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Opinião

A CBF cedeu de novo: Fla-Flu adiado e a lei dos intocáveis

Flamengo voltou do Peru e pediu para adiar o Fla-Flu. A CBF aceitou. Neide Ferreira pergunta: e se quem pedisse fosse o Remo, o Mirassol ou o Cuiabá?

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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A CBF cedeu de novo: Fla-Flu adiado e a lei dos intocáveis
Fluminense x Flamengo no Maracanã — Foto: Reprodução / Jornal Pequeno

O Flamengo viajou pra Lima, jogou em Cusco, venceu o Cusco FC por 2x0 na estreia da Libertadores, voltou com o avião atrasado e achou que tinha direito a mover um clássico do Brasileirão de lugar no calendário. Pediu pra CBF. A CBF aceitou. O Fla-Flu que estava marcado pra este sábado (11/04), com ingressos vendidos, foi empurrado pro domingo.

Pergunta simples: e se fosse o Remo?

A CBF de chapéu na mão

Deixa eu traduzir o comunicado oficial pra você. A CBF disse, na prática, o seguinte: "Como o Flamengo teve um desgaste logístico na Libertadores, entendemos que é razoável adiar o clássico." Floresta. E o Fluminense também concordou. Quer dizer: os dois clubes cariocas, juntos, foram até a entidade máxima do futebol brasileiro e disseram "a gente quer jogar no domingo" — e a CBF disse "tudo bem, pode".

Isso não é novidade. É rotina.

Grandes clubes no Brasil têm um canal de negociação com a CBF que times menores simplesmente não acessam. Não é uma porta secretas com luz vermelha e senha. É mais sutil: é o relacionamento, o peso político, a audiência que esses nomes geram, o dinheiro que movimentam. A CBF sabe disso e age de acordo. Quando um Flamengo ou um Palmeiras pede, a conversa começa no "vamos ver o que podemos fazer". Quando um Cuiabá ou um Ituano pede, a resposta já chega pronta: "Calendário é calendário."

Alguém vai me dizer que estou generalizando? Pode ser. Mas que me mostre um caso em que um clube da Série A de médio porte conseguiu adiar um jogo porque tinha uma viagem longa pela frente. Espero sentada.

Tente fazer isso se você for o Mirassol

Agora olha o que tá acontecendo neste mesmo fim de semana. O Mirassol, que estreou na Série A em 2025 e está vivendo o drama da lanterna, joga hoje às 18h30 contra o Bahia, no Maião, mesmo estádio onde tomou 5x1 na temporada passada. O time precisa de pontos urgentes. Não tem margem pra erro.

O Remo, recém-promovido, enfrenta o Vasco hoje às 16h30, em Belém, mesmo sabendo que o adversário vai chegar desfalcado — Puma suspenso, Brenner em dúvida. Não houve gentileza do calendário pra eles.

São clubes com orçamentos infinitamente menores, com estrutura de viagem incomparavelmente mais precária, e que às vezes levam 10, 12 horas pra chegar num destino que um clube grande cobre em charter em 3h. Alguém ligou pra CBF pedindo um ajuste no calendário por causa desses times? Claro que não.

O Fla-Flu foi adiado não porque era impossível jogar no sábado. Foi adiado porque o Flamengo tem poder pra pedir e a CBF tem o hábito de ceder.

"Mas os dois clubes concordaram"

Já ouço o argumento. "Neide, o Fluminense também pediu o adiamento. Não foi só o Flamengo." Verdade. O Flu concordou. Talvez até por interesse próprio, talvez por solidariedade ao adversário, talvez porque jogar descansado num domingo seja melhor pra eles também.

Mas aqui não estou discutindo a relação entre os dois clubes. Estou discutindo o precedente institucional. Quando a CBF aceita mover um jogo a pedido de equipes poderosas, ela estabelece uma hierarquia não-oficial de quem pode e quem não pode interferir no calendário. E essa hierarquia não é escrita em nenhum regulamento. Ela existe porque existe, sustentada pela omissão da entidade.

Torcedores que compraram ingresso pro sábado foram informados que podem pedir reembolso. Bonito. Mas quem devolve o dia de folga tirado no trabalho? A viagem marcada? O plano feito? Calendário de futebol não é um post de Instagram que você edita depois se não curtir.

O Maracanã espera, a CBF envergonha

Não sou contra o Fla-Flu. Adoro o Fla-Flu. O clássico de domingo no Maracanã vai ser lindo, cheio, emocionante. O Flamengo quer entrar no G3, o Fluminense quer provar que a campanha consistente do Brasileirão 2026 é real. Vai ser grande.

Mas a grandeza do clássico não limpa a fraqueza institucional da CBF.

O problema não é o Fla-Flu acontecer no domingo. O problema é a CBF continuar sendo uma entidade que administra o calendário do futebol brasileiro conforme o peso de quem liga. Isso prejudica a seriedade da competição, cria ressentimento nos clubes menores e, no longo prazo, corrói a credibilidade das decisões da entidade.

Um dia, talvez, a CBF vai dizer "não" pra um pedido de time grande. E todo mundo vai ficar tão surpreso que vai virar manchete. Até lá, o chapéu continua na mão.


Neide Ferreira escreve às terças, quintas e quando a polêmica manda.

Fonte: Jornal Pequeno, CBF | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.