Brasil estreia nas Copas com quatro empates: empate é a nossa identidade?
Fluminense, Cruzeiro, Vasco e São Paulo abriram a campanha continental empatando em 0 a 0. Quatro times, quatro empates, zero gols. Neide Ferreira analisa a noite decepcionante.


Quatro jogos. Quatro empates. Zero gols. Essa é a fotografia do futebol brasileiro na estreia continental de 2026.
Na noite desta terça-feira, Fluminense, Cruzeiro, Vasco e São Paulo disputaram a primeira rodada da Libertadores e da Sul-Americana, respectivamente. Todos voltaram pra casa com um mísero ponto. Nenhum ganhou. Nenhum fez um único gol. Se isso não é um retrato da crise técnica dos nossos clubes no exterior, então eu não sei o que é.
Os quatro empates, um por um
Fluminense 0 x 0 La Guaira — O Tricolor das Laranjeiras viajou a Caracas com moral de favorito no Grupo C da Libertadores e ficou rodando em círculos diante do goleiro Varela, que se transformou na barreira humana da Venezuela. Flu dominou, 63,8% de posse, sete finalizações ao gol. Sete! E não conseguiu marcar. Numa competição em que cada ponto fora de casa vale ouro, empatar com o anfitrião bolivariano é um recado: não está fácil, não.
Barcelona-EQU 0 x 0 Cruzeiro — O Cruzeiro viajou a Guayaquil numa situação delicada no Brasileirão — 19º colocado, convivendo com o fantasma do rebaixamento — e, mesmo assim, arrancou o empate no Ecuador. Pode até parecer um resultado aceitável fora de casa, mas venhamos: o time não deu o mínimo sinal de que vai brigar pelo topo do grupo. Pontinho, sorriso amarelo e tchau. O torcedor cruzeirense já tem preocupação demais.
Barracas Central 0 x 0 Vasco — Esse é o que mais dói. O Vasco entrou em Buenos Aires com 62,8% de posse de bola, o adversário ficou com dez jogadores após a expulsão de Maxi Puig, e mesmo assim o Cruz-Maltino não conseguiu marcar. Dez contra onze. Mais de meia hora jogando com vantagem numérica. E zero gols. Vasco, onde está o ataque? Porque eu procurei e não encontrei.
Boston River 0 x 0 São Paulo — O Tricolor paulista enfrentou os uruguaios no Estádio Centenário e saiu de lá com o mesmo placar. Sem Calleri, o São Paulo mostrou exatamente o que acontece quando o centroavante titular não joga: o time some do ataque. A partida foi burocrática, sem emoção, e o empate representou mais alívio do que conquista.
Análise: o que está errado com o futebol brasileiro lá fora?
Não é coincidência. Quatro times, quatro campeonatos distintos dentro das Copas, quatro adversários completamente diferentes — e o mesmo resultado coletivo. Isso fala de um padrão.
Primeiro ponto: eficiência ofensiva. O futebol brasileiro atual produz muitas chances, mas finaliza mal. Fluminense com sete chegadas ao gol e nada. Vasco em superioridade numérica e nada. São Paulo sem o artilheiro e nada. É o reflexo de um mercado que negligenciou os centroavantes goleadores há anos. Contratamos meias, laterais, mais meias — e ficamos sem um 9 que resolva num momento decisivo.
Segundo ponto: adaptação ao contexto. Jogar na Venezuela, no Equador, na Argentina e no Uruguai tem variáveis que não se anulam só com qualidade técnica. Altitude, campo, arbitragem local, calor — tudo isso é real. Mas quando se tem um homem a mais e não se marca, a desculpa da logística já não cola.
Terceiro ponto: mentalidade competitiva. As equipes que saem de casa para empatar — ou que se contentam com o empate — raramente avançam nas fases. A história das Copas está cheia de times que passaram o grupo inteiro fazendo 0 a 0 e caíram logo depois. Um ponto na rodada inaugural não é o fim do mundo, mas o modo como esses empates aconteceram é o que preocupa.
O que vem por aí
A segunda rodada da fase de grupos ocorre na semana que vem, e os times da casa vão ter a vantagem da reestreia em seus estádios. O Fluminense volta ao Maracanã, o Vasco ao São Januário, o São Paulo ao Morumbi.
Cruzeiro e Vasco, em particular, precisam urgentemente de uma vitória para não deixar o moral da temporada continental derrapar antes de começar. Mas para isso, vão precisar mostrar um futebol que esta terça-feira — com todo o respeito — simplesmente não apareceu.
Uma última coisa: alguém avisa pro futebol brasileiro que o "empate é um bom resultado fora" era frase de 2008? Em 2026, quando times bolivianos vencem argentinos e equatorianos segurem cruzeirenses, o manual precisa ser reescrito. Urgente.
Neide Ferreira escreve às terças e quintas no Beira do Campo.
Fonte: ESPN Brasil, VAVEL | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


