Vasco fechou março invicto. Agora a realidade bate na porta
Renato Gaúcho conduziu o Vasco por março sem perder uma vez. Mas o calendário de abril é impiedoso — e Neide não deixa ninguém ficar muito confortável.


Março acabou para o Vasco da Gama, e o resultado é daqueles que irritam quem apostou contra: o clube fechou o mês invicto no Brasileirão, com Renato Gaúcho na beira do campo fazendo aquela cara de "eu sabia que daria certo". E deu. Deu mesmo. Agora, claro, a pergunta que eu faço — porque alguém tem que fazer — é: e agora, quando começar a valer de verdade?
O que Renato Gaúcho construiu em março
Vamos aos fatos, porque número não abraça ninguém, mas também não mente. O Vasco de Renato Gaúcho chegou a março com expectativa e saiu com entrega. A vitória sobre o Palmeiras por 2 a 1 na rodada 5 já tinha sido um sinal. A goleada sobre o Fluminense, 3 a 2, na rodada 7, confirmou que não era fluke. E no fechamento, no domingo, 2 a 1 sobre o Grêmio em São Januário — com gols de Cuiabano e David — o recado ficou claro: esse time não está de bobeira.
Quatro rodadas sem perder, misturando vitórias consistentes com um empate em 3 a 3 contra o Cruzeiro que, convenhamos, poderia ter terminado em vitória também. O Vasco está em bloco, organizado, e Renato conseguiu algo que pareceu impossível durante boa parte de 2025: fazer o time jogar de forma coletiva, sem depender de um único nome para resolver.
Luís Castro, técnico do Grêmio, admitiu publicamente após o jogo de domingo que o time gaúcho sofre muito longe de Porto Alegre. Só que elogio indireto também é elogio. O Vasco pressionou, construiu as jogadas e mereceu os três pontos.
Os dados que sustentam o otimismo — e os que deveriam acender o alerta
Antes de alguém me acusar de estar fazendo o papel de festa de torcedor, deixa eu ser justa. O Vasco está bem. Os números do mês são reais. Mas tem alguns contextos que a euforia costuma varrer para baixo do tapete.
Primeiro: o calendário de março foi relativamente amigável. A Data-FIFA veio no momento em que o Brasileirão já havia feito oito rodadas, e o Vasco pegou adversários que — com todo o respeito — não são os mais perigosos quando se está em casa. O paradoxo do xG vascaíno que o Thiago Borges mapeou aqui no portal há algumas semanas ainda existe: o clube cria menos oportunidades de gol do que o placar sugere, mas está sendo extremamente eficiente.
Eficiência é ótima. Eficiência que depende de tudo entrar, porém, tem prazo de validade.
Segundo: o mercado de transferências fecha na quinta-feira, 27 de março. O Vasco ainda tem carências no elenco — a lateral, especialmente, é um ponto frágil — e se a janela fechar sem reforços estratégicos, Renato Gaúcho vai precisar de ainda mais magia no segundo trimestre da temporada.
Abril chega com tudo
E é aí que a conversa muda de tom. Porque o que vem pela frente faz o março parecer uma excursão de final de semana.
O Vasco estreia na fase de grupos da Copa Sul-Americana a partir de abril, com um grupo que inclui Olimpia (Paraguai), Audax Italiano (Chile) e Barracas Central (Argentina). Não é o pior grupo do mundo, mas é competição internacional com viagens, desgaste físico e o peso de representar o Brasil em campo.
Tem mais: a Copa do Brasil 5ª fase colocou o Vasco diante do Paysandu, com vantagem de jogar o segundo jogo em São Januário. Fácil? Na teoria. Mas o Paysandu de 2026 não é clube que se subestima, e a Copa do Brasil sempre tem uma surpresa guardada.
E o Brasileirão, claro, vai continuar. Com adversários cada vez mais difíceis à medida que a temporada avança e os técnicos entendem melhor os rivais.
O Vasco invicto em março é a melhor versão possível de um clube que esteve à beira do abismo. Agora, tudo isso precisa sobreviver a um trimestre que vai exigir muito mais do elenco, da comissão técnica e da diretoria — que ainda precisa mostrar que a janela de transferências foi usada com sabedoria.
Meu veredito: crença com pé no chão
Eu gosto do que vi. Sei que isso pode chocar quem me conhece como a pessoa que raramente elogia qualquer coisa com facilidade. Mas o Vasco de Renato Gaúcho mostrou caráter, organização e resultado. Três coisas que, no futebol brasileiro de hoje — onde oito técnicos já foram demitidos em oito rodadas de Brasileirão — são quase artigos de luxo.
Só que quem acompanha o futebol há tanto tempo quanto eu sabe: março é só o aquecimento. O campeonato de verdade começa quando o calendário aperta, o elenco está exausto e as torcidas perdem a paciência. É ali que Renato Gaúcho vai mostrar se é o gestor que o Vasco precisava ou mais um nome bonito numa lista de promessas não cumpridas.
Torço para que seja o primeiro. Mas não vou apostar a minha reputação ainda. Me perguntem de novo em junho.
— Neide Ferreira
Fonte: Lance!, O Globo, SuperVasco | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


