São Paulo voltou ao normal. E o normal do Tricolor é o problema.
O Tricolor tinha a melhor campanha em sete anos, liderava o Brasileirão invicto e tinha todo o país acreditando. Então veio o Choque-Rei — e o São Paulo voltou a ser o São Paulo. Neide Ferreira analisa.


São Paulo completou sete rodadas de Brasileirão invicto. Seis vitórias, um empate, 17 pontos, liderança isolada, melhor início em sete anos. O torcedor tricolor começou a acreditar de verdade. Era para acreditar — os números mandavam acreditar.
Então chegou o Choque-Rei. E com ele, a realidade.
Jhon Arias decidiu no Morumbi. O Palmeiras venceu no templo tricolor e levou a liderança embora. Resultado? São Paulo caiu para a vice-liderança acumulando, agora, 12 clássicos seguidos sem bater o rival verde. Doze. Em quatro anos de encontros, o Tricolor não conseguiu uma vitória sequer contra o Palmeiras.
Isso não é azar. É um padrão.
Sete rodadas de ilusão ou de construção real?
Não vou ser injusta. O São Paulo do Roger Machado tem méritos genuínos nesta temporada. Os números de Calleri contam a história de um atacante renovado — quatro gols em seis jogos, produção mais que dobrada em relação ao Brasileirão de 2024. A segunda melhor defesa do campeonato não é acidente; é trabalho, é organização, é mérito do treinador.
O problema não é o time. O problema é o que o time faz quando o calendário apresenta a conta.
Durante as primeiras rodadas, o São Paulo navegou por um calendário administrável — adversários menores, jogos em casa, ritmo controlado. E foi bonito. Muito bonito, aliás. Mas a tabela sempre chega com a verdade. E quando chega, a questão deixa de ser "quantos gols vamos fazer" e passa a ser "vamos aguentar a pressão?"
A resposta do Choque-Rei foi: não.
Palmeiras, Internacional e a realidade dos grandes jogos
Doze jogos sem vitória contra o Palmeiras. Doze. Esse número não sai da minha cabeça porque ele é o retrato fiel de um problema maior.
Não é uma questão tática apenas — o São Paulo até tenta, até cria, até chega ao gol nos clássicos. Mas quando o jogo aperta, quando o adversário pressiona com qualidade, o time não encontra a resposta. Perde a bola em momentos errados. Toma o gol no momento em que parecia melhor. Desaparece nos últimos 20 minutos de jogos tensos.
Esta noite, no Beira-Rio, a equipe de Roger Machado enfrenta um Internacional que está saindo do Z-4 com duas vitórias seguidas e empurrão de torcida. Não é o jogo mais difícil do campeonato. Mas vai dizer muito sobre o caráter deste grupo.
O Colorado de Pezzolano está encontrando seu caminho, tem Mercado e Alan Patrick funcionando juntos, e joga em casa. Se o São Paulo performar como performou contra o Palmeiras, sai de Porto Alegre sem nada.
Roger Machado faz parte da solução?
Aqui vou assumir uma posição que vai incomodar uma parte da torcida tricolor: Roger Machado é um bom treinador para construir times. Sabe organizar, sabe trabalhar com dados, sabe manter o vestiário funcionando. O que ele ainda não provou, com o São Paulo, é que sabe ganhar quando precisa — em clássicos decisivos, em jogos fora de casa contra times reagindo, em partidas nas quais o título está na mesa.
Isso não é uma crítica para acabar com o treinador. É uma pergunta legítima que o Brasileirão vai responder ao longo das próximas 29 rodadas.
O São Paulo tem jogadores de qualidade. Calleri em alta, Rodrigo Nestor consistente, Arboleda sólido na defesa. O que falta talvez não esteja na ficha técnica — está na mentalidade coletiva de um clube que, historicamente, não carrega o "ganhar quando importa" no DNA. Diferente do Flamengo, diferente do Palmeiras, o Tricolor conquistou o título nacional duas vezes nos últimos vinte anos — e nas duas, as circunstâncias foram muito específicas, muito favoráveis.
Quando as circunstâncias ficam difíceis, o São Paulo costuma... ser o São Paulo.
O veredicto
Não vou decretar que o Tricolor vai desmoronar. Seria desonesto — ainda faltam 29 rodadas, a equipe está na vice-liderança e tem qualidade suficiente para brigar.
Mas farei a pergunta que precisa ser feita: o que este São Paulo faz de diferente quando o Palmeiras, o Flamengo e o Internacional de verdade aparecerem no caminho? Não o Internacional do Z-4 de março. O Internacional que vai crescendo ao longo do campeonato.
Se a resposta continuar sendo a mesma que o Choque-Rei deu, o Tricolor vai disputar o vice-campeonato com muita competência.
E vai comemorar o terceiro lugar como se fosse título. Que é, afinal, o jeito que o São Paulo sabe fazer.
Neide Ferreira escreve no Beira do Campo.
Fonte: ESPN Brasil / Globo Esporte | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


