neide Ferreira | Publicada às sextas-feiras

Alguém precisa falar a verdade: a torcida do Flamengo está sendo injusta com Filipe Luís. Não, não estou dizendo que o time está jogando bem. Não estou dizendo que dois vice-campeonatos em menos de um mês não doem. Mas sentar no muro não é meu estilo, então vou direto ao ponto: xingar o técnico que há quatro meses era tratado como herói é sintoma de uma doença crônica do futebol brasileiro — a amnésia coletiva.

Vamos combinar: o Flamengo de Filipe Luís em 2025 foi campeão da Libertadores e do Brasileirão. O mesmo time que hoje é vaiado no Maracanã. O mesmo treinador que, em outubro, era ovacionado. O que mudou? O calendário virou. É isso. Só isso.

Os números que a torcida esquece

Em 100 jogos no comando do Flamengo, Filipe Luís tem aproveitamento de 69,6%. São 62 vitórias, 23 empates e 15 derrotas. Para quem não sabe, isso é excelente. Muito excelente. Comparativamente, Jorge Jesus, o mito, teve 70,5% no primeiro ano. A diferença? Um empate a cada dez jogos. Isso justifica vaias?

O problema não é técnico. O problema é estrutural. O Flamengo começou 2026 sem reforços de peso, com um elenco envelhecido em posições-chave e com a mesma diretoria que renovou o contrato do técnico após semanas de especulação — especulação que ela mesma alimentou.

A cultura do descartável

Aqui no Brasil, técnico virou descartável. Perdeu um jogo importante? Fora. Perdeu dois? Demissão imediata. Ninguém mais constrói nada porque não há tempo para construir. Abel Ferreira no Palmeiras é exceção que confirma a regra: teve tempo, ganhou paciência da diretoria e virou referência. Mas será que a torcida do Flamengo teria paciência com Abel se ele tivesse perdido a Recopa?

Filipe Luís assumiu em outubro de 2024. Em menos de dois anos, entregou dois títulos nacionais e um continental. A "crise" de 2026 são sete jogos, quatro vitórias, um empate e duas derrotas. Isso é crise? Para a torcida do Flamengo, aparentemente sim.

O que realmente acontece no Maracanã

Eu estava lá na noite de quinta-feira. Vi as vaias antes do jogo contra o Madureira. Vi os xingamentos após a derrota para o Lanús. E vi algo mais preocupante: uma torcida que parece ter esquecido que futebol é ciclos. Que nenhum time ganha sempre. Que até o Real Madrid, o maior da história, tem temporadas ruins.

A torcida do Flamengo se acostumou a ganhar. E quando não ganha, precisa culpar alguém. No Brasil, o culpado é sempre o mesmo: o técnico. Nunca a diretoria que não contratou. Nunca os jogadores que não renderam. Nunca o calendário insano que desgasta. Sempre o treinador.

A pergunta que ninguém faz

Se demitirem Filipe Luís hoje, quem vem? Sampaoli? Foi uma tragédia. Tite? Recusou. Dorival? Foi demitido. Jorge Jesus? Não quer voltar. Então quem? A resposta é a mesma de sempre: um técnico qualquer que vai ter três meses de paciência antes de ser vaiado também.

O Flamengo tem problemas? Tem. O elenco precisa de renovação? Precisa. A diretoria precisa se mexer no mercado? Precisa. Mas trocar de técnico agora seria colocar pano em ferida que sangra por outro lugar.

O que eu faria no lugar de Filipe Luís

Se eu fosse o treinador, diria o seguinte para a torcida: "Vocês querem resultados imediatos? Eu também. Mas não vendo ilusão. O time tem limitações. Vamos trabalhar com o que tem. E se não der, me demitam. Mas não me xinguem antes do jogo começar. Isso não ajuda ninguém."

Filipe Luís tem personalidade. Tem convicção. E, mais importante, tem histórico. Heróis de outubro não viram vilões de fevereiro sem que algo muito errado aconteça. E o que aconteceu? O Flamengo perdeu duas finais. Dói? Dói. Justifica o circo que se armou? Não justifica.

A conclusão que incomoda

A torcida do Flamengo precisa decidir: quer ser parte da solução ou parte do problema? Vaiar antes do jogo começar é sabotagem. Xingar o técnico que trouxe alegria há quatro meses é ingratidão. E exibir faixas pedindo cabeça sem propor alternativa é oportunismo barato.

O futebol brasileiro precisa parar de achar que técnico é mágico. Nenhum treinador transforma time limitado em campeão eterno. Filipe Luís é bom. Muito bom. E se tiver o apoio que teve em 2025, vai ser campeão de novo. Agora, se a torcida continuar nesse clima de guerra civil, não vai sobrar ninguém para comemorar quando (não "se") o time voltar a vencer.

Porque uma coisa é certa: o Flamengo vai voltar a vencer. A questão é se a torcida vai estar junto na hora boa, ou se vai ter destruído o ambiente antes disso.


Neide Ferreira é colunista do portal. As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade da autora e não necessariamente refletem a posição editorial do portal.

Fontes consultadas: ge.globo, UOL Esporte, R7 Esportes, ESPN Brasil

Fonte: ge.globo / UOL Esporte / R7 | Informações adicionais por Beira do Campo

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Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.