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Beirado Campo
Internacional

Messi sai da Argentina: até ídolos viram memória

A despedida de Lionel Messi da seleção argentina fecha uma era que não será repetida. O desafio agora é não confundir gratidão com dependência.

Neide FerreiraNeide Ferreira5 min de leitura
Messi sai da Argentina: até ídolos viram memória
Lionel Messi se despede da seleção argentina depois de uma trajetória de 207 partidas e 125 gols — Foto: Reprodução / AFA

Lionel Messi se aposentou da seleção argentina, e a notícia deveria produzir duas reações ao mesmo tempo: reverência e alívio. Reverência porque poucas camisas tiveram um jogador tão grande por tanto tempo. Alívio porque uma seleção que não aprende a existir sem seu ídolo transforma homenagem em muleta.

Messi deixa a Argentina aos 39 anos, com 207 partidas, 125 gols, uma Copa do Mundo, duas Copas América e uma Finalíssima. A AFA publicou a carta de despedida do capitão, que chamou a decisão de dolorosa. É natural que doa. Estranho seria pedir que ele carregasse para sempre uma responsabilidade que já cumpriu em escala quase absurda.

O ponto incômodo não é a saída de Messi. É o que ela revela: por duas décadas, a Argentina se acostumou a procurar o camisa 10 antes de procurar uma ideia. Quando o jogo apertava, havia o drible, o passe impossível, a falta cobrada com a calma de quem já tinha visto tudo. Esse recurso não volta por decreto, nem cabe em uma convocação apressada.

Messi sai da Argentina, mas não deveria deixar um vazio

O adeus vem poucas semanas depois do vice-campeonato mundial para a Espanha. Na campanha, Messi ainda fez oito gols e quatro assistências, números que parecem escritos por alguém que não recebeu o aviso da idade. A Fifa registrou a despedida e o peso histórico de um jogador que transformou a camisa argentina em território de conquista, não de cobrança permanente.

Mas há uma armadilha nessa despedida bonita. A Argentina pode cair na tentação de fazer do próximo ciclo uma vigília: a cada empate, comparar o novo meia a Messi; a cada derrota, sugerir que faltou um gênio; a cada convocação, perguntar quem “herdou” a 10. Não existe herança desse tamanho. Existe trabalho para que o time volte a ser uma equipe completa.

Essa seleção já conheceu a dependência. Antes dos títulos de 2021, 2022 e 2024, Messi carregou frustrações que deveriam ser divididas por todo um projeto esportivo. A geração campeã corrigiu parte disso ao construir uma estrutura coletiva: pressão coordenada, meio-campo com leitura e uma defesa menos apaixonada pelo próprio sofrimento. É essa construção que merece sobreviver, não a fantasia de achar outro Messi em uma prateleira.

Quem acompanhou a trajetória de Messi na artilharia da Copa de 2026 sabe que a despedida não reduz o que ele fez no último Mundial. Ela dá a medida exata da raridade. O futebol argentino ganhou seu maior símbolo e ainda conseguiu, por um período, montar um time que não dependia apenas de um milagre individual. A diferença parece pequena, mas muda tudo.

A próxima faixa não resolve o próximo time

O debate sobre o novo capitão e a camisa 10 é irresistível porque oferece uma resposta visual para uma pergunta muito mais difícil. Entregar a faixa a Nicolás Otamendi, Rodrigo De Paul ou a outro líder não cria uma referência técnica. Reservar o número 10 também não organiza um ataque. São rituais úteis, desde que ninguém finja que eles substituem planejamento.

Scaloni tem contrato até o fim do ano e já indicou que pode fazer uma pausa. A comissão precisa decidir se prolonga a lógica do ciclo vencedor ou se inaugura outra. A urgência não é escolher um rosto para a foto oficial; é definir como uma Argentina sem Messi terá posse, profundidade e responsabilidade repartida nos jogos grandes.

Os jovens argentinos merecem espaço, como o próprio Messi escreveu. Merecem também um ambiente em que errar não vire uma comparação cruel com o melhor jogador da história do país. A seleção não precisa de um substituto. Precisa de cinco ou seis jogadores capazes de assumir, em conjunto, pequenas partes daquilo que um só homem fez durante anos.

Gratidão não pode virar tutela

Há um tipo de homenagem que parece carinho, mas é preguiça: preservar o passado para não discutir o futuro. A Argentina deve celebrar Messi sem prazo, erguer estátuas, repetir seus gols e reservar o lugar que quiser para ele em Buenos Aires. Só não pode construir um museu no vestiário.

A Espanha que venceu a final de 2026 mostrou que ciclos acabam também do lado de quem chega. A conquista espanhola no Mundial foi a imagem mais recente de uma seleção capaz de renovar sem pedir desculpas à própria história. A Argentina terá de fazer o mesmo, ainda que sem o conforto de ter Messi para resolver uma noite ruim.

O argentino saiu porque entendeu o tempo. Agora cabe à seleção demonstrar que também entende. A melhor maneira de agradecer ao maior de todos não é procurar uma cópia. É criar um time que deixe a memória dele ainda mais livre.

Fonte: Associação do Futebol Argentino · informações adicionais por Beira do Campo

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Quem escreve

Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.