Lingard no Corinthians: aposta de verdade ou marketing vazio?
O Corinthians contratou Jesse Lingard com festa, camisa histórica e barulho internacional. Mas Neide quer saber: o que chegou ao Parque São Jorge é um reforço ou a campanha de marketing do ano?


O Corinthians apresentou Jesse Lingard esta semana como se a Fiel tivesse finalmente recebido o Balão de Ouro que esperava. Vídeo épico no Instagram, camisa 77 com direito à história sobre o título de 1977, coletiva animada, o inglês sorrindo com aquela cara de quem nunca viu o Anhembi num dia de calor. Tudo muito lindo. Mas eu, Neide Ferreira, que não consigo deixar festa em paz, preciso fazer a pergunta que a Fiel apaixonada está evitando: o Corinthians contratou um jogador de futebol ou comprou uma campanha de marketing com chuteiras?
O que os últimos quatro anos dizem sobre Lingard
Jesse Lingard tem 33 anos e uma carreira que parece o roteiro de uma série de streaming — começa com muito hype, tem um episódio brilhante no meio e depois fica cada vez mais difícil de acompanhar.
O pico foi em 2021, quando foi emprestado ao West Ham pelo Manchester United: 9 gols em 16 jogos na Premier League, dois deles numa noite histórica contra o Aston Villa. Aquele Lingard era real, era assustador e dava vontade de apertar o play de novo. O problema é que esse Lingard ficou em 2021.
No Nottingham Forest (2022/23), de um dos jogadores mais bem pagos do elenco, ele entregou dois gols e duas assistências em 20 jogos. Dois. Em seguida foi para a Coreia do Sul — para o FC Seoul — onde melhorou: 10 gols e 4 assistências na temporada 2025 da K-League. Respeite a Coreia do Sul, mas a gente sabe que K-League não é Premier League, não é La Liga e, com todo o respeito, não é nem Brasileirão da Série A.
Então chegamos aqui: um jogador de 33 anos, que foi excelente há cinco anos, frustrante dois anos seguidos na Europa e razoável numa liga asiática, chegando ao Parque São Jorge com status de super reforço. Tem algo que não fecha nessa conta.
A camisa 77 e o peso que ninguém quer carregar
O Corinthians escolheu o número 77 para Lingard como homenagem ao título paulista de 1977. Nobre a intenção. Bonita até. Mas me deixa lembrar uma coisa: Igor Coronado foi o último a usar essa camisa pelo Timão. Chegou com status de meia criativo e de alto nível, saiu depois de 67 jogos e 7 gols — um aproveitamento que nenhuma comissão técnica chamaria de sucesso. Se a 77 tem peso histórico, ela também carrega uma tradição recente mais complicada do que o marketing deixa parecer.
E tem mais: Lingard ainda não estava regularizado no BID da CBF quando o anúncio foi feito. Não podia jogar. A Fiel foi às redes sociais, comprou a camisa e fez festa — e o reforço, tecnicamente, ainda não existia para o futebol brasileiro. Isso diz muito sobre como essa contratação foi anunciada antes de estar juridicamente concluída. A festa veio antes do contrato no BID. Se não é o playbook do marketing, eu não sei o que é.
Você pode conferir todos os detalhes do anúncio oficial do Lingard na camisa 77. A notícia foi celebrada. Agora a cobrança começa.
O outro lado — porque não sou de má-fé
Tudo bem, existe o outro lado. E eu respeito quem o defende.
Lingard ainda se mexe. O que vazou dos primeiros treinos em São Paulo foi positivo: um jogador com ritmo, técnica acima da média da maioria dos meio-campistas do campeonato e disposição para correr. Um jogador experiente, com repertório europeu, pode sim causar no Brasileirão. Já vimos isso acontecer.
Além disso, há o fator econômico — e esse não é desprezível. O Corinthians precisa de receita, e a contratação de Lingard gerou mídia espontânea no mundo todo. The Athletic cobriu. O Sky Sports noticiou. O Instagram do clube explodiu. Isso tem valor real, especialmente para um clube que ainda digere os efeitos financeiros dos anos difíceis. Se o inglês render dentro de campo e ainda vender camisas, o negócio foi bom para todo mundo.
O Brasileirão 2026 também está mais disputado do que nunca. Os dados das primeiras rodadas mostram um campeonato mais equilibrado, onde a qualidade individual ainda faz diferença. Se Lingard estiver bem, pode ser trunfo.
Meu veredito: torço, mas de olho bem aberto
Aqui está minha posição, sem rodeio nem euforia: o Corinthians fez uma contratação que é cinquenta por cento futebol e cinquenta por cento negócio. Não há nada de errado nisso — desde que a Fiel saiba qual metade está comprando.
Se Lingard chegar e marcar dez gols no Brasileirão, serei a primeira a me retratar publicamente. Mando o tuíte, assino embaixo e peço desculpa. Mas se a camisa 77 virar mais um caso de estrela europeia que brilhou fora e apagou no Brasil, que ninguém venha dizer que não foi avisado.
O marketing foi impecável. O jogador ainda precisa provar que veio para jogar bola — não para virar personagem. Lingard, a bola está contigo. Literalmente.
Neide Ferreira é colunista do Beira do Campo. Escreve às sextas, às terças e sempre que a polêmica não pode esperar.
Fonte: Meu Timão, ESPN Brasil, Wikipedia | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


