Filipe Luís virou plano A do Leverkusen. E o Flamengo?
Filipe Luís foi demitido após um 8 a 0. Dois meses depois, o Flamengo caiu na Copa do Brasil para o Vitória e o ex-técnico é alvo número um do Bayer Leverkusen. Neide pergunta o que precisava perguntar: o Rubro-Negro se arrependeu da demissão?


Vamos combinar uma coisa: demitir um técnico depois de uma goleada de 8 a 0 no time da casa exige confiança. Confiança ou descontrole, mas vamos chamar de confiança. Foi o que o Flamengo fez em 3 de março, quando mandou Filipe Luís embora um dia depois de a equipe atropelar o Madureira pelo Carioca.
Dois meses e meio depois, com o Rubro-Negro eliminado da Copa do Brasil pelo Vitória e o demitido virando alvo prioritário do Bayer Leverkusen na Bundesliga, a pergunta é inevitável. E como hoje é quinta, ela vem sem rodeio: o Flamengo se arrependeu?
O 8 a 0 que não bastou
A história está fresca na memória. Filipe Luís entregou Libertadores, Brasileirão e Recopa em 2025. Renovou contrato no início de 2026. Em fevereiro, voltou a vencer pesado. Em 2 de março, atropelou o Madureira por 8 a 0 na semifinal do Carioca. Na madrugada seguinte, foi demitido.
O motivo oficial, repetido por Luiz Eduardo Baptista internamente, foi a queda de rendimento entre janeiro e fevereiro e o vice da Recopa Sul-Americana — episódio que eu mesma analisei à época. O motivo extra, que vazou depois pela ESPN, foi mais barulhento: a diretoria descobriu que o técnico ouvira o Chelsea durante a janela de renovação. José Boto, diretor de futebol, era contra a demissão. Perdeu a discussão.
Olhando de longe, parece o roteiro de uma novela mexicana. Olhando de perto, era um casamento já trincado. Filipe Luís chegou ao último treino sem saber que seria o último treino. Foi informado pelo Boto, ouviu que não era a decisão do departamento de futebol, e saiu da Gávea com cinco títulos no currículo e a sensação de que tinha sido descartado por uma planilha.
Os dois meses do Leonardo
A justa medida da decisão a gente faz agora, com Jardim no comando há dois meses e meio. Eu não vou ser injusta com o português. Ele aceitou um chamado quente, em meio a calendário insano, com elenco machucado e torcida bipolar. Em 11 jogos no Brasileirão, somou 23 gols marcados. Lidera o ataque do campeonato, abre placar mais cedo, mantém o Flamengo em segundo lugar com 31 pontos, quatro atrás do Palmeiras.
Os números bonitos, contudo, têm letra miúda. O Flamengo de Jardim leva mais chutes ao gol por jogo do que o de Filipe Luís — 12,7 contra 9,5, segundo levantamento do Futebol na Web. Marca mais (2,1 por partida contra 1,8), mas sofre mais. Trocou pressão alta por contra-ataque, abriu mão da posse, ganhou eficiência e perdeu controle. Funciona quando o adversário é menor. Falha quando o adversário sabe pressionar.
E aí entra o detalhe que fica entalado na garganta: no dia 14 de maio, em Salvador, o Flamengo perdeu por 2 a 0 para o Vitória e foi eliminado da Copa do Brasil na quinta fase. Tinha vencido a ida por 2 a 1 no Maracanã. Não bastou. O time entrou apático, sofreu o primeiro gol de Erick ainda na etapa inicial, levou o segundo de Luan Cândido e voltou para o Rio sem o torneio mais curto da temporada. O próprio Jardim admitiu na semana seguinte, no empate de 1 a 1 com o Athletico-PR, que o time não respeitou o adversário.
E agora a Bundesliga liga
No momento em que escrevo esta coluna, o telefone do Filipe Luís está tocando do outro lado do Atlântico. Segundo Patrick Berger, jornalista alemão respeitado, replicado por Goal, Coluna do Fla e OneFootball, o Bayer Leverkusen escolheu o brasileiro como alvo número um para suceder Kasper Hjulmand a partir de 2026/27. As conversas devem ganhar tração depois do fim da Bundesliga, neste sábado.
