O melhor do futebol brasileiro, todos os dias
Beira do Campo
BEIRADO CAMPO
Brasileirão

Calleri ressuscitado: os números que explicam o novo São Paulo no Brasileirão

Com 4 gols em 6 jogos e uma média 250% acima da sua de 2024, Jonathan Calleri lidera o São Paulo que tem a segunda melhor defesa do Brasileirão 2026. Os dados contam uma história de reinvenção.

Thiago Borges
Thiago Borges
5 min de leitura
Calleri ressuscitado: os números que explicam o novo São Paulo no Brasileirão
Ilustração — Atacante em noite iluminada pelo Brasileirão 2026, perseguindo o artilheiro

Jonathan Calleri não estava morto. Estava apenas esperando a hora certa para surgir.

Depois de uma temporada 2024 apagada e 2025 praticamente extinta por lesão, o centroavante argentino voltou em 2026 com números que desafiam qualquer previsão estatística. Quatro gols em seis partidas pelo Brasileirão — média de 0,67 por jogo — representam um salto de 250% em relação à sua produção de 2024, quando marcou 0,19 gols por partida em 27 jogos.

Mas a história de Calleri não existe de forma isolada. Ela faz parte de um São Paulo que, sob o comando de Roger Machado, construiu o segundo melhor desempenho defensivo da competição e chegou à rodada 8 invicto, com 16 pontos e cinco vitórias. Quando os números do ataque e da defesa se somam, surge um candidato a título que poucos esperavam.

O que os números dizem sobre Calleri

A comparação entre os ciclos do centroavante é reveladora.

TemporadaJogosGolsMédia (gols/jogo)
20242750,19
2025300,00
2026*640,67

*Apenas Brasileirão 2026, até a rodada 8.

O dado mais revelador, porém, não é a quantidade de gols — é a eficiência temporal: Calleri participa de uma jogada decisiva (gol ou assistência) a cada 93 minutos em campo neste Brasileirão. Para efeito de comparação, em 2024 esse número estava perto de 280 minutos.

O que mudou? Além da recuperação física, o papel. Roger Machado reposicionou Calleri como referência central pura, liberando-o da função de caçar a bola pelos flancos — algo que o esgotava no esquema do técnico anterior. Com Luciano e Ferreira movimentando as linhas defensivas adversárias, o espaço para o argentino finalizar cresceu.

A participação em gols já superou toda a produção de 2025 nos primeiros 9 jogos da temporada completa — incluindo Copa do Brasil e Estadual. Levou menos de duas semanas de Brasileirão para isso acontecer.

O escudo defensivo que amplifica o ataque

Calleri marca, mas quem sustenta o São Paulo na tabela é a defesa. Apenas 5 gols sofridos em 8 rodadas — segundo melhor do campeonato, atrás apenas do Flamengo (5 em 7 jogos). A média é de 0,63 gol sofrido por partida.

Isso não é acidente tático. O São Paulo criou uma estrutura de bloco médio-baixo em transição que reduz os espaços nas costas dos laterais — historicamente o ponto fraco do time nas últimas temporadas. Raphael e Sabino formam a dupla de zaga mais consistente do Tricolor desde a dupla Rodrigo Caio-Arboleda em 2021.

O número que mais impressiona é o de xGA (Expected Goals Against): segundo os dados do Sofascore, o São Paulo concede em média 1,2 xGA por partida — mas sofre apenas 0,63. Isso significa que o time está overperformando na defesa. Zubkov tem parcela importante nisso: o goleiro ucraniano acumula o maior número de defesas difíceis entre os goleiros do campeonato até o momento.

Uma curiosidade: o Bahia segue como único invicto do Brasileirão 2026, com 14 pontos, mas o São Paulo tem melhor aproveitamento e mais pontos (16). A diferença está no número de jogos disputados — o Tricolor jogou uma partida a mais.

Contexto: o São Paulo que voltou a sonhar

Não é de hoje que o São Paulo tem início promissor no Brasileirão. Em 2019 — o último comparável — o time também arrancou invicto e chegou ao título nacional pela última vez até aqui. Mas o melhor início em sete anos por si só não explica a sensação diferente desta temporada.

A diferença está em como o time não perde. Em 2024, mesmo nos períodos de bom futebol, o São Paulo sucumbia a erros individuais e a gols de bola parada. Neste Brasileirão, Roger Machado corrigiu exatamente esses dois pontos: o time não tomou nenhum gol de bola parada até a rodada 8 e cometeu apenas três erros defensivos classificados como "críticos" pelo Sofascore.

Calleri, na artilharia própria com quatro gols (empatado com Danilo do Botafogo e atrás apenas de Carlos Vinícius com seis), é o termômetro do momento. A estatística que encapsula o instante do São Paulo: nos jogos em que Calleri marcou, o aproveitamento do time é de 100% — quatro vitórias em quatro partidas.

Conclusão analítica

Os números de Calleri são extraordinários, mas não podem ser dissociados do sistema que Roger Machado construiu. O ataque funciona porque a defesa é confiável; a defesa se mantém concentrada porque o ataque resolve rápido.

O desafio a partir daqui é a manutenção. As próximas semanas incluem jogos contra rivais que já mapearam o padrão de jogo tricolor. A questão não é se o São Paulo vai continuar jogando bem — é se Calleri e o bloco defensivo vão manter a mesma consistência quando o campeonato apertar.

Pelo que os dados mostram até aqui, há razões para acreditar que sim. Mas no futebol, estatística não é destino. É apenas a melhor estimativa disponível.


Dados referentes ao Brasileirão Série A 2026 até a rodada 8, em 23/03/2026. Fontes: Sofascore, ESPN Brasil.

Fonte: ESPN Brasil, Sofascore, Bolavip | Informações adicionais por Beira do Campo

#brasileirao-2026#serie-a#sao-paulo#calleri#estatisticas#roger-machado
Thiago Borges
Thiago Borges

Analista de Dados

Cientista de dados e fanático por futebol. Usa estatísticas avançadas (xG, xA, PPDA) para desvendar o que os olhos não veem. Transforma números em histórias.