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São Paulo voltou ao normal. E o normal do Tricolor é o problema.

O Tricolor tinha a melhor campanha em sete anos, liderava o Brasileirão invicto e tinha todo o país acreditando. Então veio o Choque-Rei — e o São Paulo voltou a ser o São Paulo. Neide Ferreira analisa.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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São Paulo voltou ao normal. E o normal do Tricolor é o problema.
Ilustração — Torcida tricolor acompanha mais uma decisão do São Paulo no Brasileirão 2026

São Paulo completou sete rodadas de Brasileirão invicto. Seis vitórias, um empate, 17 pontos, liderança isolada, melhor início em sete anos. O torcedor tricolor começou a acreditar de verdade. Era para acreditar — os números mandavam acreditar.

Então chegou o Choque-Rei. E com ele, a realidade.

Jhon Arias decidiu no Morumbi. O Palmeiras venceu no templo tricolor e levou a liderança embora. Resultado? São Paulo caiu para a vice-liderança acumulando, agora, 12 clássicos seguidos sem bater o rival verde. Doze. Em quatro anos de encontros, o Tricolor não conseguiu uma vitória sequer contra o Palmeiras.

Isso não é azar. É um padrão.

Sete rodadas de ilusão ou de construção real?

Não vou ser injusta. O São Paulo do Roger Machado tem méritos genuínos nesta temporada. Os números de Calleri contam a história de um atacante renovado — quatro gols em seis jogos, produção mais que dobrada em relação ao Brasileirão de 2024. A segunda melhor defesa do campeonato não é acidente; é trabalho, é organização, é mérito do treinador.

O problema não é o time. O problema é o que o time faz quando o calendário apresenta a conta.

Durante as primeiras rodadas, o São Paulo navegou por um calendário administrável — adversários menores, jogos em casa, ritmo controlado. E foi bonito. Muito bonito, aliás. Mas a tabela sempre chega com a verdade. E quando chega, a questão deixa de ser "quantos gols vamos fazer" e passa a ser "vamos aguentar a pressão?"

A resposta do Choque-Rei foi: não.

Palmeiras, Internacional e a realidade dos grandes jogos

Doze jogos sem vitória contra o Palmeiras. Doze. Esse número não sai da minha cabeça porque ele é o retrato fiel de um problema maior.

Não é uma questão tática apenas — o São Paulo até tenta, até cria, até chega ao gol nos clássicos. Mas quando o jogo aperta, quando o adversário pressiona com qualidade, o time não encontra a resposta. Perde a bola em momentos errados. Toma o gol no momento em que parecia melhor. Desaparece nos últimos 20 minutos de jogos tensos.

Esta noite, no Beira-Rio, a equipe de Roger Machado enfrenta um Internacional que está saindo do Z-4 com duas vitórias seguidas e empurrão de torcida. Não é o jogo mais difícil do campeonato. Mas vai dizer muito sobre o caráter deste grupo.

O Colorado de Pezzolano está encontrando seu caminho, tem Mercado e Alan Patrick funcionando juntos, e joga em casa. Se o São Paulo performar como performou contra o Palmeiras, sai de Porto Alegre sem nada.

Roger Machado faz parte da solução?

Aqui vou assumir uma posição que vai incomodar uma parte da torcida tricolor: Roger Machado é um bom treinador para construir times. Sabe organizar, sabe trabalhar com dados, sabe manter o vestiário funcionando. O que ele ainda não provou, com o São Paulo, é que sabe ganhar quando precisa — em clássicos decisivos, em jogos fora de casa contra times reagindo, em partidas nas quais o título está na mesa.

Isso não é uma crítica para acabar com o treinador. É uma pergunta legítima que o Brasileirão vai responder ao longo das próximas 29 rodadas.

O São Paulo tem jogadores de qualidade. Calleri em alta, Rodrigo Nestor consistente, Arboleda sólido na defesa. O que falta talvez não esteja na ficha técnica — está na mentalidade coletiva de um clube que, historicamente, não carrega o "ganhar quando importa" no DNA. Diferente do Flamengo, diferente do Palmeiras, o Tricolor conquistou o título nacional duas vezes nos últimos vinte anos — e nas duas, as circunstâncias foram muito específicas, muito favoráveis.

Quando as circunstâncias ficam difíceis, o São Paulo costuma... ser o São Paulo.

O veredicto

Não vou decretar que o Tricolor vai desmoronar. Seria desonesto — ainda faltam 29 rodadas, a equipe está na vice-liderança e tem qualidade suficiente para brigar.

Mas farei a pergunta que precisa ser feita: o que este São Paulo faz de diferente quando o Palmeiras, o Flamengo e o Internacional de verdade aparecerem no caminho? Não o Internacional do Z-4 de março. O Internacional que vai crescendo ao longo do campeonato.

Se a resposta continuar sendo a mesma que o Choque-Rei deu, o Tricolor vai disputar o vice-campeonato com muita competência.

E vai comemorar o terceiro lugar como se fosse título. Que é, afinal, o jeito que o São Paulo sabe fazer.

Neide Ferreira escreve no Beira do Campo.

Fonte: ESPN Brasil / Globo Esporte | Informações adicionais por Beira do Campo

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Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.