Corinthians na Libertadores: a queda cobra um projeto
A eliminação para o Estudiantes, com um pênalti perdido no último lance, é dolorosa. Mas o Corinthians não pode resumir uma campanha e seus problemas a uma cobrança de Memphis Depay.
Neide Ferreira5 min de leitura
Corinthians na Libertadores terminou com uma imagem que vai circular por muito tempo: Memphis Depay diante da última cobrança, o pênalti sobre o travessão e a eliminação confirmada. O Estudiantes venceu por 1 a 0 na Neo Química Arena, depois do 1 a 1 em La Plata, e saiu com a vaga na semifinal. É uma dor legítima para quem encheu o estádio e viu uma série aberta escapar no detalhe mais cruel possível.
Mas o Corinthians não pode deixar que esse lance vire explicação total. Pênalti perdido machuca, claro. Também é o tipo de episódio que convida à sentença rápida, ao vídeo repetido e à procura por um único culpado. Só que uma campanha não cabe em uma cobrança, assim como um clube não se organiza pela fortuna de um rebote ou pela falta de calma em noventa minutos.
O ge registrou o 0 a 1 e os melhores momentos, enquanto a Folha de S.Paulo relatou que o gol de Alexis Castro saiu aos 42 minutos do segundo tempo e que a penalidade veio já no último minuto. A cronologia explica o choque. Não explica, sozinha, por que um time que precisava da vitória em casa chegou tão perto de depender de uma última bola para sobreviver.
Corinthians na Libertadores não pode se esconder atrás do pênalti
Memphis errou e precisa responder pelo erro como qualquer jogador decisivo. Não há necessidade de dourar o fato. A cobrança poderia levar o confronto para os pênaltis; não levou. Torcedor não é obrigado a achar bonito nem a transformar frustração em aplauso.
O limite está em usar o camisa 10 como atalho para esquecer o resto. O Corinthians teve um jogo inteiro para construir uma vantagem e, na reta final, sofreu o gol que deixou o Estudiantes na frente. O adversário argentino não apareceu do nada no campo de Itaquera: soube sobreviver a uma partida travada, aproveitou sua chance e impôs ao dono da casa uma noite de nervosismo.
É justamente aí que a conversa deixa de ser sobre um chute e passa a ser sobre responsabilidade coletiva. Quem monta elenco precisa oferecer alternativas quando o roteiro não funciona. Quem treina precisa dar referências para atacar uma defesa fechada sem transformar cada posse em afobação. Quem entra em campo precisa assumir o tamanho da decisão antes que o relógio transforme tudo em desespero.
A coluna publicada antes da volta já alertava que uma classificação não apagaria a crise. O guia da partida de ida ajuda a localizar como a série chegou equilibrada à Arena. A eliminação também não pode apagar a obrigação de analisar o que havia de bom na campanha. O problema é mais simples — e mais incômodo: o Corinthians tinha uma oportunidade concreta, não a transformou em jogo controlado e agora precisa aceitar que a conta será cobrada fora do placar final.
A Arena cheia não substitui um plano de jogo
A Neo Química Arena teve capacidade ampliada para a decisão, conforme informou a administração do estádio. A arquibancada entregou o que se espera de uma noite continental. Esse patrimônio emocional é uma força enorme, mas não pode ser usado como plano tático nem como resposta automática aos problemas do clube.
Jogar a Libertadores exige aguentar pressão, ler o momento e aceitar que a partida pode ficar feia. O Estudiantes fez exatamente isso. O Corinthians, por sua vez, não encontrou serenidade para transformar apoio em vantagem. Quando o jogo aperta, a diferença entre competir e apenas se empolgar aparece nos detalhes: uma cobertura, uma escolha de passe, uma bola parada bem defendida, uma finalização preparada com menos pressa.
Nada disso absolve um erro individual. Também não autoriza tratar o elenco como se faltasse vontade por uma noite ruim. A crítica útil é mais trabalhosa: pergunta por que o time chegou tão dependente de uma cena final, que opções havia no banco, como a temporada foi planejada e por qual razão a regularidade continua sendo uma promessa, não uma marca.
A eliminação precisa virar cobrança, não caça às bruxas
O Corinthians não está proibido de sofrer. Perder uma vaga em casa para um gol no fim e um pênalti desperdiçado é o pacote completo da tragédia esportiva. A reação imediata vai ser barulhenta, e parte dela será compreensível. A torcida tem direito de exigir mais de Memphis, dos companheiros, da comissão e da direção.
O que não serve é trocar exigência por caça às bruxas. O Estudiantes avançou por 2 a 1 no agregado; essa é a fotografia da série. A temporada, porém, pede filme inteiro. O clube ainda terá de lidar com os compromissos nacionais e com a pressão acumulada, sem a distração de uma semifinal para adiar decisões.
Se a eliminação ficar reduzida ao pênalti, o Corinthians perde duas vezes: no campo e na leitura do próprio problema. A cobrança precisa alcançar o jogador que falhou, sem dúvida, mas deve chegar com a mesma firmeza a quem planeja, orienta e executa. Só assim o próximo jogo grande deixa de depender de um milagre no último lance — e passa a ser consequência de um trabalho que não se desmancha quando a bola sobe demais.
Fonte: Folha de S.Paulo · informações adicionais por Beira do Campo
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