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Opinião

Flamengo e fraturas: proteger atletas exige o mesmo critério

A nota rubro-negra recoloca a integridade física no debate. Neide defende cobrança por atendimento e rigor, mas cobra coerência também quando a entrada perigosa vem do próprio time.

Neide FerreiraNeide Ferreira5 min de leitura
Flamengo e fraturas: proteger atletas exige o mesmo critério
Carrascal comemora com companheiros no Fla-Flu de 11 de outubro; foto de jogo — Foto: Adriano Fontes/Flamengo via ge

O Flamengo tem razão em cobrar proteção para os atletas. E essa cobrança só ganha força quando vale também para o jogador que veste a camisa adversária. A nota desta segunda-feira, 12 de outubro, merece uma discussão séria sobre atendimento e critério, sem virar licença para escolher quais entradas perigosas incomodam. Integridade física não pode depender do lado da arquibancada em que cada um está sentado.

Segundo o comunicado reproduzido pelo UOL às 13h14, o clube contabiliza nove fraturas em partidas disputadas por seus atletas em 2026. O levantamento exclui a lesão mais recente de Arrascaeta pela seleção uruguaia. É uma contagem apresentada pelo Flamengo, não uma auditoria independente de cada episódio. A diferença importa antes de qualquer conclusão sobre responsabilidade.

Flamengo e fraturas: a conta pede apuração, não sentença

O número assusta. Mas uma lista de lesões, sozinha, não demonstra que todas decorreram de infrações nem que todas poderiam ter sido evitadas por uma decisão de arbitragem. Quem quer transformar indignação em cobrança útil precisa abrir cada caso: o lance, a avaliação em campo, a punição aplicada e a justificativa técnica. Somar consequências e atribuir uma causa única é um atalho que o debate deveria recusar.

Na nota, o Flamengo questiona a continuidade da partida depois do choque de Danilo e relata um hematoma no rosto de Carrascal, que será reavaliado. São questões específicas, com origem identificada. O acompanhamento do zagueiro está na notícia sobre as fraturas na mandíbula de Danilo. Esta coluna discute a cobrança por proteção, sem anunciar resultado de cirurgia ou prazo de retorno.

Minha proposta é simples: a reclamação deve produzir perguntas que possam ser respondidas. O árbitro percebeu o choque? Que informação recebeu dos auxiliares? Qual foi o critério para permitir a sequência? Uma explicação verificável ajuda mais do que uma disputa sobre quem está sendo perseguido. A torcida pode continuar discordando; pelo menos terá uma decisão concreta para discutir.

Parar para atender não é distribuir cartões

A Regra 5 da IFAB, consultada hoje, distingue lesão leve de lesão grave: permite seguir até a bola sair no primeiro caso e determina a interrupção no segundo. O texto oferece uma referência para analisar o atendimento. Ele não dispensa a avaliação do que era perceptível durante a jogada nem constitui um veredito sobre o episódio de Danilo.

Também há duas perguntas diferentes: a necessidade de atendimento e a existência de uma infração disciplinar. Na minha avaliação, confundir as duas empobrece a cobrança. É possível exigir atenção imediata a um atleta sem decretar, apenas pelo resultado do choque, que o adversário deveria receber cartão. O cuidado precisa ser discutido com prioridade; a punição precisa ser fundamentada no lance.

O futebol tem contato e não oferece promessa de risco zero. Esse é um contra-argumento válido, mas insuficiente para encerrar a conversa. Reconhecer o risco do esporte não torna inútil revisar a resposta a ele. A responsabilidade de quem organiza o espetáculo inclui explicar como orienta os profissionais a lidar com situações potencialmente graves, mesmo quando a decisão tomada em campo desagrada aos dois bancos.

A coerência inclui a entrada de Pulgar

O outro lado do clássico precisa entrar na discussão. Em reportagem de 11 de outubro, reconferida nesta segunda-feira, o ge registra que Pulgar recebeu amarelo pela entrada em Castillo. O analista PC Oliveira defendeu a expulsão. Essa é uma avaliação atribuída ao comentarista, não uma decisão posterior da comissão de arbitragem.

Se a bandeira é proteger jogadores, a pergunta sobre esse lance merece o mesmo interesse que a pergunta sobre Danilo. Não estou equiparando mecanicamente duas jogadas diferentes. Estou cobrando disposição para examiná-las com a mesma seriedade. O argumento perde credibilidade quando a cor da camisa decide se queremos rigor ou tolerância.

A divulgação do VAR de Santos x Flamengo, referente a outro jogo, já mostrou que clube e avaliação oficial podem discordar. Publicar a fundamentação não elimina a divergência, mas permite separar a reclamação da explicação técnica. Esse deveria ser o hábito, acompanhado de revisão crítica quando a própria explicação não convence.

A proteção precisa sobreviver ao próximo jogo

Defendo uma cobrança que continue válida quando o lance ruim for cometido por alguém do nosso time. Que peça esclarecimento sem antecipar culpados, atendimento sem cálculo de vantagem e critérios que possam ser reconhecidos pelo torcedor rival. A agenda de jogos seguirá cheia e a tabela do Brasileirão continuará mudando; a discussão precisa sobreviver à próxima escalação.

O Flamengo colocou um tema necessário na mesa. A resposta que considero adequada é apurar episódios, explicar decisões e cobrar coerência de todos, inclusive do clube que reclama. Proteger um atleta vale mais do que ganhar uma guerra de comunicados. E o compromisso com essa proteção deve valer antes de sabermos quem levou a pior.

Fonte: UOL, ge e IFAB — consultados em 12 de outubro de 2026 · informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
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