Guardiola e o City: a dinastia que não soube sair pela porta da frente
Dez anos no Manchester City, cinco Premier Leagues e uma Champions. Mas quando a janela fecha, a queda é dura. Neide Ferreira não tem papas na língua.


Pep Guardiola está no Manchester City há dez anos. Dez. Uma década inteira num clube que ele transformou na máquina mais dominante da Premier League em toda a história. Cinco títulos ingleses, uma Champions League, troféus domésticos que viraram rotina. E agora, na Champions League 2026, o seu time levou 3 a 0 no Bernabéu, com hat-trick de Valverde, e entra na segunda mão precisando de um milagre que o futebol raramente concede.
Isso não é uma fase ruim. Isso é o fim de uma era. E ninguém parece querer admitir.
Dez anos e o que o Bernabéu mostrou sem cerimônia
Federico Valverde marcou três vezes em 22 minutos. Vinte e dois minutos. O Manchester City, um dos clubes mais ricos e bem montados do mundo, assistiu a um meio-campista uruguaio desmontar a sua defesa como se estivesse num treino livre.
O que o 3 a 0 no Bernabéu revelou não foi apenas uma derrota pesada. Revelou um time sem reação, sem intensidade, sem o que quer que Guardiola passou anos construindo — aquela sensação de inevitabilidade que o City transmitia quando estava no seu melhor.
Haaland, o homem que deveria ser o diferencial, está seco há semanas. A defesa que custou centenas de milhões de libras foi vazada três vezes antes do intervalo. E o treinador mais inteligente do futebol moderno ficou na beira do campo sem respostas.
Isso acontece. O problema é que está acontecendo repetidamente.
Os números não mentem — e o City está em colapso
Entre janeiro e fevereiro de 2026, o Manchester City acumulou três empates e duas derrotas na Premier League. Haaland marcou apenas um gol em sete jogos nesse período. O time que chegou a liderar o campeonato em dezembro está em queda livre.
Guardiola vai completar dez temporadas no Etihad no fim desta temporada. É muito tempo para qualquer treinador em qualquer clube de alto nível. A Premier League já mostrou que até os melhores projetos têm prazo de validade — e o City está dando todos os sinais de que chegou no seu.
A crise do futebol inglês na Champions não é culpa só do City, é verdade. Mas enquanto o Arsenal de Arteta avança com consistência, o projeto de Guardiola patina numa queda que já dura mais de uma temporada.
O talento ainda está lá. O problema é que talento sem fome, sem renovação de ideias, sem aquela faísca inicial, vira estátua.
"Mas o legado..." — sim, e daí?
Já estou ouvindo o coro: "Mas Guardiola construiu o maior projeto da história da Premier League". Sim. Concordo plenamente. Ninguém tira isso dele.
O problema é que isso não serve de desculpa para 2026. Legado não entra em campo. Legado não fecha o 3 a 0. Legado não explica por que um grupo de jogadores de elite parece ter perdido completamente o fio da meada.
No futebol, você é tão bom quanto o que está entregando agora. E o que o Manchester City está entregando agora é uma eliminação da Champions sem oferecer resistência, precedida de meses de inconsistência doméstica.
O Guardiola que chegou ao City em 2016 tinha uma fome voraz de dominar tudo. O Guardiola de 2026 parece um homem que já conquistou tudo o que queria e está esperando o relógio zerar.
A hora de ir, Pep
Existem saídas bonitas no futebol e saídas feias. Cruyff saiu do Barcelona com dignidade. Ferguson saiu do United num título. Já outros ficaram tempo demais e viraram parte do problema que deveriam resolver.
Guardiola tem a chance de escolher o lado certo dessa lista. Os rumores de saída no verão de 2026 existem porque fazem sentido — para ele e para o clube. Dez anos é tempo suficiente para qualquer relação atingir o ponto de desgaste natural.
O Manchester City precisa de um choque elétrico. De uma voz nova, de um olhar diferente sobre o mesmo elenco. De alguém que chegue sem o peso dos ciclos anteriores.
E Guardiola, por sua parte, merece um projeto onde a fome volte. Porque quando ela some, nem o maior gênio do futebol moderno consegue esconder.
O Bernabéu já deu o veredicto. Falta só assinar embaixo.
Fonte: ESPN, Al Jazeera, Sky Sports | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


