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Brasileirão 2026: 8 técnicos demitidos em 8 rodadas — recorde perturbador

O Brasileirão 2026 registra uma demissão de técnico por rodada disputada. Oito treinadores caíram nas primeiras oito jornadas — o pior início de temporada da era dos pontos corridos.

Thiago Borges
Thiago Borges
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Brasileirão 2026: 8 técnicos demitidos em 8 rodadas — recorde perturbador
Ilustração — A beira do campo virou território de despedidas no Brasileirão 2026

A matemática é simples e brutal: 8 rodadas disputadas, 8 técnicos demitidos. O Brasileirão 2026 chegou à oitava jornada com aproveitamento perfeito apenas nas demissões — uma por rodada, sem falhar. O indicador coloca a temporada no patamar do pior início da era dos pontos corridos no futebol brasileiro.

O número faz sentido contextual quando se olha para os bastidores: janela de transferências bilionária, elencos superestimados, pressão de acionistas estrangeiros e uma competência técnica europeia que não se adaptou ao ritmo e às exigências do futebol brasileiro. O resultado é uma espiral de impaciência que compromete qualquer projeto minimamente estruturado.

O que os números dizem

Oito é o dado bruto. O dado mais relevante, porém, está na qualidade das vítimas. Não foram técnicos improvisados, interinos ou promovidos às pressas: a lista inclui campeões mundiais interinos, bicampeões brasileiros, referências da metodologia europeia e um técnico demitido horas após uma goleada de 8 a 0.

O aproveitamento médio dos oito demitidos até o momento da saída foi de 50,3% — número que, em qualquer temporada anterior, garantiria conforto no cargo por mais alguns meses. Dois dos oito foram desligados antes mesmo de completar a quinta rodada do Brasileirão, com os elencos ainda em fase de entrosamento.

Outro recorte relevante: cinco dos oito treinadores são argentinos. Sampaoli, Osorio, Crespo, Vojvoda e Anselmi. A seleção de técnicos do Prata foi, durante anos, o principal ativo do mercado sul-americano. Em 2026, virou a principal fonte de rescisões milionárias.

A lista: quem caiu, quando e por quê

RodadaTécnicoClubeAproveitamentoMotivo principal
Jorge SampaoliAtlético-MGDesgaste + empate 3x3 com Remo
3ª/4ªFernando DinizVasco20V-13D-22LDerrotas em clássicos, inconsistência
4ª/5ªJuan Carlos OsorioRemo4V-8D-2LDerrota na final do Paraense
Filipe LuísFlamengo63V-23D-15L (69,9%)Negociação paralela com Chelsea
Hernán CrespoSão Paulo21V-7D-18LDivergências internas com diretoria
TiteCruzeiro8V-3D-6L (52,9%)Empate 3x3 com Vasco + derrota anterior
Juan Pablo VojvodaSantos10V-13D-10L (43,4%)Derrota para Internacional, faixa de Z4
Martín AnselmiBotafogo7V-2E-9L (39%)Libertadores, resultados abaixo

A tabela deixa evidente o espectro amplo das saídas. De Filipe Luís — com quase 70% de aproveitamento e goleada de 8 a 0 na última partida — a Anselmi, que carregava o peso de uma equipe em colapso numérico desde a Libertadores. A diversidade de contextos desafia qualquer teoria unificada sobre o fenômeno.

O fenômeno argentino: 5 de 8

A hegemonia argentina no mercado de treinadores do Brasileirão foi construída ao longo de uma década. Técnicos como Cuca, Renato Gaúcho e Dorival Júnior resistiram, mas o capital estrangeiro — especialmente de grupos americanos e europeus que assumiram clubes brasileiros — acelerou a importação de metodologias do futebol do Prata.

O resultado em 2026 é contraditório: a mesma origem geográfica que domina as contratações domina também as demissões. Dos cinco argentinos desligados, apenas Anselmi tinha uma janela real de continuidade — e sua saída foi a mais emblemática da temporada, com John Textor criticando publicamente a evolução do trabalho.

Os outros quatro foram vítimas de impaciência diretorial. Crespo foi demitido do São Paulo mesmo com o clube brigando pelo título — o estopim foram declarações consideradas "pessimistas" sobre o elenco. Vojvoda recebeu o aviso de dispensa após uma derrota, com o Santos ainda longe da zona de rebaixamento na época.

A lógica binária de "ganhar ou sair" ignora ciclos de adaptação que o futebol moderno exige. O técnico do exterior leva tempo para entender o calendário compressionado, os interesses de clube e seleção, e a intensidade física do campeonato. Quando esse tempo não é dado, o ciclo se repete.

Contexto histórico: é recorde?

AnoDemissões nas primeiras 8 rodadas
20268
20255–7 (fontes divergem)
20242
20233

O número de 2026 é o mais alto em pelo menos quatro temporadas para o período equivalente. O recorde absoluto da era dos pontos corridos está em 2003 — quando o torneio tinha 24 clubes e registrou 40 trocas de técnico em uma temporada — mas a taxa proporcional de 2026, considerando os 20 participantes atuais, é inédita no recente histórico.

Há um fator agravante: a janela de verão de 2026 movimentou R$ 1,6 bilhão apenas no mercado interno. Quando o investimento é alto e o resultado não é imediato, a pressão por responsabilização se intensifica — e o técnico é o elo mais frágil da cadeia.

O que esse padrão revela

A média de uma demissão por rodada não é apenas um recorde estatístico — é um sintoma de gestão. O futebol brasileiro desenvolveu uma intolerância crônica com processos que exigem mais de dois meses para amadurecer.

Três clubes já estão em sua segunda gestão técnica na temporada. O Flamengo, com mais de 69% de aproveitamento sob Filipe Luís, precisou de um técnico substituto antes do carnaval. O Cruzeiro de Tite — ainda em fase de integração do elenco após a janela — não chegou a completar dois meses de trabalho.

O impacto prático é mensurável: as equipes que trocaram de técnico têm, em média, 12% menos aproveitamento nas três rodadas seguintes à demissão em comparação ao desempenho anterior. O "efeito camarote" — melhora imediata pós-demissão — não se materializou para a maioria dos clubes nesta temporada.

Se o Brasileirão 2026 vai completar 38 rodadas com 38 demissões é, evidentemente, improvável. Mas a trajetória das primeiras 8 jornadas já deixou uma marca difícil de apagar: a de um campeonato que, antes de decidir o campeão, está ocupado demais descartando os seus próprios treinadores.

Fonte: Bem Paraná, Placar, 365Scores, Lance! | Informações adicionais por Beira do Campo

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Thiago Borges
Thiago Borges

Analista de Dados

Cientista de dados e fanático por futebol. Usa estatísticas avançadas (xG, xA, PPDA) para desvendar o que os olhos não veem. Transforma números em histórias.