Técnicos demitidos: o Brasileirão 2026 só troca as cadeiras
Treze demissões até o fim do primeiro turno, três clubes que trocaram duas vezes e um detalhe que ninguém comenta: os técnicos demitidos não somem do campeonato. Eles reaparecem no banco do vizinho três semanas depois.
Neide Ferreira5 min de leitura
Demitir treinador virou o único plano tático que todo clube brasileiro sabe executar sem ensaiar. Foram treze técnicos demitidos até o fim do primeiro turno do Brasileirão 2026 — e o que me incomoda não é o número, que já vi pior. É que a conta não gera nada. Nenhum dos clubes que apertou o botão está melhor hoje do que estava quando apertou. Três deles apertaram duas vezes. E os três terminam esta terça-feira em 12º, 18º e 20º lugares.
Treze técnicos demitidos, três clubes reincidentes
Os números são do levantamento do Lance fechado em 24 de julho: treze demissões até a metade do campeonato. Em 2025, foram quatorze no mesmo recorte, e a temporada acabou com vinte e duas. O recorde do formato atual, com vinte clubes e trinta e oito rodadas, é de 2015: trinta e duas trocas.
A lista de 2026 começa em 12 de fevereiro, com Sampaoli no Atlético-MG, e vai até 18 de junho, com Renato Gaúcho no Vasco. No meio, Diniz, Osório, Filipe Luís, Crespo, Tite, Vojvoda, Anselmi, Dal Pozzo, Dorival, Roger Machado e Fábio Matias.
Olhe agora para os reincidentes, porque é ali que a tese se sustenta sozinha.
A Chapecoense foi a primeira a trocar duas vezes. Demitiu Gilmar Dal Pozzo em abril, contratou Fábio Matias, e dispensou Fábio Matias em 25 de maio — dez jogos, duas vitórias, um empate, sete derrotas. Celso Rodrigues assumiu como interino. Hoje o clube é o lanterna com 10 pontos e 99,9% de chance de rebaixamento na nossa simulação.
O Vasco demitiu Diniz em fevereiro, trouxe Renato Gaúcho em março, e o dispensou em 18 de junho por má relação com o elenco. Pedro Emanuel chegou em julho com contrato até dezembro de 2027. Terceiro treinador da temporada, 18º lugar, 54,6% de risco de queda.
O São Paulo demitiu Crespo em março, colocou Roger Machado, tirou Roger Machado em 13 de maio, passou por Milton Cruz no interino e chegou em Dorival Júnior no dia 18. Três nomes efetivos, 12º lugar.
O carrossel não elimina ninguém, só muda a cadeira
Aqui está a parte que quase ninguém diz em voz alta, e é a que mais me diverte pelo lado errado.
Fernando Diniz foi demitido pelo Vasco em 22 de fevereiro. Em 6 de abril, assumiu o Corinthians, com contrato até dezembro de 2026. E de quem ele herdou a cadeira? De Dorival Júnior, demitido no dia 5. Que, seis semanas depois, foi anunciado pelo São Paulo.
Leia de novo, devagar. Diniz sai do Vasco e entra no Corinthians. Dorival sai do Corinthians e entra no São Paulo. Nenhum dos três clubes mudou de patamar. O que mudou foi o endereço de trabalho de dois senhores e o valor das multas rescisórias no balanço — dinheiro que sai do mesmo caixa que anda apertado até nos clubes grandes.
Não é renovação. É rodízio. Quando o diário espanhol AS reparou nisso em abril, escreveu que a falta de renovação de treinadores no Brasil faz com que um mesmo nome dirija o mesmo clube em até seis passagens diferentes. Rimos do estrangeiro que não entende o futebol brasileiro. O estrangeiro entendeu perfeitamente.
O contra-argumento existe e é honesto
Agora a parte que me obriga a segurar a própria língua.
Manter o técnico não é fórmula mágica, e quem disser isso está vendendo simplificação. O Mirassol manteve Rafael Guanaes desde o primeiro dia e aparece em 14º, com 34% de risco de rebaixamento. O Vitória ficou com Jair Ventura e está em 13º. Estabilidade sozinha não faz ponto, não contrata lateral e não resolve elenco curto.
O ponto não é "nunca demita". É que a demissão só funciona quando faz parte de um plano, e no Brasil ela virou o plano inteiro. A diferença entre o Mirassol e o Vasco não é ter ou não ter trocado — é que um resiste com orçamento pequeno e projeto claro, e o outro gastou três rescisões para chegar à mesma zona da tabela.
O que a tabela responde depois de 21 rodadas
Vamos aos fatos, com a ressalva devida: alguns clubes têm jogo atrasado por causa da Sul-Americana, então a comparação é por rendimento, não só por pontuação bruta.
Dos cinco primeiros colocados, três nunca trocaram de treinador em 2026. O Palmeiras de Abel Ferreira — no cargo desde novembro de 2020, renovado até 2027, com uma sondagem do Fulham recusada no caminho — lidera com 47 pontos e 76,9% de chance de título na nossa projeção. O Athletico-PR de Odair Hellmann, contratado em maio de 2025, é o terceiro com 37. O Bahia de Rogério Ceni, lá desde setembro de 2023 e com contrato até 2027, é o quinto com 32.
Do outro lado, o Corinthians de Diniz é o nono com 29 pontos, o São Paulo de Dorival é o décimo segundo com 26, o Vasco é o décimo oitavo e a Chapecoense é a lanterna. Sete meses de reuniões de emergência, coletivas de apresentação e frases sobre "novo ciclo" para produzir exatamente isto.
Não é coincidência, e também não é lei da física. É consequência de uma escolha. Os clubes brasileiros descobriram que trocar de treinador é a decisão mais barata de tomar e a mais fácil de explicar para a torcida — bem mais confortável do que revisar quem monta o elenco, quem aprova a contratação e quem assina o orçamento. Enquanto a conta continuar chegando só para quem apita do banco, a disputa lá em cima segue decidida por quem não precisou demitir ninguém.
Treze demissões, zero diagnósticos. Da próxima vez que um presidente subir ao microfone para anunciar "uma mudança necessária", eu queria muito ouvir qual foi o erro dele.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
- Quantos técnicos foram demitidos no Brasileirão 2026?
- Treze até o fim do primeiro turno, segundo levantamento do Lance publicado em 24 de julho. No mesmo recorte de 2025 haviam sido 14, e aquela temporada terminou com 22 trocas.
- Qual clube trocou de técnico mais vezes no Brasileirão 2026?
- Vasco e Chapecoense trocaram duas vezes cada um. A Chapecoense foi a primeira a fazê-lo, ao demitir Fábio Matias em 25 de maio, depois de já ter dispensado Gilmar Dal Pozzo em abril.
- Quem é o técnico há mais tempo no cargo na Série A?
- Abel Ferreira, no Palmeiras desde novembro de 2020. Ele renovou contrato até o fim de 2027 e recusou sondagem do Fulham, da Inglaterra.
- Trocar de técnico melhora a posição do time na tabela?
- Não há garantia. Os três clubes que trocaram duas vezes em 2026 aparecem em 12º, 18º e 20º lugares, enquanto três dos cinco primeiros colocados mantiveram o mesmo treinador desde o início.
Fonte: Lance, Metrópoles, Terra, Gazeta Esportiva, sites oficiais de Vasco, Corinthians e Chapecoense · informações adicionais por Beira do Campo
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