Não é apenas o Leverkusen. Chelsea e Benfica já sondaram o nome do brasileiro nos últimos meses, conforme apurei na cobertura recente sobre o interesse alemão por Filipe Luís. O atrativo é técnico — ele aprendeu a coreografia de Diego Simeone como ninguém — e é financeiro: o ex-lateral está sem clube, sem multa, sem fila de empresários cobrando luvas.
A ironia é cruel. O Flamengo demitiu o homem por desempenho. Dois meses e meio depois, um clube alemão habituado a Champions League quer pagar para ter o mesmo homem. Os critérios de avaliação são tão diferentes que dá vontade de rir.
Quem ganhou com a troca?
Eu vou ser honesta: respondendo de forma fria, ainda é cedo para cravar arrependimento. Jardim tem o Brasileirão na mão, manteve o Flamengo no caminho de classificação da Libertadores e seu currículo europeu — Sporting, Monaco, Al-Hilal — não é piada. A pausa de quase 50 dias para a Copa do Mundo cai como bênção: tempo para corrigir a defesa furada, recuperar lesionados e desenhar o segundo semestre.
Mas a frieza não me impede de cobrar coerência. Se a Recopa perdida derrubou o brasileiro, a queda para o Vitória precisava render alguma cobrança pública na cúpula. Não rendeu. Se o vestiário cobrava postura, precisamos saber se cobra do português também. Não cobra — pelo menos não em entrevista coletiva. A régua que pesou o Filipe Luís foi de aço. A que pesa o Jardim parece elástica.
E o pior: o time não joga melhor. Joga diferente. Marca mais e sofre mais. O que comprovaria que Filipe Luís precisava sair, então? O título da Copa do Brasil que não veio? A Recopa que ele perdeu também não tinha sido bandeira em janeiro?
Conclusão
Eu não vou pedir a cabeça do Jardim. Não é a minha praia. Sou paciente com técnico que ganha jogo, sei que dois meses e meio é pouco e respeito quem vem para cá brigar sob o nosso calendário maluco. Mas eu vou cobrar a memória curta da diretoria do Flamengo.
Se você manda embora um campeão da Libertadores depois de um 8 a 0 e dois meses depois ele é o nome principal de um clube que joga a Champions League quase todo ano, alguma coisa na sua planilha está furada. Talvez seja a métrica, talvez seja a paciência, talvez seja só vaidade de cartola que não suporta técnico independente.
O Filipe Luís vai para Leverkusen ou para outro grande no verão europeu. Vai vestir terno de treinador moderno, abrir entrevista coletiva em inglês e devolver, em alemão, o que o Flamengo achou que não cabia no projeto. E quando ele estiver alinhando a defesa do Florian Wirtz em outubro, alguém na Gávea vai precisar olhar para o calendário e fazer a conta.
Conta amarga. Mas conta justa.
Até a próxima Quinta.
Perguntas frequentes
- Por que o Flamengo demitiu Filipe Luís?
- A diretoria justificou a saída pelo desempenho ruim no início de 2026 e por divergências internas. Pesou também a apuração de que o treinador conversava com o Chelsea ao mesmo tempo em que negociava renovação no Rio.
- Quando Leonardo Jardim assumiu o Flamengo?
- Jardim foi anunciado no dia 4 de março de 2026, um dia depois da demissão de Filipe Luís. Tem contrato até dezembro de 2027.
- Filipe Luís vai mesmo assinar com o Bayer Leverkusen?
- Ainda não. Ele é o nome prioritário da diretoria alemã para suceder Kasper Hjulmand, mas o acordo só deve ser fechado depois do fim da Bundesliga, neste sábado.
Fonte: Goal, ESPN, Coluna do Fla, Gazeta Esportiva, CNN Brasil | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


