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Neide: Galo organiza festa enquanto o Flu já vende a camisa de Hulk

O Atlético-MG marcou a despedida de Hulk para domingo na Arena MRV, com telão e discurso. Só esqueceu um detalhe: o Fluminense já está vendendo a camisa 7 do paraibano há quatro dias. Para Neide, essa cronologia diz mais sobre o Galo do que sobre o Hulk.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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Neide: Galo organiza festa enquanto o Flu já vende a camisa de Hulk
Ilustração — estádio em noite de jogo, cenário da despedida de Hulk no Atlético-MG neste domingo

A despedida de Hulk no Atlético-MG vai ser neste domingo (10), às 15h, antes do jogo contra o Botafogo na Arena MRV. Telão, condecoração, discurso, foto com a família. O Galo prometeu uma noite digna do camisa 7 que ajudou a entregar um Brasileiro depois de 50 anos de jejum. Tudo bonito — só que o Fluminense já está vendendo a camisa 7 com o nome de Hulk no site oficial desde a semana passada. Faltam dois dias para a homenagem e o produto já tem etiqueta no rival. Dá vergonha de quem? De ninguém, e é justamente isso que precisa ser dito.

A questão não é se Hulk merece ou não merece a festa. Merece. Foram 287 jogos, 140 gols e 56 assistências em cinco temporadas no clube, com o Brasileiro de 2021 quebrando aquele jejum de meio século que parecia de ferro. Ninguém com bom senso vai discutir o tamanho do paraibano dentro do que ele construiu na Cidade do Galo. O problema é o roteiro de despedida que o Atlético escolheu — e o que esse roteiro escancara sobre o estado de uma diretoria que já não controla nem o calendário das próprias homenagens.

A cronologia que envergonha o Galo

Vamos por ordem dos acontecimentos. Hulk rescindiu o contrato em comum acordo com o Atlético-MG no fim de abril, conforme o próprio clube anunciou. O Fluminense entrou imediatamente, fechou contrato até o fim de 2027 e tratou da papelada antes mesmo da despedida ser oficializada. Daí o tricolor carioca abriu pré-venda da camisa 7 com o nome do paraibano nas plataformas oficiais, no valor de R$ 885 a versão "jogador", como noticiou O Tempo nesta quarta-feira. Tudo isso ANTES da festa marcada pelo Galo para domingo.

Pergunta indecente, mas necessária: alguém na presidência do Atlético leu a agenda da própria semana antes de fechar a data? Você não programa homenagem para um ídolo no domingo se o rival está te puxando o tapete na quarta. O efeito prático é que a torcida atleticana vai cantar pelo Hulk no telão sabendo que o sócio-torcedor do Flu já recebeu o e-mail de "garanta sua camisa antes do estoque acabar". É uma despedida coreografada por outro coreógrafo.

A reação da torcida do Galo nas redes não foi por acaso — vídeos de adeptos rasgando publicamente a camisa do paraibano e jurando não comparecer à homenagem caíram porque a diretoria conduziu mal a narrativa do começo ao fim. Permitir que o jogador fosse cortado de relacionados na reta final da Sul-Americana, abrir mão de uma transferência sem nenhuma compensação financeira e ainda escolher fazer a festa no jogo seguinte ao do anúncio do rival é uma sucessão de decisões cuja única explicação plausível é desorganização interna.

O contraste com a outra ponta

Do lado do Fluminense, em compensação, o departamento de marketing entendeu o jogo. O acordo é tecnicamente rentável: o tricolor não pagou luvas pela transferência, vai assumir só os vencimentos do paraibano até dezembro de 2027 e agendou a apresentação para 16 de maio no Maracanã, antes do jogo com o São Paulo. Antes mesmo do anúncio público dos exames médicos, a camisa 7 — cedida por Soteldo — já estava em estoque. Isso é gestão que ouve o calendário; não é gestão que improvisa pano de fundo.

Detalhe ainda mais constrangedor: Atlético e Fluminense fecharam um acordo cavalheiresco para que Hulk não atue contra o Galo na Arena MRV, valendo apenas para os jogos no Maracanã, conforme reportagem da OneFootball. Quer dizer: o Atlético foi cuidadoso o suficiente para impedir o jogador de pisar no gramado da casa contra o ex-clube, mas não foi cuidadoso o suficiente para garantir que a despedida fosse um momento limpo, sem o rival vendendo lembrancinha por trás. O critério da diretoria atleticana sobre o que merece atenção parece bizarro de fora.

Vai ouvir contra-argumento: "ah, Neide, a torcida do Galo vai aparecer e tudo vai dar certo." Pode dar — e tomara que dê. Mas a régua de uma despedida bem-feita não é o que acontece em campo no domingo, e sim o que ficou registrado da semana inteira que antecedeu o jogo. E a semana já está perdida. A imagem de Hulk com a camisa do Flu em pré-venda chegou primeiro, e essa imagem vai morar no Google muito mais tempo do que o discurso emocionado de domingo.

Atlético sem Hulk e sem rumo

A alma do problema, claro, vai além da cronologia mal feita. O Galo entra no jogo do domingo na 11ª posição do Brasileirão, com 17 pontos em 14 jogos, à beira do Z4 e ainda em risco na Sul-Americana. Hulk vai embora num ano em que o time já demitiu Sampaoli, perdeu para o Cruzeiro a final do Mineiro, naufragou no calendário internacional e passa a depender, no campo, de um setor ofensivo onde Bernard tenta resolver sozinho aquilo que era papel do paraibano.

Vai sentir falta? Vai. Não pelos 39 anos que Hulk carrega, mas porque o pênalti fácil que ele resolvia agora vai para o pé do Mauricio Lemos. A bola parada que ele inclinava com o pé esquerdo virou esperança. A liderança no vestiário em momentos quentes virou planilha vazia — porque a diretoria não construiu substituto a tempo. Hulk saiu do Atlético no ritmo do próprio Atlético em 2026: sem planejamento, sem janela aberta, sem plano B. É um padrão que esta coluna já cansou de cobrar, e que pelo visto seguirá sendo cobrado até o fim do ano.

A festa de domingo é digna. O Galo precisa ser digno também — e essa parte pendurou no chuveiro. Despedida boa não combina com pré-venda no rival, e quando combina, a culpa não é do jogador. É de quem deixou o roteiro escapar.

Fonte: Atlético Mineiro, O Tempo, Itatiaia, CNN Brasil, OneFootball, ESPN | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.