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Matthäus disse que Vinicius Jr chora — e eu tenho uma resposta

Lothar Matthäus atacou Vinicius Jr antes das quartas da Champions. Neide Ferreira tem uma resposta para o alemão — e ela não vai agradar quem prefere futebol sem atrito.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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Matthäus disse que Vinicius Jr chora — e eu tenho uma resposta
Vinicius Jr. no centro das atenções antes da volta das quartas da Champions — Foto: Reprodução / ESPN Brasil

Lothar Matthäus abriu a boca — e a notícia foi: "Vinicius provoca sem parar, depois reclama e chora." O alemão de 64 anos, que foi melhor do mundo em 1990 e se acostumou a ser ouvido mesmo quando não tem nada de novo a dizer, escolheu a véspera do jogo de ida das quartas da Champions para detonar o brasileiro. O Bayern venceu por 2 a 1 no Bernabéu. Vinicius foi bom, incômodo, irritante para a defesa alemã — como sempre. E Matthäus ainda resolveu falar depois.

Minha questão não é se Matthäus está errado. Minha questão é: por que só Vinicius recebe essa cobrança?

A provocação como virtude — mas só para alguns

Quando Neymar dava pedaladas e tirava sarro dos adversários, metade do mundo ria. Quando Cristiano Ronaldo comemorava cada gol como se tivesse ganho a Copa no último segundo, chamavam de determinação e mentalidade vencedora. Quando Harry Kane marca e grita para a torcida do Bayern, é paixão pelo jogo. Quando Kylian Mbappé ri na cara de marcadores, é elegância francesa.

Quando Vinicius Jr. dança após marcar, é desrespeito. Quando Vinicius festeja e olha para a arquibancada adversária, é arrogância. Quando Vinicius responde a uma falta violenta com palavras, é reclamão e chorão.

Matthäus usou exatamente o script que a Europa aplica em Vinicius há cinco anos: competente, mas inconveniente. Provoca e depois não aguenta. O problema é que "provocar" no dicionário europeu tem dois significados: um para os daqui, outro para os de fora. E Vinicius está sempre do lado errado dessa equação — como de costume.

Matthäus não é o vilão, mas é parte do problema

Vou ser honesta: não vou pintar Lothar Matthäus como um monstro. Ele criticou um comportamento em campo, e isso é legítimo. Há momentos em que Vinicius exagera? Sim, há. Há vezes em que a reação alimenta ainda mais a confusão? Também sim. Neide Ferreira não tem o hábito de defender ídolo de qualquer jeito — porque ídolo que erra paga o preço como qualquer outro.

Mas existe uma diferença clara entre criticar um comportamento específico e usar um jogador negro brasileiro como exemplo recorrente de "bad boy" do futebol europeu. Matthäus não escolheu aleatoriamente o tema antes das quartas. Ele escolheu Vinicius porque Vinicius é o rosto que incomoda. O rosto que não se encaixa no molde silencioso que a Europa prefere para os seus jogadores importados do Brasil.

O problema não é o que Matthäus disse. É o que ele nunca diz: que a provocação existe dos dois lados, que as entradas violentas em Vinicius são tratadas como "marcação dura de qualidade", que os torcedores que já fizeram gestos racistas nas arquibancadas raramente aparecem nas análises de uma lenda alemã. Essa seletividade fala mais alto que qualquer declaração bem-articulada na TV.

O que acontece quando o provocado provoca de volta

O Real Madrid vai ao Allianz Arena no dia 15 de abril precisando virar o placar de 2 a 1. E Vinicius vai estar lá, garantidamente incomodando, celebrando, respondendo quando necessário. Já é assim há anos. Os adversários que tentaram calar Vinicius com entradas duras, com vaias, com palavras de lendas aposentadas — nenhum teve muito sucesso.

As quartas desta Champions estão entre as mais disputadas em anos. Real e Bayern prometem mais um capítulo de uma rivalidade que dispensa enredo novo para prender atenção. Matthäus jogou gasolina numa fogueira que já ardia antes do apito inicial no Bernabéu — e a resposta, como sempre, vai acontecer dentro do campo.

A conta que a Europa ainda não pagou

Matthäus tem razão numa coisa: Vinicius Jr. provoca. Provocou contra o Bayern. Vai provocar na volta. Provoca todo jogo porque é um jogador de alto nível que sabe que bons jogadores incomodam adversários.

Mas enquanto a Europa continuar aplicando dois critérios diferentes para jogadores que provocam — um para os brancos e europeus, outro para os negros e sul-americanos — o problema não está no Vinicius. Está num sistema que tolera a arrogância de uns e patologiza a autoconfiança de outros.

Pode ser que Matthäus não tenha pensado em nada disso quando fez a declaração. Pode ser que tenha sido apenas análise técnica de um observador experiente. Mas palavras têm contexto, e o contexto de Vinicius Jr. na Europa inclui um histórico de episódios que Matthäus conhece tão bem quanto qualquer um.

Enquanto isso, o show continua. E Vinicius Jr. vai continuar dançando — com ou sem a aprovação do senhor de Munique.

Fonte: ESPN Brasil, A Bola, Torcedores | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.