Janela extra da CBF: quem comprou gringo que espere sentado
A CBF criou uma janela extraordinária de 9 a 17 de julho para os clubes registrarem reforços antes da 19ª rodada. Só que ela vale apenas para negócios entre clubes brasileiros. Resultado: Hulk fica liberado para estrear pelo Fluminense, e os três estrangeiros do Bahia assistem de terno até o dia 20.
Neide Ferreira5 min de leitura
Vou começar pelo fim, porque essa história não merece suspense: a janela extra da CBF é um remendo. E, como todo remendo feito às pressas, cobriu metade do buraco e deixou a outra metade pingando. De 9 a 17 de julho, os clubes da Série A podem registrar reforços e escalá-los já na volta do Brasileirão — desde que o tal reforço tenha vindo de outro clube brasileiro. Comprou lá fora? Senta e espera até o dia 20. Mesmo campeonato, mesma rodada, dois regulamentos diferentes.
A janela extra da CBF é a confissão de um erro
Ninguém cria uma janela extraordinária porque acordou generoso. Cria-se porque o calendário deu errado antes. A CBF antecipou as inscrições de reforços nacionais depois de empurrar jogos da 19ª rodada para 16 e 17 de julho, percebeu que a janela internacional só abre no dia 20 e viu o abacaxi na mão: clubes entrando em campo proibidos de usar gente que já tinham contratado e pago. A saída foi dobrar a própria regra de inscrição em vez de empurrar a rodada três dias para a frente. Três dias. Era isso.
Eu já tinha reclamado da pressa de voltar antes da final da Copa, e olha só onde essa pressa foi parar: numa portaria de exceção. O remendo é a prova documental de que a data estava errada. Se estivesse certa, não precisaria de remendo.
Hulk fica liberado, e os do Bahia assistem de terno
Agora a parte que me tira do sério, porque aqui a coisa deixa de ser burocracia e vira placar.
Hulk saiu do Atlético-MG e assinou com o Fluminense em maio, de graça, contrato até o fim de 2027. Transferência entre brasileiros. Com a janela extraordinária aberta, ele está apto a ser inscrito e liberado para entrar em campo contra o Bragantino, no Maracanã, dia 17.
O Bahia também fez a lição de casa: contratou o atacante argentino Alejo Véliz, o zagueiro espanhol Marco Moreno e o goleiro argentino Guido Herrera. Todos anunciados, apresentados, treinando. E todos impedidos de jogar contra a Chapecoense, também no dia 17, porque vieram do exterior. A estreia oficial do trio fica para 21 de julho, na Arena MRV. Contratos assinados, salários correndo, e três atletas de arquibancada.
Me expliquem a lógica esportiva disso. Não a jurídica — essa eu conheço, é o calendário da FIFA, e a CBF não manda nele. A lógica esportiva. Dois clubes gastaram dinheiro na mesma janela, com a mesma antecedência, para o mesmo objetivo, e um deles é punido porque foi comprar do lado errado do mapa. O Bahia não fez nada de irregular. Fez, aliás, exatamente o que se cobra de um clube ambicioso: procurou qualidade onde ela estava. E é justamente esse que fica a ver navios.
Não estou dizendo que o Fluminense trapaceou — o Flu apenas se beneficiou de uma regra que não escreveu. Estou dizendo que a regra é torta. Quando a elegibilidade do seu reforço depende do passaporte dele e não da data do contrato, o problema não é do clube. É de quem desenhou o calendário.
Sim, a CBF fez o que dava para fazer
Vou dar o braço a torcer, porque não sou de fingir que o outro lado não existe.
A CBF não tem poder sobre a janela internacional. Aquilo é FIFA, é sistema de transferências, é regra global — e nenhuma confederação abre exceção nisso. Diante de uma rodada antecipada, a entidade tinha duas opções ruins: não fazer nada, e aí nenhum reforço jogaria, ou fazer o que fez, e aí alguns jogariam. Escolheu o mal menor. É defensável. Metade dos clubes atendidos é melhor que zero.
E tem mais: a janela extra também socorreu quem precisava de gente com urgência. Time no sufoco, elenco curto, mercado fervendo desde a parada — deixar todo mundo de mãos atadas numa rodada dupla seria pior. Reconheço.
O que eu não aceito é o passo anterior. A CBF não foi obrigada a antecipar a rodada. Ninguém apontou uma arma. Ela criou o problema, descobriu que só conseguia resolver metade e chamou a meia-solução de solução. Isso não é competência, é controle de danos. E controle de danos bem-feito continua sendo controle de danos.
O que fica
O Brasileirão volta na quinta com um asterisco que ninguém vai lembrar em dezembro, mas que vale pontos agora. Cinco jogos serão disputados sob uma regra que trata contratações iguais de maneira desigual. Se o Bahia tropeçar num jogo atrasado da 4ª rodada com três reforços de fora, ninguém vai escrever na súmula que foi a burocracia. Vai ficar registrado só o placar — e o calendário de julho não perdoa ninguém.
Meu posicionamento é simples: a janela extra não é o escândalo. É o sintoma. O escândalo é uma confederação que remaneja rodada sem olhar o calendário da FIFA, e depois improvisa uma portaria para tapar o próprio erro — deixando de fora, por acaso, justo quem gastou mais.
Da próxima vez, tentem o seguinte: marquem a rodada para depois da janela. Sai mais barato que remendo.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
- Quando é a janela extra da CBF em julho de 2026?
- A janela extraordinária vai de 9 a 17 de julho de 2026 e serve para os clubes da Série A registrarem reforços antes da retomada do Brasileirão.
- Reforço contratado no exterior pode jogar a 19ª rodada?
- Não. A janela extra vale apenas para negócios entre clubes brasileiros. Quem veio de fora só pode ser inscrito a partir de 20 de julho, quando a FIFA abre a janela internacional.
- Quando abre e fecha a janela internacional de 2026?
- A janela internacional da FIFA abre em 20 de julho e vai até 11 de setembro de 2026.
Fonte: Terra, ChicoSabeTudo, Rádio Itatiaia, CNN Brasil · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


